A imprensa pintou de neonazista um imigrante gay filho de mãe judia

Milo Yiannopoulos é um jornalista inteligentíssimo. E isso ninguém me contou, eu concluí de meia dúzia de entrevistas e algumas palestras. A boca dele parece uma metralhadora de argumentos, as respostas costumam se iniciar antes mesmo da conclusão da pergunta. Ele é o tipo de militante que desarma a ingenuidade de muito repórter.

Dá para dizer mais: são argumentos corajosos, fortes e tantas vezes bem humorados, algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Aos que preferem outros tipos de rótulos, dá para dizer: Yiannopoulos é britânico, de pai grego e mãe judia, cristão, imigrante – reside e trabalha nos Estados Unidos – e gay assumido. Desbocado, quando xingado de racista, dá uma resposta impublicável, mas que revela a preferência dele por sexo oral nos órgãos mais avantajados que conheceu.

É o tipo de rosto que estamparia as camisetas da juventude brasileira se não fosse por um motivo: o principal alvo das críticas do ativista é a esquerda. O que faz dele, nos termos mais populares do Brasil, um reacionário – ou “reaça”.

Na primeira noite de fevereiro de 2017, Milo preparava-se para iniciar uma palestra em Berkeley, quando a esquerda americana invadiu a universidade com uma violência já conhecida no Brasil. Estilhaçaram vitrines, derrubaram postes, picharam muros, incendiaram carros, agrediram mulheres, chutaram no chão fãs do jornalista, e conseguiram o que queriam: censuraram o militante pró-Trump.

As redes sociais acompanharam tudo em tempo real durante a madrugada brasileira. Não faltaram fotos, relatos, vídeos e até transmissões ao vivo. O jornalismo nacional, contudo, só deu as caras com o atraso de quem tem poucos plantonistas trabalhando no período. E três notícias das mais compartilhadas diziam:

  • Estadão
    Protesto contra jornalista de extrema direita acaba em violência na Califórnia
  • UOL/Folha
    Contra palestra de extrema direita: Campus de universidade dos EUA é fechado após protesto violento
  • G1
    Ato ultradireitista pró-Trump nos EUA é cancelado após protestos

Extrema direita, extrema direita e ultradireitista.

São termos no Brasil associados ao nazismo, ainda que “nazismo” seja a abreviação de “Nacional Socialismo”, e “socialismo” ser inegavelmente uma bandeira esquerdista. Mas essa é outra discussão.

Contudo, enquanto a esquerda vandalizava, agredia e censurava, a direita foi para a manchete como “extrema”. E o jornalismo brasileiro passou um verniz neonazista em um imigrante gay filho de mãe judia. Mais do que isso, a um companheiro de profissão que tentou fazer uso da mesma liberdade de expressão e foi covardemente calado – ao menos naquele endereço.

Não é um caso isolado. Eu já estou há alguns anos separando notícias deliberadamente deturpadas. Que registram para a história uma versão que tantas vezes contraria frontalmente a realidade. Não se trata de um fenômeno mensal, quinzenal ou semanal. É diário, chega a se repetir em intervalo de poucas horas. Tantas vezes são desmentidos pela própria lógica. Outras, por imagens, vídeos, depoimentos ou mesmo o passar do tempo.

Apenas para citar alguns exemplos mais emblemáticos, há a história de que apenas 36 deputados foram eleitos com votos próprios, que Guido Mantega foi tirado da sala de cirurgia da esposa, que Hillary Clinton tinha 99% de chance de vitória, que Fernando Haddad caminhava para o segundo turno, que uma virada na votação do impeachment estava por salvar Dilma Rousseff, que a Lava Jato disse não ter provas, mas convicções, contra lula, que Donald Trump teria pago prostitutas para urinarem na cama de Barack Obama, que o ENEM 2016 seria cancelado, que músicas foram banidas do carnaval carioca de 2017, que caminhões cometeram atos terroristas na Europa, que a eleição de Donald Trump foi obra de notícias falsas produzidas em uma pequena cidade no leste europeu, que oito bilionários somariam riqueza maior que a de metade da população do planeta, que turistas em Veneza negaram ajuda a um refugiado africano, ou que muçulmanos foram banidos dos Estados Unidos.

