O xadrez de Marta Suplicy

O xadrez de Marta Suplicy

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É cedo para dizer que foi uma jogada magistral, mas de fato o “evento” de sua saída do Ministério da Cultura de Dilma foi – e é – um lance importante no xadrez eleitoral de 2016. Em sua carta de demissão, criticou pesadamente o governo, num gesto que gerou especulações de todo tipo (a mais forte: poderá filiar-se ao PMDB, caso o PT não permita a realização de prévias).

A ação é ousada, mas não é burra. Marta pode ser chamada de muita coisa, menos de pouco inteligente. Ela sabe que Haddad tem baixíssima popularidade, com exceção de pequenas áreas (geográficas e ideológicas) compostas por certa classe média com acesso às redes sociais. Na periferia, mesmo, os votos “vermelhos” seriam dela, não de Haddad (nem do PT, aliás). Soma-se a isso o antipetismo fortíssimo de São Paulo e sua saída “abrupta” do ministério ganha contornos de manobra milimetricamente estudada (e taticamente correta do ponto de vista eleitoral).

Será impossível  realizar prévias no PT, Marta sabe disso. Se o partido não indicar como candidato o atual prefeito, assinará atestado de que nem mesmo ele garante Fernando Haddad – mesmo que ele ganhe as eleições internas. Desse modo, abre-se uma brecha “legítima” para que Marta saia do partido (e também jurídica, pois poderia suscitar uma das exceções da norma de fidelidade). Mas, para além da minúcia jurídica, há o argumento político.

O nome forte do PMDB é Paulo Skaf, que teve votação razoável para o governo do estado. Mas ele se indispôs com parte da bancada federal do partido ao “esnobar” Dilma e toda a chapa presidencial (em que pese aquela coisa de dizer que votaria em Michel Temer). De mais a mais, a força de Skaf vinha sobretudo e especialmente do arco de alianças e do tempo na TV (algo que o PMDB manterá independentemente de sua candidatura); sem isso, sua votação seria – como já foi – de nanico.

Nessa toada, portanto, PMDB e Marta Suplicy se tornam importantes um para o outro. Um finalmente teria liderança competitiva em São Paulo e a outra teria estrutura suficiente para desafiar até mesmo seu atual partido – tendo a seu favor, além de tudo, a queda daquele mito de que 30% dos votos são sempre do PT (em SP, ao menos agora, não são).

Enfim, tem muita coisa para acontecer até lá, é claro. Mas as cartas que agora estão na mesa podem também servir para mudar o jogo. Isso porque o Partido dos Trabalhadores, afinal, também tem condições de fazer algumas jogadas audaciosas, por assim dizer. Não seria impossível, nesse sentido, que decidissem não lançar Haddad (parte da militância ficaria chateada, mas depois obedeceria a decisão como sempre faz e fim de papo). Essa estratégia envolveria o compromisso do partido com a mudança (de fato mudando o candidato).

Aguardemos, pois.

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