Elke Maravilha, nascida no Bloco Soviético: “3 Hitlers não davam a maldade de 1 Stalin” – Veja o vídeo

Elke Maravilha morreu aos 71 anos após uma cirurgia para tratar de uma úlcera. Segundo a família, a diabete impediu o corpo dela de reagir bem aos medicamentos. Em vida, a atriz nunca teve uma atuação política que tomasse a frente de seu trabalho. Mas um depoimento dado em plena Rede Globo simboliza bem o horror sofrido pela população que vivia nas ditaduras socialista – Elke nasceu em São Petersburgo, na Rússia, mas quando a cidade se chamava Leningrado e pertencia à União Soviética.

O depoimento pode ser conferido no vídeo mais abaixo. Ela cita o drama do pai, que se voluntariou para defender a Finlândia contras as forças armadas da ditadura vermelha. E, por isso, findou na Gulag, os campos de concentração comunistas. No trecho mais forte, ela afirma: “três Hitlers não davam a maldade de um Stalin”.

Para conferir o depoimento, basta acionar o player acima.

Nelson Mandela, homem e mito. Mas ainda há outra coisa que precisa ser revista: o apartheid.

Nelson_Mandela_Che_Guevara

Nelson Mandela partiu na penúltima sexta-feira. Todas as principais revistas do país correram contra o tempo para estamparem “Madiba” na capa, mesmo fechando na própria sexta-feira.

Quantas biografias você já leu sobre Nelson Mandela? Não é de se surpreender que as opiniões que pulularam na última semana sobre o líder negro da luta contra o apartheid tenham sido baseadas nas reportagens de ultíssima hora feitas por jornalistas que tampouco pesquisaram a vida de Nelson Mandela antes do dia 5 de dezembro.

Nelson Mandela é um dos ícones sagrados, mitológicos e intangíveis em sua posição acima do bem e do mal – perfeitos como idéias platônicas, a visão que se tem destes mitos é virginalmente distanciada de quem são essas mesmas pessoas na realidade suja e dura. Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Ayrton Senna, John Lennon, Chico Buarque ou Paulo Evaristo Arns são dessas figuras tratadas como se fosse dever moral admiti-las como super-humanas e aceitar sua perfeição absoluta em sua inteireza, sem nunca criticá-las ou bocejar enquanto falam.

mandela.communistMas sua função maior mesmo é de ícone. Tal como pessoas usadas como símbolos por quem desconhece quem são de verdade (Guy Fawkes, Che Guevara, Malcolm X, Simón Bolívar etc), as figuras reais que inspiram a “luta pela paz, tolerância, justiça e igualdade” (dentre outros slogans cujo sentido nunca é definido claramente) foram campeãs nas injustiças e perseguições aos inimigos de seu projeto de poder total para controlar e “consertar” a sociedade.

Muito já foi dito sobre Nelson Mandela na última semana, como o apanhado de Rodrigo Constantino, Mandela: o outro lado. O líder da luta contra o apartheid foi preso por terrorismo. Mesmo dentro da cadeia, orquestrou uma operação com Oliver Tambo que explodiu um carro-bomba que deveria chegar a um prédio público. Parado no trânsito, o carro explodiu no famoso caso Church Street Bombing, matando 19 civis em uma área comercial.

A maior parte das vítimas dos atos do Umkhonto we Sizwe, o braço armado do partido de linha comunista de Nelson Mandela, foram civis. Mandela também teve uma proximidade ideológica com tiranos como Fidel Castro, além de receber até apoio financeiro de Muammar Kadafi, Yasser Arafat e o comunista do Zimbábue há 33 anos no poder, Robert Mugabe.

Mais do que tudo, saiu da prisão e subiu ao poder com apoio dos traficantes de diamantes de Botswana e Namíbia, primeira parada do tráfico que usa trabalho escravo em toda a África, do Congo a Serra Leoa. Quando Leonardo di Caprio fez o filme Diamantes de Sangue para denunciar a terrível condição dos serra-leoneses, Mandela foi o primeiro a criticá-lo e afirmar que nada do que aparecia no filme era verdade – para proteger seus antigos cupinchas.

Mandela começou a ser conhecido melhor na última semana.

Todavia, é preciso também conhecer melhor algo maior do que sua luta política, sua ideologia extremista burilada para transformá-lo em um símbolo de convivência e tolerância entre povos e o fato de ser um líder negro da África do Sul. É preciso que se entenda de verdade o que foi o apartheid.

apartheid visto de perto

O regime que perdurou de 1948 a 1984 é visto como um dos símbolos máximos da opressão do homem branco ocidental contra os pobres da África ainda em tempos recentes, como um obscurantismo que insistiu em sobreviver aos tempos progressistas do séc. XX. Como se apenas o racismo e preconceito dos brancos holandeses e ingleses tivessem “criado” um regime com o fito único de prejudicar, perseguir, ofender e minorizar a população negra do continente.