Tudo isso, creiam, quando não é mentira descarada, é obra de estudos enviesados ou manipulações grosseiras sempre com o mesmo objetivo político: emplacar narrativas que direta ou indiretamente favoreçam discursos esquerdistas.

Claro, ainda há jornalistas sérios. Mas são tão raros que eu, que acompanho jornais às centenas, sete dias por semana, manhã, tarde, noite e madrugada, posso afirmar: não soa injusto dizer que os veículos de imprensa se tornaram zumbis parasitados por militantes cuja missão é transformar panfletos ideológicos em fatos.
Todavia, há uma questão igualmente importante: quando isso começou?

Eu passei a perceber há apenas alguns anos, quando resolvi transformar em fonte de renda a leitura do noticiário. Mas, ao mergulhar em alguns acervos, noto que a prática é antiga. Para ficar em apenas um exemplo bem documentado: a capa da Veja que derrubou Ibsen Pinheiro – o presidente da Câmara durante o impeachment de Collor – foi obra da influência de José Dirceu junto aos jornalistas envolvidos. Sim, já nos anos 1990, quando o petismo ainda estava longe de presidir o país, um cara, que hoje continua na cadeia por uma considerável sequência de condenações, era capaz de emplacar capas na revista mais lida do Brasil. Justo a revista cantada pelo partido dele como a maior inimiga da sigla.

Enfim… Quando começou? Não sei. E isso me faz hoje duvidar de tudo quanto é ponto pacífico na história nacional.

  • Tancredo Neves de fato morreu de uma grave doença que o acometeu dias antes de assumir a Presidência da República? Não sei.
  • Ulysses Guimarães morreu mesmo por causa do mau tempo no dia em que entrou naquele helicóptero? Não sei.
  • Lula foi mesmo injustiçado pela edição do debate com Collor no Jornal Nacional? Não sei.
  • Era a população ou grupos organizados indo às ruas pedir voto direto nos anos 1980? Não sei.
  • Getúlio Vargas realmente se matou? Eu não sei.

Só sei que nada sei.

Afinal, se hoje, com tanta tecnologia e formas de desmentir a imprensa, não dá para confiar no trabalho dela, por que eu devo confiar nos relatos de um tempo em que essa fiscalização inexistia?

Sim, é desesperador. E revela a urgência de que todos estes fatos sejam revisitados, informações sejam cruzadas e a história seja reescrita, confirmando ou negando o que foi publicado.

Pelo bem da verdade. Pelo bem do país.

Marlos Ápyus é comunicólogo.

Se sua arte não respeita as regras mais básicas de convivência, ela não é arte, é vandalismo

Arte é uma forma de comunicação. E, como forma de comunicação, deve gozar dos mesmos direitos que a liberdade de expressão goza.

Contudo, arte é bem menos importante do que o artista adoraria que fosse. Pois, na ânsia por comunicar-se de uma maneira, digamos, mais lúdica, finda prejudicando o entendimento da mensagem, ainda que torne seu consumo mais prazeroso. Cabe discussão também sobre o conhecimento que o emissor possui a respeito do tema discutido em sua obra. Um minuto a mais dedicado à forma como ele transmitirá a mensagem é um minuto a menos aprofundando-se no assunto debatido.

Enfim… Arte é mais forma do que conteúdo.

Mas não sou do tipo que a limita à produção dos seus mais virtuosos representantes. Aceito como arte aquilo apresentado tanto pela mais cara das orquestras como o mais pobre dos repentistas. E, claro, acredito que não se limita à classe artística: gastronomia é arte; urbanismo é arte; a forma como Steve Jobs desenvolvia dispositivos tecnológicos era arte; um código que faz o sistema rodar sem qualquer falhas, acreditem, é arte; uma constituição bem escrita é arte; o modo como o proprietário da Urca do Tubarão engarrafa a cachaça na sua frente é arte; e assim por diante.

Mas há alguns limites. Eu, por exemplo, acredito que ela pode incomodar. Em alguns casos, acho que só funciona, ou funciona melhor, quando incomoda. Humor, prefiro quando sarcástico. Punk rock a favor do sistema soa algo ridículo. E sempre curto quando o filme me embrulha o estômago.

