Sororidade não existe

02.11.2014 - Hillary Clinton in a campaign event of Senator Jeanne Shaheen (D-NH). Foto: Marc Nozell.

Você já ouviu falar em “sororidade”? Não? Bem, talvez sim, caso você tenha o hábito de andar lá pelos rincões do Facebook. Mas, se aceita minha explicação, aí vai:

Sororidade é a empatia automática que uma mulher deve ter com outra mulher independentemente de sua história pregressa e até mesmo de seu caráter. A ideia é: já que nós duas temos “vaginas”, e somos “oprimidas pelo patriarcado”, devemos advogar uma em defesa da outra.

Isso na prática funciona? Evidente que não.

Hillary Clinton - Sororidade

Entendo como um grande erro mulheres que insistem em carregar diversos estigmas umas sobre as outras. Não adianta dizer que os estigmas não existem: está na música de uma funkeira dessas, que recentemente foi alçada ao posto nobre de ‘feminista do povão’ – é mole?

A música da funkeira diz “O meu sensor de periguete explodiu. Pega sua inveja e vai pra puta que pariu…” Que inveja? Do que ela tá falando? Que coisa mais de gente com espírito de porco.

Você pode pensar: “ah a música é só uma brincadeira”. É uma brincadeira ruim, você já viu a selvageria que é quando uma mulher briga com a outra por causa de vagabundo? Vá ao Youtube e veja. Faça o search “talarica”, veja a violência que é uma briga dessas. Não há só mulheres, mas meninas se estapeando por disputa de vaidade – muitas vezes alimentada pela música da “feminista funkeira”.

Você acha tudo lindo? A funkeira é amiga dos gays? Vai vendo…

Outra que a gente pega na mentira é Hillary Clinton, que eu considero uma imoral por ter fechado os olhos e virado a cara para o boquete histórico no Salão Oval, mas ela ainda foi além: passou a vender uma almofada femininistinha durante sua atual campanha – só devemos lembrar que a mulher de Bill deixou Monica Lewinsky sair de piranha sozinha nessa história toda.

Hillary jamais teve a tal “sororidade” com Monica Lewinsky quando deveria ter. Cadê a sororidade com a estagiária que fez sexo oral no seu marido? Tem não, alguns sentimentos nossos são animalescos, principalmente aqueles que ferem nossa dignidade de fêmea. Nunca a Sra. Clinton abriu a boca para falar nada para minimamente defender Monica. Eu não me preocuparia com isso, se Hillary agora não inventasse de bancar a feminista em 2015/16, porque vivemos tempos de uma justiça social histérica e ela queria achar seu nicho e, por ser mulher, achou legal virar feminista como quando era universitária.

Ah, sabe o que eu lembrei? A Hillary tem um “projeto” para os EUA, que é muito grande e bonito para ser estragado por um boquete…

Aham.

Outro dia deu na TV que uma mãe largou um bebê recém-nascido em um córrego, para a criança morrer mesmo. E o neném morreu, de fato. Questionada, a mãe relatou que escondeu a gravidez do avô da criança que era bêbado e violento e, quando nasceu seu filho, achou que seria uma boa ideia descartar a criança no córrego, no frio, ao relento. Se você tiver um pingo de sanidade, essa história vai chocá-lo e você pensará “essa mulher deve ser presa, afinal ela é uma assassina”, certo? Errado. Aliás, se for uma adepta do feminismo contemporâneo, erradíssimo.

Uma dessas feministas, no Twitter, me disse o seguinte: “você tem que olhar com ‘sororidade’ para a mulher porque ela sofreu violência do patriarcado e por isso pirou e matou o filho”. Percebem?

O pessoal tá passando a mão na cabeça em nome da tal sororidade. Será que eu deveria ter sororidade com a Suzane Von Richstofen e com o Sandrão sua ex- namorada sequestradora de criancinha?

O feminismo da Hillary, assim como o da funkeira, vem bem a calhar quando elas precisam “humanizar” sua imagem, ainda que no passado elas próprias tenham jogado mulheres na fogueira com o que disseram, cantaram ou mesmo deixaram de fazer.

