Danilo Gentili e Maria do Rosário: resposta escrachada chama atenção ao verdadeiro absurdo

Danilo Gentili e Maria do Rosário: resposta escrachada chama atenção ao verdadeiro absurdo

Danilo Gentili, apresentador do talk show de maior audiência no país e humorista mais proeminente da atualidade, não é famoso por ser sutil diante dos poderosos. Ao contrário, atira para todo lado, e atira forte, como é próprio do humor (ou deveria ser). Mas sigamos.

Ele segue uma linha iconoclasta que em alguns momentos lembra Andy Kaufman. E este episódio tem muito a ver com algumas atitudes polêmicas do saudoso norte-americano, cujos “absurdos” quase sempre serviam para chamar atenção a absurdos maiores.

Sim, Gentili recebeu uma intimação, rasgou-a e friccionou os pedaços de papel em suas partes situadas abaixo da linha da cintura, depois reunindo os fragmentos e os reenviando à remetente original. Um absurdo, não é mesmo?

Sim, mas simbólico. E para chamar atenção ao absurdo de fato; o absurdo maior.

Tal intimação foi enviada por uma pessoa que exerce mandato no legislativo, titular de uma das Casas que compõem Poder (função) da República. O grande ponto fora da curva, portanto, é uma deputada intimar um humorista por posts piadísticos numa rede social.

Há indício de crime? Que se use a via adequada para isso. Há hipótese de dano moral a ser reparado? Idem. E tal via é o Judiciário, não a própria Câmara dos Deputados. Se a via judicial já soaria esquisita em caso de mera piada, o uso da casa legislativa para isso é algo até mesmo inacreditável.

A seguir, o vídeo de Gentili, voltamos depois:

Parece que o post polêmico seria este:

Uma brincadeira óbvia, provavelmente aludindo às explicações esquerdistas para quando algo dá ruim para o lado deles. Exemplo recente: depois que Lula usou a expressão “grelo duro”, em fala nitidamente depreciativa, não faltou gente dizendo que seria expressão regional corrente (não era, claro).

A reação da parlamentar foi intimar o humorista por meio da Câmara dos Deputados. E o humorista, chamando atenção para esse grande absurdo, fez uma “performance” (não é assim que eles chamam a coisa?). Nada além.

Em resumo: numa democracia, humoristas sacaneiam políticos e políticos sacaneados não os intimam por conta disso.

Quem vê a resposta escrachada como inaceitável, ignorando a gravidade extrema do ato inicial censório, convenhamos, não tem a menor ideia do que seja uma democracia. Ou, pior (e não improvável), talvez prefira de fato outros sistemas menos livres.