Conforme excelente artigo de Selwyn Duke na melhor revista do mundo para atualidades, a American Thinker, a realidade é bem distante dessa versão plana e simplória. Os primeiros brancos a chegarem à África do Sul e instalarem seus assentamentos por lá datam de 1652, enquanto a maior parte dos ancestrais das atuais populações negras que migraram tão para o sul do continente chegaram lá depois.

Afinal, como a vida na África do Sul “racista” era largamente preferível àquela nas nações ao redor, ela foi por muito tempo atrativa para negros migrantes. De fato, devido a este fator e às altas taxas de natalidade entre os negros, a demografia negra da África do Sul aumentou 920 por cento desde 1913. Esta é a principal razão pela qual a população do país aumentou de 6 milhões no começo do século passado para 52 milhões hoje, enquanto a demografia branca aumentou apenas 3,3 milhões durante este período. (grifos nossos)

Como escrevi no prefácio do livro A mentalidade anticapitalista, de Ludwig von Mises, lançado pela Vide Editorial, é preciso lembrar que o estado natural do homem é a pobreza absoluta, e não a riqueza. As populações da África sempre foram pobres, famélicas, como as populações de todo o globo antes dos primeiros assentamentos civilizacionais que começam a criar riqueza onde antes ela não existia. Riqueza, afinal, é criada, e não está “pronta” na natureza, sendo apenas tomada pelo mais forte do mais fraco (a dicotomia mentirosa entre “opressor” e “oprimido”, que permeia 11 em cada 10 formadores de opinião no Brasil).

Com os brancos criando riqueza, as populações que viviam sob regimes de negros em povoados ao redor começam a migrar em massa para a África do Sul para poder compartilhar um pouco dessa fartura. Os brancos tomaram distância de culturas tão distintas, mas pelo mesmo motivo “que as tribos Sioux e Cheyenne não conviviam na América do Norte, ou que os lombardos e alanos viviam separadamente na Europa bárbara”.

O natural e o que 100% da humanidade fez com pessoas desconhecidas, que comungam de outros valores, culturas e laços sangüíneos. Por natureza, eles vivem à parte.

Porém, justamente pela África do Sul ter sido colonizada por britânicos e afrikaners (holandeses), que mantinham uma mentalidade cristã e cultivavam a participação política (“democrática”, em sentido não-clássico), os negros que eram contratados pelos brancos e recebiam educação ocidental e falavam línguas européias passavam a também ter o sentimento de pertencimento a esse país que ia surgindo, a África do Sul – país, afinal, mais rico da África com seus governantes negros.

Isto criou uma situação interessante. Se os brancos tivessem mantido separação completa – se eles tivessem e pudessem evitar qualquer contato com as tribos africanas – não haveria Nelsons Mandelas (pela mesma razão pela qual nativos amazônicos que não conhecem nada além da cobertura de sua floresta não fazem pressão por direitos de voto). Se, como ocorreu com os japoneses e o povo indigente de suas ilhas, os Ainus, os brancos da África do Sul viessem a surpassar em número e em grande medida subjugar as tribos, não haveria ninguém de nota para fazer pressão por nada.

Mas, afinal, “a África do Sul não é uma ilha e migrantes africanos podem facilmente cruzar a fronteira em grande número”. Para aumentar o imbróglio, a população negra surpassava a branca na razão de 10 para 1.

Uma mesma população branca que trouxe conceitos de democracia para um continente em que eles nunca existiram fez o que mesmo tribos negras que não conjugam dos mesmos laços fariam: criaram um sistema em que a representação, economia e civilização dos brancos ficava à parte, separada dos negros (só a África do Sul tem 11 línguas oficiais, muitas de tribos que não aceitariam dividir a mesma mesa).

Obviamente, é claro que houve ações racistas e o apartheid, sistema de segregação, era imoral e insustentável – fora a facilitação a atos de violência e discriminação contra negros dadas por este sistema, que lembrava a categorização por sangue das antigas sociedades antes do capitalismo (este sistema em que erroneamente crêem que existem “classes sociais”).

Porém, estes atos discriminatórios existem em qualquer sociedade – e qualquer sociedade teria criado um sistema de não-participação e não-convivência quando, justamente, o sistema político era uma democracia e as decisões, baseadas no número, implicavam a destruição política e, muitas vezes, física justamente de quem implantou tal sistema de participação.

As instituições, valores e sistemas de avaliação que o próprio Ocidente implantou na África seriam inevitavelmente utilizadas para destruir quem as implantou – além de serem julgados por elas próprias.