Que sororidade é essa da Hillary e da funkeira? Acredito que “sororidade” a gente deva ter com mulher que tenha bom caráter. Mas aí é respeito e isso se tem com qualquer um independentemente do sexo. Sororidade não existe.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

Cavalheirismo não é machismo, é só um sinônimo de gentileza

Cavalheirismo - Machismo

Há tempos o feminismo convencional tem mirado no termo “cavalheirismo” como algo ameaçador. Já li em algum lugar que o cavalheirismo é “o machismo envernizado”. Aparentemente, é como se um homem que presta honrarias a uma mulher fosse uma raposa disfarçada, esperando o melhor momento para enganar, ludibriar e se apoderar dessa pobre mulher vítima de um macho que se ofereceu para abrir a porta do elevador para ela. Que elas não me ouçam, mas esse é até um comportamento inconscientemente cristão, porque o diabo sempre se mostra sedutor e quando o incauto é seduzido pela fala mole do capiroto todos os males lhe acontecem porque no final das contas o diabo é o diabo. E assim tem sido visto o cavalheirismo masculino.

O que é um grande equívoco nessa história toda, além da óbvia desumanidade em encher o saco dos caras por nada, é que as investidas cavalheiras podem ser apenas uma tentativa de colocar em prática o melhor da educação que esse homem em questão recebeu da família. Famílias de rapazes simples podem apenas estar tentando educá-los para tratar com muita polidez uma mulher. E isso é tão bonito! Desdenhar ou querer dar uma aula de sociologia em uma situação em que um homem tenta ser cavalheiro é de um pedantismo doentio, reação tão infame quanto o ateu que responde “não acredito em Deus” quando alguém lhe deseja que fique com Ele. Em ambos os casos basta dizer “obrigado (a)”. Não seja idiota.

É comum, pelo Brasil, o conceito de que as mulheres são mais frágeis e portanto mais suscetíveis a certas situações que os homens. Nós somos latinos e em certo aspecto as mulheres são mais frágeis mesmo. Pela simples diferença da compleição física e nada mais, não há nenhuma outra teoria oculta, é coisa de biologia. O corpo masculino tem, em geral, mais capacidade cardíaca e pulmonar – ao menos que você seja uma atleta e tenha superado isso. Negar que somos biologicamente diferentes é uma perda de tempo que não leva a um lugar lúcido dessa discussão dos direitos inerentes aos gêneros e demais questões. Homens querem proteger mulheres. Que que tem? Isso não faz de nós seres incautos, frágeis e quase princesas anencéfalas.

Em uma busca simples pelo significado “cavalheirismo” se encontra apenas adjetivos que – desculpe essa frase de ursinho carinhoso – poderiam fazer um mundo melhor: nobreza, cortesia, gentileza. Não tem como dar errado um gesto cavalheiro que, prestem atenção, em nenhum lugar da história da nossa civilização está escrito que deva partir um homem para uma mulher. Já pararam pra pensar que mulheres podem ser cavalheiras? Sim, o substantivo existe na língua portuguesa na flexão do gênero feminino, ninguém precisou forçar a barra como no episódio recente do uso do “presidenta” – cruz credo, inclusive.

Toda essa desconfiança com o cavalheirismo me faz lembrar Dom Quixote: um homem que é gentil e sua gentileza faz dele um bobo ou um ser maligno como alguns acreditam nessa contemporaneidade. Sabe aquele sentimento de compaixão e admiração concomitantes? O sentimento que dá um nó na garganta como naquele filme “O Campeão” do Franco Zefirelli em que o John Voight morre no ringue? Porque vai haver um Dom Quixote nessa história toda, alguém simples que acha correto o seu cavalheirismo compartilhado com homens e mulheres e que de repente descobriu que seu jeito de ser, o que lhe ensinaram ser certo, na verdade é errado. Independentemente do cavalheirismo, a maldade, a grosseria e a violência vão existir. Pode reparar, a sociedade agora deu de querer acabar com as coisas bonitas da vida.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

“A sociedade exige muito da mulher”. E daí, meu bem?

Esta é Margaret Tatcher e ela provavelmente teria vergonha de muitas mulheres desta geração.
Esta é Margaret Tatcher e ela provavelmente teria vergonha de muitas mulheres desta geração.