Contudo, a arte não pode ser uma agressora. Pelo simples fato de que eu e você não podemos ser agressores. E a arte não é melhor do que eu ou você. Assim como a gente, ela deve entender que o limite da liberdade dela é o limite da liberdade de quem não quer consumir o que ela tem a oferecer.

Um baterista que ouse ensaiar às quatro da manhã em cima do meu apartamento receberá a devida visita da polícia. Assim como o boteco que ouse bancar um tecladista na rua de trás em horário inapropriado. Vale também para o repentista que queira interromper o meu almoço, o cordelista que insiste para que eu aceite o poema dele no meio da rua, a atriz que tumultue com uma performance qualquer evento que eu organize, e assim por diante.

Por que, então, aceitar como arte as palavras ou pinturas publicadas em um muro sem qualquer autorização dos responsáveis por aquela parede? E, sim, estou colocando no mesmo grupo as pichações e os grafites. Se você é capaz de fazer os mais belos dos painéis, não faltará quem queira seu trabalho exposto na própria edificação, por vezes pagando caro por isso.

Quando montei minha última banda, em nosso melhor ano, fizemos 30 apresentações. Porque encontramos 30 pessoas interessadas em nos convidar para um palco. Mas foi o melhor dos anos. No pior, não passamos de 8 “shows”. Isso significa que ficamos 357 dias sem uma única oportunidade de apresentar nossas canções.

Tenho amigos, contudo, que conseguiam trabalho em mais de uma centenas de datas. Porque ou eram mais talentosos, ou mais esforçados, ou ambos. E é assim que o jogo funciona. Oportunidade não é algo que te dão, é algo que você conquista com suas liberdades. Mas conquista respeitando as liberdades dos outros.

Um muro pichado passa uma mensagem. A mensagem de que aquele ambiente não possui a devida segurança. E isso leva insegurança a quem frequenta o espaço pacificamente. E segurança a quem quer prejudicar aquele espaço. Um condomínio pichado no seu último andar é uma mensagem a qualquer bandido: a portaria deste prédio é ineficaz, se é que existe.

Todas estas mensagens somadas desvalorizam o edifício, a vizinhança, o bairro, e até a cidade. Como os bairros ricos terão caixa para limpar a sujeira, os danos serão mínimos. E o prejuízo de fato recairá sobre os mais pobres, que verão suas pequenas propriedades desvalorizadas, viverão o estresse da poluição visual e conviverão com o medo no muro da própria casa.

A arte não agride. A arte não prejudica. A arte não torna ainda mais difícil a vida de quem já não leva uma vida fácil.

Se o seu trabalho não respeita estas regras básicas de convivência, sinto dizer, você não é um artista, você é um vândalo.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, mas já trabalhou como músico e desenvolvedor web. Enquanto não retoma os trabalhos no Políticas.Info, assina textos em primeira pessoa no blog.implicante.org.

Ou a direita dá mais atenção à comunicação, ou não tardarará a sumir novamente

Há 12 anos graduei-me bacharel em comunicação com habilitação em jornalismo. Mas nunca me senti muito à vontade para me descrever jornalista. Porque nunca trabalhei em redação. E porque sabia que a prática jornalística no Brasil era por demais irresponsável.

Mas cada vez mais me agrada o diploma em comunicação, ou o que fez de mim um comunicólogo.

Porque, se não fosse a capacidade de se comunicar claramente, a humanidade jamais evoluiria, jamais transmitiria para as futuras gerações as lições de toda uma vida, as frutas que melhor matavam a fome, as plantas que findavam em envenenamento, as orações que mais traziam paz de espírito, as trilhas mais seguras, as práticas mais saudáveis, o acúmulo de conhecimento que permite à ciência dar sempre um passo adiante.

Por isso a liberdade de expressão é tão importante. Sem ela, o conhecimento não caminha como deveria caminhar, a humanidade não evolui como deveria evoluir.

Também por isso a política soa tão tóxica. Interessa a ela controlar o que é dito, que tipo de informação ganha o mundo, quem pode falar o quê.

