Por que a imprensa brasileira faz uma cobertura tão ruim da eleição norte-americana?

Antes de tudo, é bom avisar que a pergunta do título não é retórica. A dúvida é sincera. Por qual motivo os grandes veículos do Brasil, salvo raríssimas exceções, fazem uma cobertura tão péssima das eleições norte-americanas? E falo aqui, por óbvio, de Donald Trump.

Independentemente da opinião que se tenha sobre o empresário e político, trata-se de um fenômeno sem precedentes. Ele disputou com grandes e poderosos nomes do Partido Republicano e ganhou de todos. Hoje, aparece em algumas pesquisas – inclusive a da CNN – na frente de Hillary Clinton, esposa de um ex-presidente aprovadíssimo e apoiada em pessoa pelo próprio Obama. Não é pouca coisa.

Imprensa - Eleiçoes Americanas - Donald Trump

Mas nossa imprensa, em vez de trazer informações contextuais para explicar ou tentar entender, prefere o sarcasmo, a chacota, o chiste. Ninguém informa o porquê de um sujeito como Trump estar na liderança das pesquisas, dizem apenas que é um falastrão, um preconceituoso, um maluco e assim por diante.

E hoje, na chamada “era da informação”, temos acesso a artigos e blogs publicados em diversos países, de modo que ficam claros alguns exageros, publicados muito mais por motivação editorial/ideológica do que em uma honesta busca da compreensão desse fato.

Um exemplo do quanto a coisa passou do limite: coube a Michael Moore fazer uma autocrítica mais severa da alienação esquerdista. É mole? Quando Michael Moore é a voz mais sensata num grupo, é preciso que seus integrantes façam uma boa análise de seus atos.

E ele aponta, entre outras coisas, o fato de a esquerda viver numa bolha, na qual todo mundo é esquerdista, todos concordam entre si e tudo que os contraria é imediatamente ridicularizado, anulado ou expulso. Mas o mundo, como se sabe, não é esquerdista (há um post aqui no Implicante que explica tal característica da turma canhota) e os fatos muitas vezes tendem a contrariar alguns desejos e crendices da militância.

Sim, é desagradável quando algumas “verdades ideológicas” são desmentidas pela realidade dos fatos. Mas essa ira não justifica a realização de cobertura jornalística tão pífia e muitas vezes desonesta. Num primeiro momento, quem perde são os leitores/telespectadores, mas em médio e longo prazos a derrota é da própria empresa de comunicação, cuja credibilidade será invariavelmente implodida.

Esse caso, convenhamos, foi e ainda é um vexame para muitos analistas políticos. Começaram dizendo que a candidatura não era para valer; e era. Ele seria esmagado nas prévias; e venceu com boa vantagem. Será, então, triturado por Hillary; e pesquisas já o colocam na frente.

Aí complica, não é mesmo? Claro que ele pode perder, mas não cabe ao jornalismo fazer torcida ou priorizar a opinião partidária em vez de verdadeira apuração dos fatos, do contexto, das motivações reais de um cenário.

E vale também destacar um tipo especial de idiota, talvez mais idiota ainda, que solta aquelas frases do tipo “tanto problema aqui e vocês preocupados com a eleição americana”. Se você é desse tipo, fica o conselho, pare com isso. Sério. É ridículo. Caso não consiga entender o quanto importa a nosso país o processo eleitoral na maior potência do mundo, tente ao menos ficar quieto – você passará menos vexame.

Enfim, ao menos por enquanto, perdemos todos com a cobertura majoritária realizada pela grande imprensa brasileira. A torcida deveria ser restrita às colunas e demais espaços de opinião. Uma pena.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

“Escola Sem Partido”: entenda por que a esquerda já perdeu esse debate

Desde a semana passada, grupos de direita e esquerda disputam uma enquete promovida pelo site do Senado, obviamente sem qualquer valor oficial. Tal embate resulta de uma bandeira que passou a ganhar relevância mais recentemente, após uma série de campanhas organizadas e episódios bem lamentáveis de doutrinação nas salas de aula e em livros didáticos.

Em suma, virou uma causa. E a questão é exatamente essa: ao virar causa, pouco importa se haverá ou não uma lei para regular, o fundamental aí é inserir um debate até então inexistente. Sim, isso mesmo: o mesmo expediente usado pelos esquerdistas para levantar os temas de seu interesse.