Enquanto negros matam negros, o Ocidente acha tudo “normal”. Os brancos da África, mesmo quando enriquecem a população e lhes garantem o primeiro esgar de república, só são lembrados quando precisam ser culpados. A África do Sul, como bem define Selwyn Duke, é como George Zimmerman: o acidente de um branco contra um negro que chama a atenção de toda a mídia, enquanto a violência brutal em escala continental de negros contra negros é ignorada.

mandela_arafatSe fosse uma tribo negra que tivesse feito o mesmo para garantir sua segurança e integridade cultural, qual seria o problema? Não teríamos hoje multiculturalistas às mancheias defendendo seu direito sagrado à sua preservação no passado? Se vemos estes beleguins da pureza cultural defendendo tribos indígenas que enterram vivos bebês rejeitados ou mesmo a punição da mutilação genital muçulmana, esta religião de fanáticos, sob beneplácito explícito do movimento feminista, só podemos crer que tal cenário de defesa mundial do apartheid só não ocorreu pela quantidade de melanina na pele de quem havia criado tal sistema político.

Na verdade, não é preciso nem conjecturar pelo subjuntivo “se”. O continente africano inteiro está tomado por guerras tribais extremamente mais violentas do que o apartheid – com a diferença de que, na batalha entre tutsis e hutus em Ruanda, por exemplo, nenhum crítico ocidental vê como “política racial” quando um grupo negro toma o poder e pratica o genocídio sobre uma tribo rival. Tampouco percebe que governos autocráticos da África nunca precisaram fazer uma política à parte de outro grupo por não governarem democraticamente, e sim autocraticamente.

Thomas Sowell, o maior economista vivo do mundo (e tão negro quanto Nelson Mandela) lembra que é preciso saber diferenciar preconceitos, comuns a toda a humanidade por mera questão de gosto (até mesmo estético) de ações de discriminação. Porém, mais importante, também é preciso distinguir racismo de choques culturais, que a mentalidade das últimas três décadas (ao menos) inventa de tratar como uma única coisa o tempo todo.

Ora, até mesmo o crítico literário Terry Eagleton, marxista (autor de “Why Marx was right”), criticou essa visão rasteira da esquerda mundial. O multiculturalismo parte de uma premissa extremamente discutível, a de que é sempre vantajoso ter mais de uma escolha à mão para interpretar fenômenos sociais.

mandela kadafiTal superstição cai rapidamente por terra quando o multiculturalista é convidado a aplicar sua teoria para suavizar o pensamento de quem nega que o Holocausto de fato ocorreu, ou então os neofascistas, os Hell’s Angels ou, quem sabe, até mesmo o inocente Tea Party (inclusão nossa). O multiculturalismo cai muito bem para manter o estado presente intocado da Islândia, da comunidade marítima ou da ilha de Komodo. A realidade que, por sua complexidade, é capaz de gerar polêmica e conflito, é justamente o grosso para o qual o multiculturalismo vai do anódino ao pernicioso.

No fim, torna-se apenas uma teoria chique para ser arrotada com ares de empáfia e pretensa erudição nada crítica apenas para dizer que toda sociedade é boa e justificada, exceto a sociedade ocidental, aquela única que nasceu da auto-crítica, da ironia filosófica, da tolerância e agregação de outras sociedades e que permitiu que se florescesse… o multiculturalismo.

Ainda assim, a idéia de segregar algumas pessoas a uma segunda classe pode ter suas origens históricas, mas é incompatível ao fim e ao cabo com a própria universalidade da cultura ocidental – exceto para os multiculturalistas que nunca permitiriam isso para mulheres, gays ou negros, mas nunca vêem problema com a hierarquia da sociedade islâmica.

A África do Sul, o povoamento que deu origem ao país mais rico do continente africano, deveria ter tido um destino mais óbvio: a divisão do país – o tipo pacífico e sensato de “apartheid” que o Ocidente soube conduzir para a Iugoslávia após seu esfacelamento depois de anos de terror, crimes contra a humanidade e limpeza étnica do socialista Slobodan Milošević – métodos sempre utilizados pela esquerda no poder e que não deixaram de ser utilizados, afinal, por Nelson Mandela.

O líder negro visto de perto

Se você é um líder negro e se preocupa com a vida dos negros, a primeira coisa que deve se preocupar é em mantê-los vivos. A partir do período em que Mandela foi presidente, as taxas de homicídio dispararam insanamente, tornando o país um dos lugares mais perigosos do mundo.

A África do Sul tem 44 homicídios por dia. São mortos 20 brancos a cada 24 horas. Com uma densidade demográfica de 10 para 1, não é preciso perceber que tais crimes têm motivação racial. O famoso racismo de negros contra brancos que, graças à tirania do estúpido pensamento politicamente correto, é “ignorado” em nome da hipersensibilidade. Ao menos nisso Mandela foi inovador com seu discurso contra “os preconceituosos” e “intolerantes” (qual injustiça em escala massiva não foi praticada exatamente sob auspícios do mesmíssimo tipo de discurso? quantos terroristas e fomentadores de guerras já não ganharam o Nobel da Paz?). Os negros continuam morrendo, mas as mortes de brancos se tornam mera estatística.

Em julho de 2012, uma família branca foi morta de forma chocante até para padrões africanos. O pai foi atacado com um taco de golfe e uma faca, enquanto a mãe era estuprada. Ambos form mortos a tiros. Os três assassinos não gostaram de como “eram tratados” pela família branca.

