Michel Temer herda problemas criados pelo próprio PMDB

Michel Temer herda problemas criados pelo próprio PMDB

No Brasil, existem algumas máximas que parecem nos assombrar. A do momento é que nada não é ruim o suficiente que não possa piorar. A situação atual é algo como a tempestade perfeita, ou a conjunção de planetas para abrir um portal dos infernos direto no território brasileiro. É claro que, se compararmos a nossa situação com a de países como Venezuela e Síria, ela é melhor, mas muito longe de ser boa.

Desemprego recorde, déficit público alarmante, corrupção alastrada e um cenário político caótico minam as esperanças de milhões de brasileiros. Foram necessários vários anos de uma ação persistente e completamente equivocada para se chegar a esse cenário. Ele não foi criado da noite para o dia. Por anos, o Brasil viveu uma ilusão e se estruturou em cima de um castelo de areia. Não há solução instantânea para nosso inferno astral, mas vários esperam que isso venha a acontecer imediatamente.

Os partidários de Dilma Rousseff e toda a sua inépcia infinita chamam Michel Temer de golpista e traíra. Golpe é a narrativa da esquerda para se esconder as atrocidades cometidas pela ex-presidente com a economia da nação. Traição pode até ser, mas se realmente Dilma e o PT confiaram em Temer, o que não acredito, isso foi de uma ingenuidade ímpar. Nunca percebi o PMDB como aliado, mas sim um caronista momentâneo. O PMDB é o partido de “onde há governo, sou a favor”, mas há mais de 20 anos não se interessa em assumir esse poder, apenas orbitá-lo. Os partidários de Temer não são de esquerda ou de direita, são a favor do poder e de poderem parasitá-lo. Não existe ideologia em figuras como Renan Calheiros, apenas interesses conflitantes com os dos demais brasileiros. Isso não quer dizer que o PMDB compactue das ideologias absurdas de Dilma, muito pelo contrário, mas esses “detalhes” podem ser relevados mediante acordos.

Quando um partido aceita compor a vice-presidência da chapa de outro partido, ou faz isso por coincidência de ideias e ideais, ou por interesses momentâneos mutuamente benéficos. Conforme dito, não acredito na primeira opção. Sobra a segunda. O que eram estes interesses do PMDB em se aliar ao PT geram diversas teorias, todas inquietantes. Portanto, Temer não é o mentor das atrocidades de Dilma, mas foi no mínimo conivente com elas, por um preço alto.

A situação que Temer herdou é uma das piores possíveis. Os fundamentos da economia brasileira sofreram processo de corrosão intenso, e é necessário um esforço e um sacrifício enorme para repará-los. A equipe econômica escolhida por Temer é boa. Aliás, qualquer uma sem Guido Mantega, Alessandro Tombini, Nelson Barbosa ou de simpatizantes destes seria já melhor. Esta nova equipe está com a visão analítica correta dos atuais problemas e propôs alguns remédios amargos, mas necessários, para a reparação necessária. Limitar gastos, repensar a previdência e as leis trabalhistas são atitudes que à primeira vista parecem contra a população, mas são a favor. O brasileiro se ilude que a farra promovida não era financiada com nosso dinheiro e, pior, com a capacidade do país gerar novos negócios e empregos. Mas sempre existirão as tentações populistas de soluções fáceis para se resolver os problemas estruturais, com consequências graves, é claro.

E eis que surgem os problemas do PMDB. O primeiro é que, apesar de o partido não compactuar com as crenças políticas do PT, até certo ponto diga-se de passagem, ele não fez nada para evitar essa nefasta política econômica. Pior, deu apoio para que elas fossem mantidas via aliança política nas eleições de 2010 e 2014.

O segundo é que o PMDB é um partido de órbita do poder, desacostumado a lidar com as cobranças diretas da população, não sabe fazer oposição e na situação não sabe transmitir à população a gravidade da herança econômica maldita e a necessidade de se tomar medidas austeras. Falta alguém como João Santana ao lado de Temer para explicar a todos nós os rumos que o país tem que tomar. É claro que esse alguém não precisa jogar sujo como Santana, apenas saber comunicar como ele.

O terceiro problema do PMDB é a própria essência do partido, ou melhor dizendo, a falta de uma essência. O partido é um amontoado de políticos profissionais, alguns da pior espécie, sem ideais em comuns, a não ser o de se agarrarem ao poder e de lucrarem com ele. A Lava Jato avança de maneira devastadora no establishment político de Brasília e as últimas delações apontam para o alto escalão do PMDB.

O Brasil, portanto, se encontra em uma situação onde o atual partido que ocupa o Poder Executivo – eleito popularmente diga-se de passagem – não sabe se comunicar. Quando se comunica, faz isso de maneira atabalhoada, tem membros de reputação horrível e por inferência participou do esquema de corrupção dos governantes anteriores…

A turbulência atual é grave e cria um ambiente perfeito para que apareçam aventureiros de plantão. Nomes de políticos em ascensão variando do espectro de Marina Silva a Jair Bolsonaro preocupam e muito. Não vejo nenhum deles com propostas lúcidas ou sérias para colocar o país no trilhos. Aliás, o discurso destes é similar àqueles proferidos lá em 1989! A oposição ao PT foi inepta ao deixar que o monopólio das virtudes fosse tomado, quase que por usucapião, por este partido, e agora se mostra inepta ao se organizar para dar um rumo ao país. E, para piorar, as denúncias da Lava Jato também avançam rumo à oposição.

O PT volta à sua origem, que é do partido que atirava pedras nos telhados alheios. Numa audácia quase que inacreditável, culpa a atual situação do país no PMDB. Até o impeachment de Dilma, a crise não existia, agora ela não só existe como é culpa das atuais PECs. O pior é que esse modus operandi do PT é bem feito, ou seja, o partido devastado pela inépcia de Dilma e o mar de corrupção exposto passa a lucrar à medida que a percepção da população é de que a crise foi criada por Temer – problema crônico de memória curta do brasileiro – e de que todos os corruptos estão no PMDB.

Tirar Dilma do poder era necessário para se evitar o cataclisma, basta ver o que é Cuba na realidade. Mas daí a achar que os problemas acabaram é ingenuidade. O que não faltam ao Brasil neste momento são problemas, de toda a sorte e magnitude. O que me preocupa são os rumos que o Brasil pode tomar diante dessa situação. Os ímpios não só não têm paz como são constantemente tentados pelo populismo barato.

Ricardo F F Pontes é professor universitário, 44 anos, autor do Novo Blog do Ricardo. Escreveu para o Implicante na condição de autor convidado. Se você gostaria de publicar algum texto seu aqui nesta seção, clique aqui e siga as instruções.