Semler diz que hoje roubam menos na Petrobras, mas seu atual sócio presidiu a empresa de 1999 a 2001. Ué…

Semler diz que hoje roubam menos na Petrobras, mas seu atual sócio presidiu a empresa de 1999 a 2001. Ué…

ricardosemler

O artigo de Ricardo Semler na Folha de São Paulo (que surpresa…) foi celebrado por petistas internéticos (aqueles mesmos que, até agora, estavam num silêncio ensurdecedor enquanto jorram denúncias contra a Petrobras). A resposta genérica do “sempre teve mutreta” é um recurso comum de quem é pego com a boca na botija, de modo que não surpreenda a repercussão – entre militantes – do texto de Semler. Nesse pormenor, de fato, não falou nada muito errado.

Mas sigamos.

O problema é dizer que as prisões decorrem do fato de Dilma ser presidente, atribuindo a ela o avanço nas coisas. Não é verdade, pois a Polícia Federal atua de maneira AUTÔNOMA, independentemente de quem está no poder. E essa tese se afunda ainda mais quando consideramos as delações premiadas (a depender de quem estava no esquema, portanto, nada seria descoberto).

Também escapa da lógica e do mundo real a ideia – defendida no texto sem muito fundamento (até porque não existiriam) – de que hoje se rouba MENOS. O título “nunca se roubou tão pouco” é de certa forma acintoso. Como assim “pouco”? Há POUCO para roubo? E há ainda “tão pouco”? Por favor, né? Mas, não, não foi pouco. Nem menos do que antes. Fizemos no Implicante uma linha do tempo narrando o Petrolão e a operação Lava Jato. Vejam aqui.

No fim das contas, o raciocínio do “sempre teve disso” (agora promovido a “hoje é bem menos”) serve para relativizar o escândalo sem precedentes (e, sim, é sem precedentes), fazer de conta que a culpa é do sistema, de algo maior (se todos são culpados, então ninguém é culpado). Resta avisar aos que agora estão promovendo delações premiadas e devolvendo centenas de milhões de reais desviados.

Mas há algo ainda mais curioso aí nesse artigo.

Virando novamente a própria mesa
O que de fato assusta no texto de Ricardo Semler é a acusação indireta (ou não tão indireta assim) que faz ao próprio sócio, Philippe Reichstul – confiram aqui, no site da Semco Partners, sua presença no quadro societário (informam que está desde 2006).

Ocorre que Philippe Reichstul foi nada menos que PRESIDENTE DA PETROBRAS (de 1999/2001). Sim, sério. Vejam aqui.

Vale ressaltar um trecho do artigo de Ricardo Semler:

“Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito. Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.” (grifos nossos)

Se agora – segundo o articulista – rouba-se MENOS, como era na época em que seu sócio na Semco Partners, Philippe Reischstul, foi presidente da empresa (notem que ele acusa a CÚPULA)? Como foram aqueles dois anos? Pois é… Considerando ainda a ideia defendida pelo texto (agora roubariam menos), o que afinal de contas levou Semler a associar-se a um ex-presidente da Petrobras justamente na época em que, segundo ele próprio, as coisas não eram tão “boas” quanto agora?

São perguntas que podem parecer irônicas, mas na verdade são muito sérias. E devem ser feitas pela CPI. Nada mais justo, honesto e correto que chamar o próprio Semler, que diz saber desses casos. Além dele, claro, seu sócio que presidiu a empresa por dois anos, naquele período que (novamente, segundo o articulista) as coisas eram piores.

Cabe à oposição o DEVER de convocar Ricardo Semler e seu sócio. Não é admissível passar panos quentes sobre essas declarações. São verdadeiras? Não são? Pois DEVEM ser investigadas, pois são acima de tudo muito graves. E se a oposição NÃO convocá-los nem citar os fatos narrados no artigo, acaba caindo naquele comportamento da base governista que tanto condenamos.

Alguém discorda?

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