Para um político, comunicação não é tudo, mas é quase tudo. A esquerda percebeu isso após as grandes guerras. E foi esperta o suficiente para cercar todo tipo de formador de opinião. Primeiro avançou sobre o movimento estudantil. Mas, uma vez qualificados, aqueles estudantes se convertiam em trabalhadores ou professores. E assim a esquerda dominou o sindicalismo e a ciência. Se as pessoas querem ouvir o que um artista tem a dizer, a esquerda se aproxima do artista. Se os intelectuais querem ler jornal, a esquerda invade as redações. Se o povão só quer saber de novela, a esquerda transforma roteiros em panfletos de seu interesse. Nem mesmo a religião escapa, ou você não notou que o atual papa é o mais esquerdista que se tem notícia?

A direita não parece perceber isso. Trata a comunicação com descaso, como algo que só merece atenção em período eleitoral. Sigo em minhas redes sociais mais de 400 parlamentares. Os esquerdistas passam o dia reverberando o próprio discurso ou o de seus iguais. Os conservadores somem, surgem ocasionalmente, por vezes apenas para o apagar de incêndios.

Mais do que mandar em você, a esquerda quer que você queira o mesmo que ela. E oferece uma “narrativa” encantadora independente de resultados que nunca entrega.

O discurso conservador poderia ser até mais encantador, porque de fato dá resultado, mas a direita abre mão dele, deixa a esquerda tomar conta, fazer seu barulho, humilhá-la.

As três maiores derrotas da direita brasileira em 2016 poderiam ter sido contornadas com o melhor cuidado com a comunicação de seus protagonistas. Eduardo Cunha poderia ter dialogado melhor, senão com a imprensa, talvez com o povo que, nas ruas, pedia o impeachment de Dilma Rousseff. Jair Bolsonaro poderia ter usado de maneira muito mais sábia o voto proferido durante o processo, além de ter evitado cometer a falta que Maria do Rosário cavava. Quanto a Marco Feliciano, independente de ser culpado ou não, poderia ter trazido ao eleitor dele respostas mais firmes e hábeis, sem tentar resolver o caso “Patrícia Lélis” abafando-o em meio ao noticiário olímpico.

Chacrinha, que não era um comunicólogo, mas um grande comunicador, pregava que se “trumbicaria” qualquer um que não se comunicasse.

Enquanto a direita continuar ignorando que precisa se comunicar melhor, continuará se trumbicando.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, trabalhou por 15 anos como desenvolvedor web e músico. Além de colaborar com o Implicante, atualiza o apyus.com, seu site pessoal. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

Se tudo der certo na Rio 2016, o Brasil terá gasto R$ 3 bilhões por medalha a mais

A Folha de S.Paulo descobriu que, nos últimos 60 anos, os países sedes dos Jogos Olímpicos conseguiram, em média, treze medalhas a mais para seus atletas em relação à participação exatamente anterior. Portanto, se o Brasil não infringir a regra, terá trintas premiados no quadro de medalhadas.

A organização do evento havia se comprometido a atualizar os custos da competição a cada seis meses. Mas decidiu não publicar uma nova estimativa no inverno de 2016. Achou melhor já dar um número final em 30 de setembro, quando os atletas já estarão bem longe do país. Mas mesmo os números defasados são assustadores.

O Brasil já gastou R$ 39,07 bilhões com o evento. Deste total, R$ 24,6 bilhões foram aplicados em políticas públicas, R$ 7,4 bilhões com o Comitê Rio 2016 e outros R$ 7,07 bilhões com a Matriz de Responsabilidades, que determina os gastos com as arenas esportivas.

Trinta e nove bilhões. Treze medalhas. Três bilhões de reais por medalha.

Para se ter uma noção do que significa esse número, todo o orçamento do Ministério do Esporte não passa de R$ 2,6 bilhões. Seria possível com essa grana mantê-lo ativo por quinze anos – a Rio 2016 vem sendo organizada há apenas 7 anos.

É muita grana para um país ainda tão cheio de problemas.

Recentemente, Dilma Rousseff veio a público reclamar a maternidade da Olimpíada, e acusou Lula de ser o pai. São péssimos pais. Do tipo que, mesmo com problemas maiores na família, gastam fortunas com festinhas de aniversário para as crianças.

A conta, claro, virá quando essas crianças crescerem. Mas já será tarde demais.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, trabalhou por 15 anos como desenvolvedor web e músico. Além de colaborar com o Implicante, atualiza o apyus.com, seu site pessoal. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

O jornalismo precisa parar de ser conivente com o terrorismo islâmico

Na capa do UOL, reportava-se que um padre morrera e uma religiosa ficara ferida num ataque a uma igreja francesa. Com estes termos. Pela URL da notícia, percebe-se que inicialmente o texto dizia: “Padre e religiosa morrem em ataque a igreja na França“. O título foi alterado, mas ainda é dito lá que “as outras duas vítimas são os agressores, que foram ‘neutralizados’ pelas forças de segurança“.