O filho de 12 anos do casal, Amaro Viana, “para não reconhecê-los”, sofreu uma sevícia indescritível: aos soluços, foi amordaçado e afogado em uma banheira escaldante. Com nenhum avanço na qualidade de vida dos negros, um crescimento econômico irrisório e a boa e velha planificação e centralização socialista, a herança de Nelson Mandela como presidente pode ser resumida hoje, quase 30 anos depois, por esse tipo de crime se tornando comum.

amaro family south africa

Se quer saber qual tendência política se preocupou com tal violência, não precisa ter a menor dúvida: não foi a esquerda.

A violência da África do Sul transformou a ocupação de fazendeiro “branco” (Boer) na profissão mais perigosa do mundo. A taxa de homicídios é de 310 a cada 100.000 por ano (as taxas de homicídio na Londres dos “colonizadores” malvados, que aceita negros sem problema, é de 3 a cada 100 mil). É difícil pensar em violência minimamente comparável em todo o meio século de política do apartheid, de não-compartilhamento de instituições e crescimento econômico tratado à parte entre etnias.

Os Boer foram expulsos do vizinho Zimbábue pela reforma agrária do socialista Robert Mugabe, que estatizou as terras dos “brancos”. O resultado é apenas mais socialismo: fome, fome e fome. Mandela tentou o mesmo, apenas mais lentamente: criou cotas anti-brancos que apenas os jogaram na pobreza, além de expropriar os frutos de seu trabalho.

mandela mugabeHavia 128 mil fazendas comerciais em 1980. Hoje, são 40 mil. O partido de Nelson Mandela até hoje nega a perseguição racial. Com a retórica sakamotiana de sempre, o governo apenas diz que os brancos são vítimas por serem “ricos”. É certamente um fator, mas isso não explica crimes como uma vítima branca amarrada atrás de seu veículo e arrastada até seu rosto ser completamente esfacelado no asfalto (algo como usar a esparrela da “desigualdade social” para explicar o crime contra o menino João Hélio, quando até um de seus assassinos tinha carro em casa). Ou adolescentes espancados até a morte depois de seus pais serem mortos. Ou um bebê de dois anos jogado em óleo fervente.

Isto, é claro, apenas falando da violência privatizada, típica da esquerda pós-Cortina de Ferro no poder. A violência do próprio partido comunista de Nelson Mandela, que arrancava lábios e línguas de negros africanos que falassem mal do comunismo, nem entra na conta.

Genocide Watch classifica a África do Sul no sexto estágio do processo de genocídio. O sétimo é o último – e significa extermínio.

Isto não será lembrado pela polícia sul-africana, corrupta e ainda dominada pelo partido de Mandela – muito menos será lembrada nesses dias em que Mandela é incensado como herói e os brancos sul-africanos apenas são lembrados para serem culpados por tudo.

mandela fidelMandela não disse muito a respeito da violência contra os Boer. A violência contra os kulaks na Rússia stalinista começa criticando “os fazendeiros ricos, que escondem grãos do confisco” – e depois o epíteto passa a ser usado como um xingamento para qualquer um (como “coxinha” ou “reaça” hoje) – e termina matando de fome cerca de 7,5 milhões de ucranianos em dois anos de paz. O nacional-socialismo começa criticando judeus por serem ricos, e termina desviando a guerra para o “problema judeu” e enviando um terço dos judeus europeus para câmaras de gás Lá como cá, o partido de Mandela é famoso por cantar desabridamente a canção Kill The Boer, mesmo com pedidos nacionais e internacionais para não fazê-lo.

Sua letra diz “We are going to shoot them; they are going to run. Shoot the Boer; shoot them, they are going to run. Shoot the Boer. We are going to hit them; they are going to run; the Cabinet will shoot them with the machine-gun. The Cabinet will shoot them with the machine-gun….” – palavras extremamente semelhantes ao hino nazista, a Canção de Horst-Wessel, jurando vingança: Kam’raden, die Rotfront und Reaktion erschossen, Marschier’n im Geist in unser’n Reihen mit” (“Camaradas, baleados pela Frente Vermelha e pelos reacionários, Marchem em espírito em nossas fileiras”).

Não há muito espaço para interpretação aqui. Podemos ver aqui o atual presidente sul-africano, do partido de Mandela, animado cantando a canção jurando matar os brancos, fazendo o Exército dançar.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=6fzRSE_p1Ys[/youtube]

O antigo líder do partido, Julius Malema, também cantava tal música, mesmo com a proibição.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=OIsO78kkJP0[/youtube]

Aliás, Nelson Mandela passou décadas no cárcere cumprindo prisão perpétua, mas foi solto. Com a pressão internacional (da mesma cultura ocidental mais parecida com o apartheid do que com qualquer cultura africana), o presidente J. W. Botha ofereceu-lhe a soltura em 1985, desde que prometesse não mais se envolver no terrorismo e na luta armada contra os brancos. O Prêmio Nobel da Paz recusou. E mesmo depois de aprender a florear seu discurso e fazer como líderes populistas de esquerda (falar em “igualdade”, “solidariedade” e termos agradáveis em seu discurso, mas defender o terrorismo, a expropriação e a violência na prática), não deixou de ser flagrado algumas vezes também cantando músicas prometendo genocídio.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=NKiePbTcAfY[/youtube]