Um dos maiores paradoxos da minha geração de mulheres é a capacidade de reivindicar a liberdade de exercer diferentes comportamentos individuais ao mesmo tempo e na mesma intensidade em que se reclama da opressão externa. Como se só o que faltasse mesmo fosse o “aval” da sociedade para que as reclamantes sejam quem elas querem ser. Não tem nenhuma lei que impeça, é somente a “opressão da sociedade” que impede essas maravilhosas fadas de existirem em sua plenitude.

Chamou atenção um recente texto de Facebook, desses que as pessoas se sentem acolhidas em uma primeira reação e danam a compartilhar o troço sem notar que estão depondo demais contra si porque o imediatismo impede uma segunda análise mais criteriosa que, se fosse feita, traria uma sensação vergonhosa – caso o sujeito tivesse um pingo de dignidade e um tantinho assim de maturidade.

O texto tratava de um desabafo, um chororô brabo de uma moça na casa dos 30 anos que após cinco meses sem falar com o pai resolve ligar para o homem e ouve um “e aí, já consegue se sustentar sozinha? ”.
Pronto, estava servido o drama e ao longo dessa coluna, vou compartilhar alguns trechos do relato supracitado.

O que quero aqui é refletir um bocado sobre essa pressão absurda que a sociedade nos impõe de sermos financeiramente bem sucedidos antes dos 30 anos.”

Pressão da sociedade, entende-se: pergunta de um pai que está querendo ver sua filha andando com as próprias pernas. Ele não estará sempre lá para enviar o dinheiro de uma ou outra conta atrasada, o aluguel, o condomínio; esse pai sabe que o tempo de provedor dele pelas leis inexoráveis da vida vai acabar e talvez não saiba o que falar para a filha adulta como incentivo. O pai que veio de uma geração em que se casava aos 20, aos 30 dava entrada na casa própria e já havia pelo menos um ou dois filhos em casa. Dá para ser errante com uma família que depende de você? Por que é tão difícil para essa geração ser cobrada por etapas simples da vida como pagar o próprio papel higiênico?

É óbvio que eu gostaria de já estar totalmente resolvida aos meus 26 anos, não precisar da ajuda de mais ninguém pra absolutamente nada, sair do país duas vezes por ano e tudo mais. No entanto, essa não é a minha realidade – nem a de ninguém que eu conheça”.

O ideal de sucesso dessas pessoas é totalmente corrompido e é o resultado do que elas absorvem ao ver as diversas personas virtuais dos seus contatos online. Essas personas virtuais são cuidadosamente montadas: viagens, empregos, cursos são postados… Mas quem sabe a realidade? É evidente que pouquíssimas pessoas têm interesse em compartilhar as vicissitudes da vida. Lembrem-se: a foto do mochilão no Leste Europeu pode esconder uma enorme dívida no cartão de crédito.

E se for mulher, dieta nela. Porque não pode engordar de tanto estresse, né mores, senão não ~arruma um homem~. Porque, né, no meio disso tudo, cê não pode apenas optar em não namorar ninguém, vai ficar pra titia”.

Qual seria o problema em se transformar em uma alegre senhora que não se casou e que tudo bem, não sentiu segurança nos amores que a vida lhe ofereceu e optou por criar gatos e dedicar o amor aos sobrinhos? Acontece. Não engordar, nesse caso, é não ter talvez uma relação de escapismo com a comida, o que é uma relação nociva. Quanto ao corpo de uma mulher ser rechonchudo… Será que os homens não preferem que as mulheres sejam simplesmente felizes? Confortáveis com seus corpos? Já experimentou deixar de ser chata?

Talvez o correto seja levar a vida que dá, mas sempre com dignidade, fé e disciplina, porque a felicidade pode estar na recompensa e na fé por conquistar algo e dedicar-se a esse propósito: seja um trabalho, uma criança, um amor, um projeto de estudo. Como pode alguém querer todas essas coisas e ainda apontar que os únicos meios honestos para conseguir todas elas não devem ser objetivados porque na verdade tratam-se de “injustas imposições da sociedade”? Pior é ver o quanto de gente se identifica com esse discurso (mais de 20 mil compartilhamentos). Essa geração que se acha privilegiada e que “merece” ser recompensada, porque “é muito especial”. Mas o que fazem essas criaturas para serem tão iluminadas que não podem pegar no pesado para conseguir as próprias realizações pessoais? Ah, isso jamais saberemos.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

A Era da Lacração Publicitária

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Lacra-se de um lado, louva-se de outro.