Sim, um dos maiores portais de notícia do Brasil transformou dois terroristas que degolaram um padre dentro de uma igreja em vítimas das forças de segurança francesa.

Uma hora antes de a manchete ser estampada no UOL, o jornalismo já sabia que os terroristas entraram na igreja gritando o nome do Estado Islâmico. Ainda assim, houve todo um cuidado para evitar citar o grupo. O termo “islâmico” aparece só no terceiro parágrafo. No momento da redação deste texto, o título usa apenas uma sigla menos conhecida (EI).

O caso está longe de ser exceção. Infelizmente, está mais para regra. O G1, por exemplo, seguiu linha parecida ao noticiar que um padre foi “morto após ser feito refém em igreja da Normandia, na França“.

Nem se trata de mania nacional. A BBC News, também por exemplo, transformou um homem bomba em “imigrante sírio morto em explosão na Alemanha“.

Numas das suspeitas mais bizarras, usuários do Twitter viram uma mensagem veiculada no programa Estudio I, da GloboNews e correram para discutir com o autor das palavras. Foi quando descobriram que o perfil havia sido criado dias antes, seguia apenas dois perfis ligados à produção e só servia para mandar mensagens ao programa com dizeres em defesa do islamismo – na ocasião, a TV cobria ao vivo o atentado terrorista que atingia um shopping em Munique.

Emparedado, o usuário apagou as mensagens e mudou de endereço. Redescoberto, apagou a conta. Desde então, o screenshot correu as redes sociais com cobranças à produção do programa. Se houve alguma resposta, não chegou ao conhecimento do autor destes parágrafos.

A verdade é que o jornalismo mundial vem sendo conivente com o terror islâmico. Por ingenuidade, burrice ou mesmo falta de caráter. Mas possivelmente por ser dominado pela esquerda ocidental, um grupo político que se identifica com o terrorismo por compartilhar o capitalismo como inimigo.

Isso tem que acabar. Para o bem do jornalismo. E para o bem da humanidade.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, trabalhou por 15 anos como desenvolvedor web e músico. Além de colaborar com o Implicante, atualiza o apyus.com, seu site pessoal. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

Antibiótico veterinário pode evitar que fetos sejam infectados pelo vírus da zika

Pouco se falava sobre o tema quando, em 5 de fevereiro, O Globo disse em editorial que a microcefalia punha “o aborto na agenda de debates“. Já no início, informava que a OMS não tinha ainda reconhecido a relação entre a má-formação de alguns bebês o vírus da zika. Destacou até mesmo que a vigilância sanitária brasileira só tinha passado a monitorar os casos apenas quatro meses antes. Mas já via ali uma brecha para debater “os limites legais do aborto“.

Para isso, como se fossem banais numa discussão de tamanha importância, colocava “questões éticas e religiosas à parte“. E sugeria que o diagnóstico tardio da microcefalia fosse contornado dando “à gestante a opção de, tendo contraído a zika, decidir pelo aborto preventivo“.

Aborto preventivo. Como se já houvesse na ciência alguma consenso a respeito do exato momento em que o feto deixa de ser um amontoado de células para se tornar um indivíduo cuja vida precisa ser protegida.

Porque o aborto não é um embate entre homens e mulheres, mas entre pais e filhos. E encarar a questão como uma luta entre machistas e feministas é simplesmente ignorar que o bebê a ser abortado pode ser, assim como a mãe, do sexo feminino. Ou mesmo que, tantas vezes, o maior interessado na interrupção da gravidez é o pai.

Por se tratar de um ser humano que ainda não tem nem como se expressar, cabe sim ao Estado defender-lhes, ainda que seja da própria família.

O vírus é conhecido desde 1947, mas surtos de zika são recentes. O mais antigo data de 2007. Só aos poucos o mundo vem estudando o funcionamento da doença no intuito de encontrar uma cura. Do pouco que se sabia, havia a certeza de que a maioria das mães que a contraíam nada transmitiam aos filhos, ou mesmo que a maioria dos fetos com microcefalia sobrevivia ao parto, mesmo que para uma vida complicada. De resto, incertezas.