O nosso Mandela

O grande gigante da paz, homenageado em todas as revistas do Brasil como “o último herói” ou alguém que nos ensinou que vale a pena lutar por sonhos, era um terrorista. Teve, naturalmente, algumas qualidades que devem ser admiradas – são poucos os que passam 27 anos na cadeia e saem de lá com uma mensagem de conciliação e perdão. Todavia, é preciso saber deslindar o que dizia como político e o que fazia na realidade prática.

Nelson Mandela - necklacingMandela aplicava a típica torção da esquerda que jura que não é comunista (mas sempre é). Negava que fazia parte do Partido Comunista, mas além do seu apoio a Fidel Castro, era também apoiado pelo Partido Comunista sul-africano. O Umkhonto we Sizwe recebeu apoio financeiro de Muammar Kadafi (um Nelson Mandela da Líbia) e da União Soviética. Além de subir ao poder com ajuda dos traficantes de diamantes, também era defensor dos casamentos forjados, para facilitar a manipulação das rivalidades tribais.

A violência em nível comunista é familiar a Mandela. Mesmo “agentes do inimigo” (essa outra particularidade excêntrica de regimes comunistas e seu centralismo brutal) eram torturados, como o próprio Mandiba admitiu que era método de sua organização – contra, claro, companheiros negros. O famoso “microondas”, dos traficantes do Rio (prender alguém em pneus molhados com gasolina e depois atear fogo), chamado na África do Sul de necklacing, feito só no pescoço, era uma técnica apoiada pela mulher de Mandela nos tempos de militância, Winnie.

Tal grau de violência sempre é admitido por esquerdistas quando conversam entre si, esquecendo-se que algum “agente do inimigo” (alguém que não comunga da idéia de assassinar rivais para concentrar poder nas próprias mãos) podem acabar ouvindo.

cynara mandela mujica

lula_kadafiO jornalista da revista Istoé Leonardo Attuch disparou: “No Brasil, o único líder político que, guardadas as proporções, pode ser comparado a Nelson Mandela é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, que, segundo ele, combateu o “apartheid social”. Attuch está tentando elogiar Lula, mas a despeito de não podermos considerar um elogio, ele está certíssimo. Ninguém se parece mais com Mandela no Brasil do que Lula.

Inclusive na amizade com Fidel Castro. Inclusive na amizade com Muammar Kadafi, que Lula chamou de “meu amigo, meu irmão, meu líder”. Inclusive em defender uma conciliação para ganhar votos e admiradores que pouco os estudaram da boca para fora, e defender um sistema em que a violência oficial ou privada é patrocinada por eles próprios (no caso brasileiro, com as ligações do PT com as FARC, o PCC, o CV e o discurso coitadista com a bandidagem).

Attuch termina criticando Joaquim Barbosa, que teria tornado os petistas “presos políticos”, e diz que “aos que se sentem injustiçados por ele, resta o consolo de ‘Mandiba’: ‘Podem nos tirar tudo, menos nossa alma e nosso coração'”. Não se sabe na verdade se a violência brasileira e seu patamar de 50 mil homicídios por ano, com bandidos defendidos sobretudo pelo partido de Lula, chegará a arrancar corações algum dia. Mas, vendo desse lado, é verdade que, fora nossa alma, os cupinchas de nosso Mandela brasileiro parecem estar dispostos a tirar tudo de nós.

Reinaldo Azevedo contra a camarilha do Oscar Niemeyer

Reinaldo Azevedo (jornalista da Veja, dispensa apresentações) foi instado por sua comunhão de leitores, pela própria natureza de sua profissão e pela ala letrada da torcida do Corinthians (todos os 3) a escrever suas mal traçadas sobre a morte de Oscar Niemeyer. No título do artigo, Reinaldo o chama de “metade gênio, metade idiota”.

As intenções do texto são claras como o meio-dia, até mesmo para os bibliofóbicos que não conseguem passar 2 dias sem criticar Reinaldo Azevedo (naturalmente acreditando que ler seus títulos de 6 linhas é o suficiente para conhecer seus argumentos): O Tio Rei tratou de separar as duas faces mais conhecidas da figura pública de Oscar Niemeyer: seu trabalho como arquiteto e sua apreciação pelo comunismo.

A patrulha dos Reinaldo-dependentes não gostou.

Acharam um absurdo que Reinaldo Azevedo, aquele direitista (o único de quem já ouviram falar e sabem o que pensa pelos únicos dois artigos que leram inteiros dele na vida), chamasse Oscar Niemeyer de “metade idiota”. Ainda mais o Niemeyer. Ainda mais mesmo o Reinaldo, que quieto já tem motivo para uma contra-crítica.