Tenho 35 anos e faço parte da tal “geração Y” ou Millennials. Viemos depois da geração X que veio depois da geração baby boom. Gosto muito de acompanhar as mudanças da sociedade através de peças de campanhas publicitárias que mantenho em um board do Pinterest – o Reclames Velhos. A excelência dos anúncios se dá porque você nem precisa de um professor de história se acompanhar atentamente a publicidade e o melhor, vai poder tirar suas próprias conclusões ao invés de pagar pau para a Escola de Frankfurt. Recomendo.

Voltemos aos Millennials. Pertencem à essa geração uma gama de gente entre 21 e 39 anos e segundo um grande estudo de abril deste ano “The Next World: How Millennials Will Shape Retail”, essa já é a grande geração consumidora do momento. O mundo obviamente está envelhecendo e em 2025 os Millennials serão 75% da força de trabalho em todo mundo, ou seja, 75% das pessoas com poder de compra. Assim, a publicidade já está de olho nessa fatia consumidora e atualmente tudo é pensado para eles. A pesquisa, que foi realizada em 14 países dos cinco continentes, mostrou o que a gente já desconfiava: essa é uma geração não consome pela qualidade do produto/custo/benefício somente. Os valores e posicionamentos da marca ou mesmo de seus representantes são fatores decisivos na hora da compra.

Em 2013 o italiano Guido Barilla, dono da Barilla, uma marca que produz excelentes produtos alimentícios disse, em uma rádio italiana que não faria campanhas publicitárias com gays porque a Barilla representa a família tradicional. Guido Barilla recebeu uma enxurrada de críticas e ameaças de boicote – inclusive aqui no Brasil onde a lacração no Facebook é 24/7 -, não somente de gays e lésbicas, como de todas as pessoas que se sentiram ofendidas com o que ele havia dito. Teve que voltar atrás para evitar um prejuízo e assim nasceu o “escritório da diversidade” um espaço da Barilla dedicado a dar uma atenção especial para o público LGBT. Será que o italiano Guido Barilla mudou sua opinião pessoal sobre família depois disso?

O desejo das marcas em agradar os Millenials – que se preocupam com o mundo e suas mazelas, mas estão consumindo como nunca produtos feitos na China -, tem produzido eventos publicitários quase esquizofrênicos como a recente campanha da Avon #SintaNaPele. Trata-se de uma campanha que busca a liberação dos gêneros usando transexuais, travestis e homens que gostem e queiram usar maquiagem. Tudo bem, são consumidores, a empresa tem interesse em vender para eles. No entanto, o mais inacreditável dessa obsessão pelo posicionamento das marcas veio da própria Avon que ao tentar colocar todos seus públicos no mesmo caldeirão deu um tirinho no pé. O Twitter da marca virou uma subfilial do extinto “Humaniza Redes”, vale dar uma conferida e umas boas risadas.

Em fevereiro deste ano, a empresa promoveu uma parceria com a cantora/pastora evangélica Ana Paula Valadão para o lançamento de uma série de bijuterias religiosas. Porém, em maio, a C&A lançou para o Dia dos Namorados uma campanha com roupas unissex e Ana Paula, indignada, faz um enorme post para combater a ideologia de gênero. Logo depois disso, a Avon surgiu com a campanha #SintaNaPele.

A publicidade lacradora de agora evidentemente agrada a muitos, mas deixa um vácuo em integrantes dessa mesma geração que tentam sobreviver em meio às incertezas econômicas. Gente que não pode errar na hora da compra, em um cenário de feijão mulatinho a R$ 14 o quilo, produtos Apple só adquiridos diante de financiamentos. Não há nenhuma certeza ou padrão de vida estável a longo prazo, a geração Millennials está/não está com dinheiro, não consegue encher o carrinho com tantos produtos, precisa de economia, redução de impostos, conselhos práticos, precisos, generosos, de uma relação não-hipócrita com as marcas.