Se cientistas do mundo todo tinham tantas dúvidas sobre o tema, por que jornalistas tinham tanta certeza de que o aborto seria a solução?

Porque jornalistas são profissionais irresponsáveis. Simples assim.

Apenas cinco meses se passaram desde aquele editorial. Agora, cientistas americanos descobrem que um antigo antibiótico veterinário pode bloquear a passagem de zika para o feto. É ainda um estudo, mas os pesquisadores de São Francisco e Berkeley soam animados com os resultados.

Que a animação se converta em vidas salvas. O quanto antes.

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A noite em que a esquerda mais me chocou

Naquele semestre, eu pagava algumas cadeiras à noite. Esperava encontrar nos corredores que levavam para as salas de aula alguns amigos em choque semelhante ao meu. Mas a surpresa seria incômoda. Os mais próximos chegariam sorrindo. Alguns se abraçariam. Lembro de ao menos dois deles pularem enquanto se abraçavam. E de o grupo agendar um “happy hour” para o término dos estudos. O objetivo era “beber” o ocorrido.

Nem todos reagiam assim, claro. Eu mesmo me limitei a sorrisos amarelos e risadas constrangidas. Sentia um covarde medo de contrariá-los. Talvez porque temesse que tudo não passasse de galhofa, e eu seria o chato a não perceber a piada. Uma piada que uma grande amiga não compreendia, ao confidenciar-me que estava muito incomodada com o clima inesperado. E eu confesso que nem lembro a resposta que a dei. Meu receio hoje, quinze anos depois, é de que de alguma forma eu os tenha defendido.

Iniciada a aula, achei que as coisas voltariam ao curso natural. Não lembro o nome do professor, nem do aluno que o interrompeu ainda nos primeiros minutos. Mas jamais esqueci o rosto deste. Ainda seria capaz de apontá-lo em uma lista de suspeitos. Quanto ao que disse, preciso puxar de memória, pois, claro, não tomei nota. Que era uma grande dia. Que precisava prestar uma homenagem. Que o “império” estava sendo derrotado. Que se sentia muito grato a quem chamava de grande líder: Osama bin Laden.

Sim, era a noite do 11 de setembro de 2001.

Foi a última vez que o vi sorrindo. Em verdade, só lembro dele em um outro momento, três anos depois. Numa noite em que minha maior preocupação era esconder o par de tênis que surgia por baixo da beca. Não sabia, era comum em solenidades do tipo calçar sapatos. Mas relaxei ao notar que um outro companheiro de formatura cometeria crime fashion ainda pior, pois chegara por sobre um par de sandálias e das mais gastas. Sim, era o membro do fã clube da Al-Qaeda.

Enquanto todos sorriam por superarem enfadonho ensino superior brasileiro, ele estava mais sério do que nunca, o que, destaco, era-lhe característico. Eu, numa arrogância pseudo-intelectual típica da minha juventude, perguntava-me se repetiria no terceiro grau o feito do segundo, e na cerimônia de formatura seria chamado ao palco como estudante de melhor desempenho da turma de 2004. Mas, ao anunciarem o laureado, quebraria a cara contemplando aquele par de chinelos se arrastando no palco.

Ele receberia a placa com o desprezo de quem preferia ativar ali um colete suicida. Mas posso jurar que o vi, minutos antes, de alguma forma celebrar o recebimento do canudo com um gesto que eu só entenderia um década depois: o mesmo punho cerrado exibido por José Genoino e José Dirceu quando presos ao término do julgamento do Mensalão. Ou ainda o que a Folha de S.Paulo estamparia na capa em 27 de outubro de 2014, comemorando a reeleição de Dilma Rousseff.

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O melhor, para o momento, seria Temer concluir o mandato?

Ontem me permiti publicar uma enquete em um dos perfis que mantenho no Twitter. Queria saber dos seguidores para qual desfecho torciam: o prolongamento da crise política com uma eventual volta de Dilma, com a convocação de novas eleições, com a queda de Temer via TSE… Ou o encerramento dela com a conclusão do mandato do peemedebista apenas em primeiro de janeiro de 2018? E, para minha surpresa, não deu a terceira opção, mas a quarta.