Imediatamente iniciou a grita orquestrada. Às pressas, trocavam informações na miúda sobre Niemeyer, além do que já sabiam (que já tinha passado da alfabetização quando viu Dercy Gonçalves nascer e que é brasileiro e comunista). Baixaram toda a discografia do Niemeyer correndo pra se dizerem fãs desde infância. Lembraram que ele lutou sozinho contra todo o Exército na época da ditadura (e ganhou). As feministas do Femen aproveitaram para mostrar os peitos, mas o evento foi cancelado, pois no Memorial da América Latina estava muito sol (e os únicos freqüentadores eram crianças de 9 anos em excursão obrigatória da escola).

Tudo isso porque, ora essa, onde já se viu chamar um stalinista de “idiota”, ou mesmo de “meio idiota”?!

Além da Cortina Vermelha

Oscar Niemeyer era um stalinista confesso, como Eric Hobsbawm, aquele que defendeu que as 30 milhões de mortes dos Grandes Expurgos stalinistas (nunca estudados na escola) seriam justificadas, se atingissem mesmo o comunismo (nenhum líder comunista, com a possível exceção de Nikita Kruschev, acreditava mesmo na possibilidade da futura sociedade sem Estado apregoada como desculpa para o morticínio desenfreado). Imagine-se o que aconteceria se alguém apregoasse que as mais de 40 mil mortes de Pinochet fossem “justificadas” para abrir mais a economia…

É o que o Niemeyer ele mesmo diz em entrevista ao Diário do Nordeste de 9 de dezembro de 2007 (citada pelo próprio Reinaldo Azevedo):

Stálin era fantástico. A Alemanha acabou por fazer dele uma imagem de que era um monstro, um bandido. Ele não mandou matar os militares soviéticos na guerra. Eles foram julgados, tinham lutado pelos alemães. Era preciso. Estava defendendo a revolução, que é mais importante. Os homens passam, a revolução está aí.” (grifos nossos)

Descontando o menosprezo pela vida humana (logo ele, que durou 35 anos a mais do que a Revolução!), não surpreende alguém que leu algo sobre comunismo além de… comunistas que Niemeyer condene tais sentenças à Eternidade. Quem quiser saber o modo como foram “julgados” os pobres soldados que foram defender a grande União Soviética, o maior (e “melhor”!) país do mundo, na “Grande Guerra Patriótica”, só precisa ler o livro de não-ficção mais importante do séc. XX (de acordo com The Time), os 3 volumes de Arquipélago Gulag, do ganhador do Nobel (e só por isso sobrevivente do horror soviético pós-Stálin) Aleksandr Solzhenitsyn.

Em suas páginas (que começam com o parágrafo mais chocante do que já aconteceu em nosso planetinha), encontraremos de cara um capítulo sobre como eram presas as pessoas em um sistema totalitário de vigia total da atividade particular pelo governo. Poderia-se, por exemplo, dobrar uma esquina com uma viela, e bye bye notícias sobre uma pessoa. Também há um curioso capítulo apenas sobre o interrogatório, As descrições dos… “julgamentos” fariam qualquer pessoa com um sistema nervoso central torcer para morrer pelas mãos da ditadura brasileira (e isso porque o capítulo inteiro é feito de eufemismos). Apenas suas primeiras palavras, em tradução porca minha:

“Se alguém dissesse aos intelectuais nas peças de Tchekov, que gastam todo o seu tempo adivinhando o que aconteceria nos próximos vinte, trinta ou quarenta anos, que em quarenta anos o interrogatório por tortura seria praticado na Rússia; que prisioneiros teriam seus crânios comprimidos em anéis de ferro; que um ser humano seria desmanchado em uma banheira de ácido; que eles seriam atados nus para serem mordidos por formigas e percevejos; que uma vareta aquecida na boca grande de um fogão seria enfiada em seus canais anais (a “marca secreta”); que os genitais de um homem seriam lentamente esmagados sob a fronte de um coturno; e que, na mais sortuda das circunstâncias possíveis, os prisioneiros seriam torturados sendo mantidos sem dormir por uma semana, através da sede, ou sendo espancados até virarem uma polpa de sangue, nenhuma das peças de Tchekov teria chegado ao seu fim, pois todos os heróís teriam ido parar em sanatórios.”

Aleksandr Solzhenitsyn conta sua própria história de prisioneiro no Gulag (o que fizera antes no igualmente arrepiante Um Dia na Vida de ivan Denisovich), além das histórias que lá compilou. Militar bem posicionado, conseguiu, por isso, relatos muito bem informados sobre como era a vida, as torturas, o sofrimento, a miséria e o desespero constante no Gulag, sendo obrigado a fazer constantes declarações vergonhosas no livro (como ter deixado outros prisioneiros  mais velhos e feridos carregarem sua jaqueta, já que, pombas, ele era um oficial!). Solzhenitsyn lutou, justamente, contra os alemães na tal guerra. Ganhou sua sentença (o famoso “tenner“, sentenças pré-programas de dez anos, imitando as notas de dez libras) por um motivo idiota: comentar, numa carta (sempre lida por seus superiores) alguns erros estratégicos de Stalin, utilizando um pseudônimo bobo que qualquer censor sabia a quem se referia e causava risadas quando contava a outros presos – erros estratégicos que, é claro, custaram milhares ou milhões de vidas soviéticas, usadas sempre como a grande superioridade da Rússia e da China frente a seus oponentes muito mais bem preparados.