Escola sem Partido

Antes de tal tópico se tornar uma pauta relevante, a questão era simplesmente ignorada. E, a exemplo da ocupação das ruas, do colunismo da grande imprensa e da vendagem de livros de não-ficção, as salas de aula também eram trincheiras inexpugnáveis, hegemonicamente ocupadas pela militância canhota.

Chega a fazer parte do folclore a ideia de que os professores de determinadas matérias invariavelmente seriam defensores do socialismo e faziam tais defesas nas aulas. Também eram favas contadas os livros com lavagem cerebral e distorção dos fatos para encaixá-los na doutrina ideológica.

Com a extrema visibilidade que o tema ganhou, a coisa ficou complicada.

Autores e editoras agora sabem que serão fiscalizados quanto a isso, seja por parte de alunos, pais ou pessoas de fora das escolas. Os donos de colégio, também; e o mesmo vale para os professores. TODOS os operadores desse mecanismo tem agora plena consciência de que podem ser denunciados.

E essa é a principal e inapelável vitória, que independe da aprovação de uma lei. Caso clássico de advocacy por meio de campanha focada em mudança comportamental: um tema até então praticamente ignorado ganha relevância e passa a ser objeto de atenção/fiscalização.

Prova disso é o comportamento da militância esquerdista: primeiro ignorou, depois negou e agora passa a justificar como característica natural do ofício do magistério. Até tentaram fazer-se de bobos, mas não deu, a pauta os soterrou e tiveram de responder e reagir. Em suma: mais um ponto para a mudança comportamental.

Coisas desse tipo levam tempo e a inserção do debate é apenas o primeiro passo. O próximo será a natural adequação de colégios e chefes de departamento, seja por consequência das reclamações ou seja por medo de que algo assim prejudique a imagem do estabelecimento (ou do governo, no caso das escolas públicas).

Falta muito, é claro, e a eventual aprovação da lei evidentemente ajudará um bocado. Mas o principal é que agora existe tal debate e, com ele, existirá cobrança. Há muitos outros passos e a luta só aumentará daqui pra frente.

Mas o principal é isso: a participação de alunos e pais aumentará, com ela virão cobranças e quem usa as escolas para fazer doutrinação ideológica cedo ou tarde acabará parando, mesmo que não queira.

Portanto, se você acha que o Escola Sem Partido é apenas sobre a aprovação de uma lei, então você ainda não entendeu nada do que está acontecendo. Nem do que vai acontecer. E recomendo, afinal, a leitura da coluna do Cedê Silva, publicada na última sexta-feira.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

A esquerda é especialista em culpar a vítima

Esquerda - Culpa Vitimas

Os esquerdistas, diferentemente do que eles próprios apregoam, não são contrários à prática imbecil de atribuir culpa à vítima em razão de crime por ela sofrido. Fingem ser contra isso, mas é tudo que fazem em diversos casos. Muitos, mesmo.

Já foi dito, por exemplo, que os bandidos assaltam por causa da ostentação alheia. Os “ostentadores”, claro, seriam justamente as vítimas. Culpa delas. O mesmo – e estapafúrdio – raciocínio de que a culpa de um estupro seria o uso de saia curta. Como assim? Um relógio caro desses a essa hora da noite e nessa rua escura? Aí pediu para ser roubado, né? Eles pensam exatamente assim.

Também já disseram que levar objetos de valor à praia seria idiota e quem faz isso merece mesmo sofrer arrastão. De novo, a vítima é culpada. Ninguém manda ela ser trouxa. Aí não tem jeito, o bandido é praticamente obrigado a roubar. Na cabeça canhota, o crime é a regra.

E isso vale também para o terrorismo. Quando da chacina dos jornalistas do Charlie Hebdo, a esquerda chegou a dizer com todas as letras que eles haviam provocado. Culpa deles, ora! Alguns ensaiaram uma mudança de viés, provavelmente alguém deu um toque, mas está tudo registrado. O atentado, para eles, foi decorrência natural do exagero nas piadas.