No que se considera que o clima esquentou no final de maio de 2013, quando os black blocs do Passe Livre tentaram e conseguiram cavar uma falta junto à Polícia Militar comandada pelo governo Alckmin, já são mais de três anos de crise política. Quando se leva em consideração que ela já respondia ao “pibinho” de Dilma, denominação que ganharia a imprensa no inverno de 2012, lá se foram quatro anos.

É muito tempo. Muito tempo mesmo. O Brasil está cansado, o brasileiro está cansado, eu estou cansado. E, aparentemente, também estão os meus seguidores. No momento em que digito essas palavras, 71% deles dizem que, apesar de tudo, torcem para Michel Temer concluir o mandato que ainda toca como interino.

Não vou mentir: é essa também a minha torcida. Porque sei que a antiga oposição, ou mesmo a opinião pública, ainda não conseguiu forjar uma alternativa viável ao PT. A queda precoce do PMDB seria uma volta à escuridão vermelha de um partido afastado da Presidência lamentando o não uso do exército contra a população que pedia o mesmo processo de impeachment exigido pelo petismo contra todos os presidentes que antecederam Lula e Dilma. Solução esta que já cobram contra o vice que eles mesmos indicaram. Isso é por demais abjeto para eu não me chocar.

Temer está longe de ser perfeito, assim como o governo tocado por ele. Mas eu não saberia, dentro das opções existentes, apontar alguém com perfil mais conciliador, qualidade extremamente necessária para unir o país que o PT dividiu. Os movimentos recentes mostram certo descontrole nos gastos públicos, mas soam manobras necessárias para se evitar algo ainda pior, a volta de Lula e Dilma, pai e mãe da atual desgraça vivida pelo país.

Há anos, o Brasil vive um pesadelo. Está na hora de acordarmos. Mesmo que sob os cuidados do PMDB.

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Disputa entre Hillary e Trump pode servir de exemplo ao Brasil de 2018

Os americanos estão assustados com a alta rejeição de seus dois principais presidenciáveis. Hillary Clinton é mal quista por 55% dos eleitores dos EUA, situação que, em outros contextos, a tornaria inelegível. Mas a esposa de Bill enfrentará Donal Trump, dono da antipatia de 6 em cada 10 cidadãos locais. O resultado? De acordo com recente levantamento do Wall Street Journal, a candidata democrata, com 46%, possui neste momento uma vantagem de 5% em relação ao concorrente republicano.

O cenário interessa ao Brasil porque, revelou o Instituto Ipsos recentemente, a taxa de rejeição por aqui anda bem pior. Na margem de erro, nomes como Marina Silva, José Serra e Geraldo Alckmin atingem números semelhantes aos de Hillary. Já Aécio Neves, Michel Temer e Lula conseguem superar com tranquilidade até mesmo os resultados obtidos pelo polêmico Trump.

A situação fica ainda mais complexa ao se considerar que faltam mais de dois anos para a próxima eleição presidencial, quando só então os concorrentes iniciarão o bombardeio mútuo visando a uma invalidação de candidaturas adversárias.

Ou seja, as taxas só tendem a piorar.

Por isso, levará vantagem o candidato brasileiro que já agora estudar a fundo as soluções exploradas pelos candidatos americanos. Os acertos atingidos lá agora podem servir de inspiração para movimentos decisivos aqui em 2018. O que, infelizmente, não torna a coisa menos desesperadora.

Porque, não raro, as taxas de rejeição se convertem em votos de protesto. Ou mesmo em baixo comparecimento às urnas. Sabendo manipulá-las, o marketeiro possivelmente atingirá resultados melhores do que se focar o trabalho em qualquer outra pauta positiva.

Os democratas sabem disso e, perversamente, partiram para ampliar ainda mais a rejeição a Trump. Na peça que causou comoção na mídia americana, um jovem deficiente surge de frente para uma TV onde o candidato republicano faz piada com problemas semelhantes. E tudo é apresentado com uma crueza de partir o coração.

Os bons números já atingidos indicam que baixar ainda mais o nível da discussão traz os resultados esperados. Se for essa a mensagem absorvida pelos marketeiros brasileiros, o Brasil, que há dois anos viu sua eleição presidencial de nível mais baixo, poderá quebrar com folga o recorde negativo na próxima. O que será um final trágico para um período político tão problemático.