Stálin simplesmente mandava em seus marechais, tendo prendido e/ou executado oito deles antes da Segunda Guerra, deixando alguns selecionados, como Zhukov e Rokossovsky, “livres” para agir apenas quando viu que precisava deles (ambos sofreriam conseqüências gravíssimas justamente pela confiança que os soldados e a população soviética depositava neles, sobretudo no primeiro). Chegou a exigir que uma de suas divisões marchasse sobre campos minados antes da eclosão da rivalidade soviético-alemã na Segunda Guerra para se livrar dos “traidores”. Muitos historiadores contabilizam em simplesmente 9 milhões as mortes de soldados soviéticos antes da eclosão da Guerra. Vide o implacável livro de Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo. Também era um bom jeito de se livrar dos indesejáveis: mandá-los para o front e acusá-los de traição à pátria (por exemplo, por não ter lutado até “a última gota de sangue”). Novamente Solzhenitsyn:

(É assim que sempre acontece. Não é apenas alguma pessoa que precisa de você; é sempre a sua Pátria. E tem sempre algum oficial que fala em nome de sua Pátria e sabe do que ela está precisando.)

Acreditem ou não, o Prêmio Nobel de Literatura de 1970 estava um tantinho mais informado sobre o funcionamento dos meios militares, prisionais, jurídicos, sociais etc da União Soviética do que Oscar Niemeyer – que, misteriosamente, nunca projetou para Stalin, ou Kruschev, ou Brezhnev, ou Andropov, ou Gorbachev, ou Yeltsin, ou Putin… repararam que esses conservadores capitalistas andam conservando o corpitcho de um velho comunista por mais tempo do que os comunistas conservaram seu próprio país, e o maior do mundo?!

(Niemeyer estava pra fazer 10 anos quando eclodiu a Revolução Russa, e também tem mais de um quinto da idade do Brasil.)

Será que Solzhenitsyn diria algo sobre Niemeyer melhor do que “Creio que o senhor está levemente enganado”? Ou será que os críticos de Reinaldo Azevedo acham que Solzhenitsyn é um idiota, apesar de consabidamente nunca terem ouvido falar do autor mais importante para se entender a União Soviética? Ora, estamos no Brasil: um país em que você chama um stalinista de “idiota”, e o carrasco genocida totalitário inimigo da Humanidade é você.

É claro, todavia, que nem Oscar Niemeyer, nem o enxame de abelhas assassinas que ora o “defende”, leria um livro de 800 páginas sobre a realidade que vai contra os seus preconceitos (Arquipélago Gulag é maior, mas dividido em volumes e com prosa mais “leve”, se é que assim pode ser colocado), que dirá, digamos, 5 livros com mais de 300 páginas cada. O modo de estudo do maior assassinato em massa da História mundial é aquele da Disciplina da USP “A Revolução Russa: História e Historiografia” (código FLH0119, 48 inscritos para 5 vagas de Optativa Livre), que não possui uma única referência bibliográfica que não seja dos próprios organizadores da farrinha genocida ou de seus admiradores (no máximo uma Rosa Luxemburgo pra compensar).

Sua bibliografia não tem Rumo à Estação Finlândia, Three Who Made A Revolution, Dez dias que abalaram o mundo, nem nada de Kolakowski, Nove, Robert Conquest, Adam Ulam, Orlando Figes, Anne Applebaum, Tony Judt – os grandes historiadores do terror soviético. Imaginemos se o nazismo, no Brasil, fosse estudado apenas lendo-se autores neonazistas, além de discursos de Goebbels, Bormann e Himmler. Que opinião teria o “universitário” brasileiro sobre o nazismo? Provavelmente, a mesma opinião dócil e mansa que possuem sobre seu gêmeo heterozigoto (em feliz expressão de Pierre Chaunu, reproduzida por Hermann Hesse).

Para se entender o perigo, basta ver como qualquer leitor peso mosca reage a palavras como Adolf Hitler, Adolf Eichmann, campo de concentração, Auschwitz, Treblinka, anti-semita, Holocausto. Já quantos reagem com mesma aversão a palavras como Lavrentiy Beria, Georgy Malenkov, fazenda comunal, kholkhoz, Lubyanka, Kolyma, Karaganda, Arkhangelsk, Canal do Mar Báltico, kulak, Holodomor? Causam o mesmo temor? Sentimos a mesma indignação e aversão quando alguém diz que o Grande Líder por trás dessas últimas palavras era “fantástico” que sentimos quando alguém diz que Hitler era “legal”? Como explica Alain Besançon (este sim um historiador de fazer tremer o barraco) em imprescindível artigo, a memória não retém as atrocidades do comunismo.