Falaram também dos ataques recentes, na França e em todo o mundo ocidental. A culpa seria dos terroristas? Nunca! Jamais! A França que é culpada, pois “intervém” no Oriente Médio. O mesmo valendo para os Estados Unidos, Israel, Alemanha, enfim, qualquer país. Praticar o terrorismo, na mentalidade esquerdista, é um processo natural e tais práticas devem ser “compreendidas em seu contexto”.

Outra forma de responsabilizar a vítima é dizer que culpa de determinado crime é “da sociedade”. Ou seja, é de todos. Em suma: quem sofreu o crime tem sua considerável parcela de responsabilidade, pois ajuda a mover as alavancas e engrenagens deste mundo desigual. Só o criminoso, mesmo, que nunca tem nada a ver com isso.

E, claro, há a “culpa cultural”. É mais ou menos parecida com a “da sociedade”, mas teria a peculiaridade de acontecer num contexto em que tal prática seria aceitável. Mesmo sendo expressamente condenável até entre criminosos. Mesmo não sendo praticada nem por 0,001% da população. Nada disso importa. O chavão ideológico sempre prevalece sobre os fatos.

Aliás, a melhor e mais eficiente forma de tirar a responsabilidade de um criminoso é fazer com que a culpa seja de todos. Esse é sem dúvida o maior desserviço do esquerdismo quanto ao enfrentamento dos crimes. A postura dogmática, de não admitir a resolução de um problema quando ela viria a atropelar suas convicções ideológicas, faz com que neguem a própria realidade usando saídas retóricas estapafúrdias para além de qualquer limite.

Desse modo, a esquerda não é contra culpar a vítima. Na verdade, ela é especialista nisso. Ninguém culpa mais as vítimas do que os esquerdistas, pois, em caso contrário, precisariam refutar a ideologia a que devotam fé. E isso eles não admitem nem hipoteticamente.

Em nome desse dogmatismo fundamentalista, os fatos e a verdade que se lasquem. E as vítimas, também.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

O debate mais imbecil da atualidade é o da “Reforma Política”

Todo mundo é a favor da “Reforma Política”. Todos a apontam como grande solução para os problemas estruturais do país e acreditam que sua implantação deveria ser urgente.

Ok, ok. Mas qual reforma? Pois é.

Assim como quando se fala em reformar uma casa, a expressão permite todo tipo de mudança. Desde algumas irrisórias, relativas à pintura, até a demolição de quartos, construção de andares e assim por diante. Dizer-se a favor da “Reforma Política”, sem especificar o que seria reformado, é algo um tanto bocó.

Sim, a expressão tem um efeito sonoro interessante, e o verbo “reformar” possui valor semântico de mudança que cai como luva nos anseios atuais. Mas, a rigor, não significa nada. Pode ser qualquer coisa e ao mesmo tempo coisa nenhuma.

reforma politica

Alguns pontos da “Reforma Política”, aliás, são opostos entre si. Parte da esquerda, por exemplo, defende a adoção de “lista fechada” (vota-se no partido e ele escolhe quem ocupa o parlamento). Mas muitos outros pleiteiam o voto distrital (cada distrito/região teria um candidato à Câmara). Como reformaríamos, nesse caso? E assim vão quase todos os tópicos.

No auge da crise, um “gif” fez sucesso nas redes: Lula, Dilma, Aécio, Marina, Cunha, Renan com as legendas “nem ele, nem ela, nem ele, nem ela” etc. Por fim, as frases de efeito: “FORA TODOS! QUEREMOS A REFORMA POLÍTICA!”. Era impressionante (de forma lamentavelmente negativa) o pessoal divulgando isso a sério, sem ser de forma sarcástica.

Em 2013, quando as “jornadas de junho” explodiram, e o governo e seus militantes ainda achavam possível capitalizar com a revolta (arrogantes que eram e são, jamais suporiam – e até hoje não aceitam – que a GRANDE MAIORIA era/é contra as pautas esquerdistas). Mas o que fez Dilma naquele momento? Depois de longos dias acuada, propôs medidas estapafúrdias, com especial destaque àquela voltada ao que seria sua “Reforma Política”.

Sem medo do ridículo, defendeu a convocação de plebiscito para uma “constituinte exclusiva” a deliberar sobre o que seria reformado. Os petistas, com sua empáfia ignorante, supunham eleger maioria favorável na tal assembleia e, com isso, mudar tudo de acordo com seus interesses.