Há, claro, uma saída mais digna: o surgimento de nomes mais bem quistos pela população. Mas quem?

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Estava na cara que a Olimpíada traria problemas ao RJ, mas o PT ignorou

O processo de seleção da sede olímpica de 2016 se iniciou em maio de 2007 e se encerraria dois anos e meio depois, em Copenhague, na Dinamarca. Apesar de os brasileiros terem comemorado bastante, revisitando todo o processo confirma-se que o Rio de Janeiro de fato foi uma péssima escolha de um Comitê Olímpico Internacional já sem opções viáveis.

De início, outras seis grandes cidades se inscreveram: Chicago, Doha, Tóquio, Madri, Baku e Praga. Numa primeira avaliação técnica, as duas últimas, com notas inferiores a 6, foram logo descartadas. Mas só quatro participariam da etapa final, uma vez que Doha seria eliminada por necessitar que a competição se realizasse em outubro, quando o clima no Golfo Pérsico é um pouco menos sufocante.

Das quatro finalistas, com uma nota 6,4, o Rio de Janeiro era de longe a menos preparada para o evento. Tóquio (8,3), Madri (8,1) e Chicago (7,0) apresentavam condições bem mais atraentes. Até mesmo a desclassificada capital do Qatar, avaliada com um 6,9 sob um clima desumano, havia se saído melhor. Mas a representante americana seria a primeira a cair nas votações de 2 de outubro de 2009. E o motivo era claro: os Estados Unidos ainda digeriam a crise de 2008 e a própria população se dizia contra a investida, com direito até mesmo a protestos na véspera.

Todavia, na primeira rodada, o Rio de Janeiro superaria até mesmo Tóquio, que também enfrentava manifestações por parte da população local e cairia na rodada seguinte, quando o Brasil não só herdaria os 18 votos que Chicago recebera, mas também dois da capital japonesa. Shintaro Ishihara, que governa a região desde 1999, chegou a insinuar que Lula fizera promessas ilegais nos bastidores.

Na terceira e última rodada só restaria Madri, que já ficara 17 votos atrás dos 46 votos acumulados pela candidatura carioca. Mas a capital espanhola era dona do projeto mais criticado por envolver leis antidoping confusas. Dos vinte votos recebidos pelos japoneses, apenas três se transfeririam para os espanhóis, restando ao Rio de Janeiro uma vitória com larga margem (66 a 32).

Para premiar a capital fluminense, o COI precisou acreditar que os graves problemas estruturais seriam resolvidos nos sete anos seguintes. Os poucos que se atreviam a criticar o governo Lula em 2009 alertavam que aquela era uma aposta arriscada demais para um evento de tamanho porte assumir. Que tragédias econômicas decorrentes dos jogos olímpicos de Atenas e Montreal já tinham prejudicado democracias até mais sólidas. Mas essas vozes eram logo contidas pela própria opinião pública brasileira que, naquele outono, aprovava tudo o que o PT propunha.

Os tais sete anos se passaram e o governador do Rio de Janeiro veio a público nos últimos dias decretar estado de calamidade pública em decorrência da preparação do evento. Autoridades aproveitaram a deixa para esclarecer que a estrutura médica do estado não tem condições de atender nem mesmo a própria população, quanto mais os milhares de turistas que visitarão a cidade. Se na Grécia e no Canadá os estragos vieram depois dos jogos, o Brasil conseguia bater a meta e apresentar a própria ruína 50 dias antes do início da competição.

O mais amargo, no entanto, é a constatação de que tudo aconteceu mesmo após tantos alertas – solenemente ignorados.

A Rio 2016 pode até vir a ser uma boa forma de entretenimento ou, de alguma outra maneira, reverter a imagem que se tem dela neste momento. Mas já entrou para a história como um evento que prejudica as camadas mais pobres da população para que uma elite selecionada possa se divertir. Mesmo que medalhas de ouro venham, e há até o risco de elas não virem, será difícil comemorar.

Marlos Ápyus é formado em comunicação, trabalhou por 15 anos como desenvolvedor web e músico. Além de colaborar com o Implicante, atualiza o apyus.com, seu site pessoal. Escreve no Implicante às quartas-feiras.