A geração Y precisa é lacrar menos para tentar consumir melhor.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

Reflexão sobre os motivos que levam a um aborto

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Uma das grandes justificativas para o aborto é: “vai atrapalhar minha vida”. A Thais Azevedo da página “Moça, não sou obrigada a ser feminista” – que está sendo processada por um grupo de feministas, inclusive – postou uma frase aterrorizante dita por uma pessoa que pode ter tudo, menos alma. “Antes dos três meses o aborto é como extrair um dente”.

Vamos aqui fazer uma reflexão. Se você quiser estatísticas convido que vá ao site do IBGE – esquerdista tem muito disso “você tem um estudo que comprove o que diz?”. Não tenho nenhum estudo para o que escrevo hoje fora minha própria experiência de vida.

Engravidei com 18 anos: era totalmente inconsequente, não gostava de estudar, ainda não havia sequer terminado o ensino médio. Quando engravidei, milhões de coisas passaram pela minha cabeça, mas nunca a ideia de um aborto. Cresci em uma família liberal e não seria nenhum problema se eu optasse por interromper a gravidez. Mas não quis e foi a melhor decisão que tomei na vida. Só sendo mãe, pude entender o que é dignidade, responsabilidade e amor por mim e pela minha filha. Sendo mãe, pude entender que a vida é muito mais que uns drinks e aquela febre de sair à noite. Se hoje sou uma mulher melhor é porque encarei ser mãe. A maternidade é sempre se sentir culpada, uma culpa que ao mesmo tempo é um propulsor para a busca de ser melhor. Em todos os aspectos: porque sim, você é um exemplo para seu filho, porque você é provedora para seu filho e porque você é tomada de um amor absurdo pelo seu filho.

Ao colocar o avatar no Facebook para se posicionar a favor do aborto será que as pessoas refletem sobre algo que não seja a própria vaidade? “Sou a favor do aborto”. Por quê? Porque você está no primeiro ano da federal de História? Você já fez um aborto? Você engravidou? Você teve responsabilidade por outra pessoa? Você acha realmente que abortar não é nada? É como extrair um dente? A atual discussão feminista brasileira sobre o aborto é rasa, superficial e claramente um desprezo à vida. Você não precisa ser religioso para respeitar a formação biológica de um bebê, para tratar a vida com dignidade e respeito.

Há anos nós mulheres estamos buscando melhores empregos, melhores condições e autonomia para não depender de ninguém. E o erro é achar que uma criança em nossa vida traz menos dignidade ou impede que atinjamos nossos objetivos. A justificativa “vai atrapalhar minha vida” é covarde e desonesta nesse sentido e confere, tanto às mulheres quanto aos homens que repetem essa ladainha, uma indolência com a vida e um vazio da alma.

Volto a dizer, estamos tão atrasados nas questões humanas que enquanto ficamos feito papagaios propagando algo tão sério em avatar de Facebook, as feministas da escola americana já repensam a questão do aborto, olhando com simpatia para as pessoas que defendem a vida. Em abril, Camille Paglia disse na Salon ter um admiração pelos defensores da vida, afirmando que eles “têm moral elevada”. E, na década de 90, Naomi Wolf escreveu o artigo “Our bodies, our souls” (nossos corpos, nossas almas) em que faz uma reflexão sobre a forma indiferente com que o feminismo convencional vem tratando as questões relativas ao aborto.

Se você compara a vida a uma extração dentária, você já está liquidado ou liquidada, apenas praticando a vaidade no Facebook, se dizendo amigo da humanidade, mas na verdade fazendo parte de uma massa amorfa. Por isso a sua alma não existe, ainda que você seja ateu. Mais do que a contemplação religiosa, a alma é o repeito que você cultua para as coisas morais. O seu respeito pelo amor, por exemplo, te confere uma alma. O aborto não salva a vida de ninguém de ser “atrapalhada”. As implicações no decorrer da vida surgem das causas internas, dos medos, da depressão e do vazio existencial. Fica o meu convite para que você reflita sobre as questões do aborto, ele não é garantia de felicidade e a relativização pode te levar a comparar a extinção da vida com a extração de um dente.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.