Desnecessário dizer que, após algumas pesquisas, o próprio governo enterrou essa ideia de jerico. Motivo: tomariam uma surra nas urnas e a tal constituinte seria muito mais “reacionária” do que imaginavam. Tentaram usar as manifestações para emplacar suas pautas, mas perceberam que já tinham perdido apoio ideológico especialmente entre os jovens.

O resto é história: vaias na Copa, panelaços, manifestações com milhões de pessoas e enfim o impeachment. Essa ladeira, hoje praticamente no fim, começou a ser descida naquele momento de 2013.

Não existe uma única “Reforma Política”; cada partido defende a sua e cada militante a empurra para seu lado. Dizer simplesmente “PRECISAMOS FAZER A REFORMA POLÍTICA!”, sejamos francos, é ridículo já no nível em que fica difícil manter o respeito intelectual pela pessoa.

A revolta é compreensível, mas não dá para usar uma frase de efeito como solução de problema objetivo e específico (assim como gritar “TEM QUE ACABAR COM TUDO ISSO QUE ESTÁ AÍ” não costuma dar certo para acabar com nada que está aí). E é patético que o debate pare justamente nesse ponto. Pedem a “reforma” e fim de papo, sem nem dizer o que pretendem reformar – ou então até dizem, mas recuam quando percebem que os eleitores não estão propriamente favoráveis a tal causa.

E não adianta levantar falsas esperanças: simplesmente NUNCA haverá qualquer “Reforma Política” da forma como é proposta. Podem mudar alguma coisa aqui e ali, mas só a perfumaria. O motivo é simples: são os próprios políticos, já eleitos, não tem interesse em modificar as regras de um sistema que os mantem no poder.

Mudanças desse tipo acontecem de forma gradual, com etapas longas, pequenos passos, alguns recuos e muitas dificuldades. Há que se ter foco e estratégia. Mas não é isso que fazem. Vendem uma ideia genérica, com expressão que parece resolver todos os problemas, e no fim, por óbvio, não acontece nada. Sobra discurso e faltam ações.

Mais do mesmo. O de sempre.

Desse modo, meu humilde conselho é: parem de falar da “Reforma Política” sem especificar as mudanças pretendidas, como se expressão, por si, encerrasse algum significado objetivo. Isso já seria um bom primeiro passo.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

Ídolos Trash, schadenfreude e videocassetadas

Idolos Trash - schadenfreude

Há uma palavra em alemão para designar o prazer obtido com o infortúnio alheio: schadenfreude. Eu não sei falar alemão e só conheço algumas poucas expressões e nomes de comida/cerveja, mas fiz tal citação por conta da regra que torna obrigatório mencionar essa palavra no primeiro parágrafo de todo texto a tratar do tema. Então, ok, tabela cumprida. Sigamos.

Salvo em circunstâncias realmente sérias e cruéis ao extremo, nós humanos geralmente gostamos de ver pessoas sofrendo. Sim, gostamos. É um traço terrível, verdadeiramente deplorável, mas a verdade é que adoramos isso. Talvez seja algo instintivo, ou sejamos mesmo criaturas natural e irremediavelmente desprezíveis.

Mas a verdade é que, sim, a desgraça alheia muitas vezes tem efeito cômico. Não só a de quem odiamos ou a de nossos inimigos, mas até mesmo a de quem não conhecemos e nunca fez nada para nos prejudicar.

Não por acaso, desde crianças somos acostumados a esse tipo de humor. Familiares simulam contusões ou quedas e gargalhamos. O curioso é que não nos “ensinam” a rir disso, nosso riso é espontâneo. Dá para arriscar o palpite de que tenhamos já nascido achando graça desse tipo de coisa.

E isso passa a ser mais e mais estimulado ao longo da vida.

Praticamente toda produção humorística – literária, teatral, cinematográfica etc. – consiste na transformação de azares em comédia. Dos palhaços do circo se estapeando ou jogando tortas uns nas caras dos outros às agruras de um norte-americano na terceira idade que se tornam “gags”, enfim, divertimo-nos com a zica de outrem.

Há décadas, programas de TV exploram isso também quanto aos anônimos. Como os de auditório, com calouros escalados justamente por cantar de maneira ridícula ou ter alguma característica estética flagrantemente sofrível. E há quadros de sucesso em que pessoas desconhecidas se estrepam e elas próprias enviam esses vídeos para deleite dos telespectadores.

Tudo isso para chegar ao ponto central: a rapaziada descoladinha encontrou uma maneira de exercer esse vício sem a culpa de fazer algo errado ou ideologicamente condenável.

Eles acham um absurdo qualquer piada com característica física, não toleram quadros de humor que possam humilhar alguém e falam sempre em favor da dignidade humana quando uma atração televisiva usa desgraceiras para atrair audiência. Rir da desgraça, portanto, é o ápice da falta de engajamento.

Daí, o que fazem? Fingem gostar da qualidade artística de determinada figura, revelando publicamente exacerbada admiração, mas na verdade gostam mesmo de como ela expõe características esquisitas para a diversão alheia. O que atrai, portanto, não é a produção lítero-musical, mas sim a humilhação a que o ídolo trash se submete.

Sim, ele faz tudo deliberadamente e muitas vezes ganha uma boa grana, mas isso não muda o fato de que os “fãs” gostem justamente da bizarrice da coisa, mesmo aqueles que se fingem atentos às agruras das minorias. E o jeito dissimulado de aplaudir esses espetáculos faz com que sejam bem piores do que os entusiastas da videocassetada ou do calouro que abre a boca banguela e canta de forma desafinada.

A pessoa que não disfarça o prazer com a desgraça alheia é bem menos deplorável, pois não é hipócrita consigo nem finge superioridade fazendo algo similar sob justificativa cínica. E certamente é também alguém mais feliz sem tantos conflitos existenciais mocorongos.

Meu conselho: não se culpe por rir do ridículo, porque o ridículo é mesmo algo engraçado. O dos outros para nós e o nosso para os outros. Não problematizem o riso diante de um tombo, apenas riam, mesmo.

E sem culpa.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

Reino Unido: velhinhos mão-na-massa dão um baile na “geração hashtag”

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Todos já sabemos, a esta altura, que os eleitores do Reino Unido optaram pela saída da União Europeia, um resultado eleitoral que espantou a muitos e decorreu da votação expressiva dos mais velhos.

Independentemente do mérito da decisão, há um dado importante a merecer debate por si só: a mesma rapaziada que simplesmente não foi votar (o voto por lá é optativo) agora está inconformada com o resultado.

O caso é perfeito retrato dessa “geração hashtag” (ou “juventude textão”). Em vez de adotar medidas efetivas e práticas, muitos (muitos!) jovens de hoje preferem enfrentar os problemas colocando banner em avatar de rede social, fazendo petições inócuas, criando eventos de existência apenas virtual e, claro, fazendo aqueles longos textões indignados (muitos até mesmo ficcionais, dentro da chamada “literatura de fanfic”).

Descobriram, afinal, que fazer apenas esse tipo de coisa não adianta nada. Os problemas só podem ser resolvidos por meio de ações concretas, não “lacradas” online.

Enquanto a molecada café-com-leite vive nesse mundo de fantasia, no qual TUDO é possível e NADA lhes pode ser negado, os mais velhos do Reino Unido – habituados a meter a mão na massa para resolver os problemas – deram um verdadeiro baile e, por que não dizer?, também uma surra eleitoral.

E falo aqui mais da improvável vitória do que da margem de votos, que foi mesmo apertada. Numa analogia: o time ganhar por 1 gol de outro supostamente bem mais forte tem efeito similar ao golear de 7 uma equipe parelha.

Vários argumentos estapafúrdios apareceram pra tentar explicar ou refutar o resultado, merecendo destaque (negativo) os que tentaram reputar menos valor ao voto dos mais velhos, já que teriam “menos tempo de vida” para arcar com os efeitos da decisão.

Isso é uma bobagem inacreditável, já que justamente os mais experientes – sobretudo os de lá – sabem muito bem, e por experiência própria, o que significa uma mudança geopolítica dessa monta. Se esse tipo de coisa dependesse apenas da meninada de 18/19 anos, aliás, todo o Reino Unido seria uma grande fazenda comunitária na qual cada um faria o que bem entendesse (para dali a dois meses entrar em colapso total).