Regras e mais regras do neofeminismo de Internet

Alguém disse recentemente: poderia ser Justin Bieber, mas é feminismo. Desde que o feminismo tomou conta das cabeças de pessoas preocupadas com as injustiças do mundo, nós mulheres vivemos um fenômeno interessante, porém nada novo.

Estamos em mais um ciclo de determinações e padrões de comportamento que agora surgem desdobrados em um oferecimento de “liberdade” feminina que dos seios ao corpo inteiro diz que você deve mostrar-se como quiser, fazer o que quiser, dormir com quem quiser. Mas nada tão livre quanto parece. São estereótipos disfarçados de liberdade e que não “oprimem” os homens, mas sim as próprias mulheres.

É tão organizado e convicto o feminismo contemporâneo que, da cultura do estupro ao jeito de vestir e de opinar politicamente, exerce uma série de caminhos obrigatórios para as mulheres. As que não se veem nisso, não se encontram nesse discurso salvador das mulheres, são veladamente discriminadas. Devem essas incautas estar influenciadas por homens, pelos preceitos da Bíblia, pela família, por marcianos, menos por iniciativa própria.

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Se você foge ao discurso pró aborto, anti patriarcado, se entende que a cultura do estupro é parte fundamental para o status quo do feminismo contemporâneo, você jamais chegaria à essas conclusões sozinha, está influenciada pelos homens da sua vida. Sim, sempre haverá homens em nossa vida, porque a sociedade não é patriarcal ou matriarcal a sociedade são todas as pessoas com os seus órgãos sexuais e hormônios. Ora, como pode me empoderar um movimento que não crê que posso sozinha construir minhas próprias convicções?

O que propõe “empoderar” mulheres é implacável com aquelas que optam por não fazer parte disso. Há mulheres que jamais se identificariam com nenhum discurso pronto, com os posts dos novos blogs feministas brasileiros que têm todos a mesma fórmula para transmitir esse neofeminismo mequetrefe: situação de humilhação hipotética ou real, desenvolvimento da situação com uma auto avaliação dentro desses preceitos e, por fim, a chamada “para a luta” que convoca outras “manas” para impedir que a situação hipotética ou real volte a se repetir. A salvação pelo feminismo.

Não há nenhum problema nesses textos, aliás, dentro da lei todos os textos são permitidos, mas a esmagadora maioria deles é raso e vulgar por se atrelar a uma experiência pessoal mal resolvida em busca de algum tipo de revanche que lhe proporcione uma vitória moral. Sem a pecha do feminismo, esses textos poderiam ser uma expressão da mais linda e desprendida compaixão em que uma mulher aborda seus problemas e outras a ajudam a superar.

É a oportunidade para despejar os sapos engasgados e falar o que não se pode responder à época em que foi chamada de “gorda” na academia. Aquele evento desagradável em que dentro do ônibus você volta cheia de “e se eu tivesse respondido dessa forma”, “por que não mandei fulano tomar no cu?”.

Evidentemente, a ferramenta mais poderosa da Internet é a identificação e várias mulheres se identificam com aquela vez em que a “gorda foi oprimida pela amiga magra” e aí surge a regra: nunca fale nada de gorda. Para dar um exemplo. Nessa neurose, um simples presente como um livro de receitas detox pode ser encarado como opressão. E no final nos vemos diante de mais um gatilho para um grupo ficar contra outro grupo, para a falta de amor.

Pela ideia, o feminismo surge como ferramenta para proporcionar direitos igualitários para as mulheres e proporcionar mecanismos assistenciais para problemas vinculados ao gênero feminino. Porém, o que está acontecendo é uma série de atitudes em detrimento dos homens, a busca por tirar a masculinidade deles e transformá-los em seres barbudinhos inexpressivos e assustados.

O isolamento da amiga que é viciada em academia ou daquela que passou a defender o direito à vida. Como qualquer movimento coletivo, o neofeminismo é ditatorial e revanchista. Um conjunto de regulamentos disfarçado de “seu corpo suas regras”.

Camilla Lopes é jornalista, trabalha há mais de 7 anos com conteúdo online. Também é orgulhosamente mãe e dona de casa. Gosta de escrever sobre a mulher na sociedade. Mantém com Sarah Bergamasco e Karina Audi a página Margaretes. Escreve no Implicante às terças-feiras.