De mais a mais, é melhor mesmo o futuro de um país ser decidido pela parcela da população que vai em peso para as urnas, obviamente mais preocupada com os fatos, ao contrário daquela fatia etária que dá de ombros para uma eleição, certamente mais interessada nos números de “like” e outras coisas igualmente importantíssimas.

A situação fica ainda mais vergonhosa quando se considera o dado estatístico: há bem menos pessoas maiores de 50 anos do que abaixo dessa idade. Por mais que uma população idosa cresça, em todo lugar esse número é sempre inferior àquele da mais jovem (com exceção talvez das praças de Águas de Lindóia e da torcida do Santos).

Os jovens do Reino Unido, portanto, preferiram não ir às urnas. E agora devem arcar com as consequências desse desleixo. Senão pela democracia, também pelo efeito pedagógico.

E é preciso ter MUITO respeito com os “velhos” que foram responsáveis por distribuir pontapés nos nazistas. Muito respeito, mesmo. No mesmo sentido, essa nova geração precisa acordar de uma vez para a vida real, que quase nunca se altera apenas por campanhas online – muitas das quais elaboradas ou apoiadas apenas por marketing pessoal de engajamento fingido.

Que o episódio, por fim, sirva para esse aprendizado. E que a molecada agradeça aos “velhos” também por mais essa lição.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

A esquerda tem (muito) mais “crença religiosa” que a direita

Vamos aos estereótipos e às generalizações (já que se trata de uma coluna em website, não uma tese científica): a direita tende a ser mais religiosa, enquanto na esquerda prevalece a descrença total. Correto?

Mais ou menos. Na verdade, olhando a questão de maneira mais ampla, é o exato contrário. Explico.

Sim, a direita tem proporcionalmente bem mais representantes adeptos de alguma religião tradicional, que no geral defendem os aspectos culturais dela oriundos. Já os esquerdistas, também é fato, são pregadores do ateísmo, com ataques frequentes e generalizados às igrejas organizadas (ok, tendem a poupar o islamismo radical, que o esquerdismo não julga tão danoso quanto uma tia-avó que torce o nariz para uma roupa curta).

Mas, afinal, como estes últimos seriam mais “religiosos”? Como teriam mais crenças esotéricas? Justamente por adotar o mais profundo misticismo nos campos práticos da vida, mesmo quando se trata de administração pública ou combate à criminalidade.

O direitista vai à igreja (seja qual for), faz suas orações, possui convicções morais e assim por diante. Mas, na hora de resolver um problema objetivo, não lança mão de qualquer crendice: adota as medidas práticas adequadas, exatas e científicas.

Há uma situação econômica desfavorável? Ele corta gastos. Determinado crime aumentou? Ele propõe o aumento da fiscalização e da punição de tal prática. Não há esoterismo nas soluções apresentadas pela direita, mas sim a adoção do método já consagrado pelos séculos.

Já a esquerda…

Todas – exatamente todas! – as medidas para enfrentar situações do cotidiano, mesmo as mais óbvias, passam por metodologias de fazer qualquer pajelança animista parecer ciência exata.

Crises econômicas são “resolvidas” com a impressão de mais dinheiro, o aumento de gastos públicos, a proibição do reajuste de preços e a de demissões. Aumento do crime? Certamente, isso se “combate” com aulas de capoeira, artesanato ou mesmo uma hashtag em rede social.

Tudo por pura crendice. Não se trata apenas de tentar uma coisa desconhecida para ver se ela dará certo, o que já seria suficientemente arriscado. Nada! Eles tentam, pela enésima vez, mesmo aquilo que SEMPRE deu miseravelmente errado. Isso exige um grau de fé cega no socialismo a fazer inveja aos extremistas mais fanáticos.

Desse modo, o esquerdismo envolve uma dose muito maior de crenças esotéricas. Enquanto um lado restringe a religiosidade ao campo da fé espiritual, o outro aplica as mais variadas macumbarias ideológicas em busca de resolver problemas concretos.

Os da esquerda, que costumam fazer troça da religiosidade dos conservadores, deveriam prestar mais atenção nisso. Ter uma fé íntima não é motivo para piada; muito ao contrário.

Mas não se pode dizer o mesmo de quem adota o misticismo para combater problemas reais

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 15 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.