(Na verdade, sequer os líderes da União Soviética entre Stálin e Gorbachev costumam ser conhecidos dos universitários, que dirá do público não-“especializado”.)

Heidegger era “metade gênio, metade idiota”?

Alguns acusaram Reinaldo Azevedo de ser o Reinaldo Azevedo, como sempre se resume o “argumento” de quem não gosta dele. Outros tentaram compará-lo com os conhecidos elogios fúnebres que se faz a figuras distantes, provenientes de veículos de comunicação distantes e estrangeiros (os mesmos veículos que os críticos da “grande mídia” odeiam full-time, exceto quando lhes convém). Até alguns abocanhadores de um dinheiro público famosos por suas fotos na Ilha de Caras resolveram entrar na dança (fora os abocanhadores que disfarçam mais).

Foi dito, então, que ter aversão pelo stalinismo de Niemeyer seria falta de capacidade de criticar com propriedade. O “caso Reinaldo” mostra o que acontece quando você chama Martin Heidegger de “meio idiota” em meio a neonazistas. O nazismo matou muito menos, e Heidegger foi um colaboracionista bem heterodoxo, que não parece ter tido lá muito orgulho ulterior de seu período como repressor em Freiburg.

Martin Heidegger, diga-se, também é metade gênio, metade idiota: e tal diferenciação, como feita por Reinaldo, serve para salvar a obra filosófica de Heidegger de suas abjetas posições políticas. Heidegger influenciou praticamente todos os filósofos posteriores a ele, e isso inclui muitos que o criticaram (não só por seu namoro com o nazismo): nem os que o detestam conseguem escapar muito de dialogar com ele. De Hannah Arendt (autora de um curioso memorial em vida quando o filósofo da Floresta Negra chegou aos 80 anos) a J. P. Sartre (que Heidegger apeou porta afora dizendo que “não atendia jornalistas”); de Paul Ricœur, o gênio da hermenêutica que lembrou que Heidegger é interessante pela sua filosofia em si, e não pela forma como encampa tudo o que veio antes dele na “ultrapassada metafísica”, a Xavier Zubiri, o filósofo que melhor compreendeu a intelecção em toda a história, passando por Kuki Shuzo e Tanabe Hajime, da Escola de Kyoto. Mas se alguém lembrasse, com olhar de desprezo, de sua passagem pelas fileiras nazistas durante seu obituário, será que merecia uma chuva de manifestações revoladinhas como Reinaldo Azevedo recebeu da adolescentaiada esquerdista de sempre?

O mesmo, aliás, não pode ser dito de Carl Schmitt (o maior crítico do capitalismo do mundo, e um arrependido mais desabrido), de Paretto (que não viveu para acompanhar o fascismo), de Mircea Eliade, Knut Hamsun e Julius Evola, anti-comunistas que praticamente usaram um totalitarismo para evitar outro, mas escolheram o lado perdedor da História? Não foram “meio idiotas”? E onde estão os “stalinistas arrependidos”, senão na “direita”, como Kolakowski e David Horowitz? Que diferença de Niemeyer e Hobsbawm para um J. P. Vernant mantendo-se na esquerda, mas explicando a bancarrota comunista (excelente texto para os assembleistas da USP)…

Ainda vivemos em um país em que as pessoas pensam no totalitarismo comunista de maneira muito mais dócil do que a extrema-direita alemã pensa no totalitarismo nazista. Mas são pessoas que, estranhamente, se ofenderiam se as chamássemos de stalinistas e totalitárias. Por que criticar os outros sem enxergar a realidade próxima é muito fácil: difícil é entender o rigor da realidade mais factual (ou bei Hand, em termo heideggeriano) antes de proferir caquinha.

Para piorar, eu, que tenho críticas ao Cristianismo que não cabem numa Biblioteca, sou obrigado a concordar com o  que Reinaldo prognosticou: “Se eu tivesse escrito que Jesus Cristo era metade santo e metade idiota, a reação não teria sido tão violenta.”

Vamos aproveitar esse calor pra passear no Memorial da América Latina?

Por fim, ao contrário de Reinaldo Azevedo (que salvou sua obra para criticar tão somente sua defesa de genocídios), para quem baixou correndo a discografia do Niemeyer para se dizer fã de última hora, artigo recente da Newsweek lembrava que seu trabalho é “mais exaltado do que estudado”. Professores de arquitetura da inatingível e angelical USP também comentam seu uso do espaço faraonicamente vazio: “Os modernistas sempre esperaram multidões que nunca apareceram”, afirma Rodrigo Queirós. Até hoje não é fácil entender por que Niemeyer gastou tanto concreto construindo a única piroca vista a olho nu da Lua.

Joaquim Guedes foi direto à jugular: “Arquitetura não pode ser exibicionismo estrutural”, dizia ele, que considerava a Esplanada dos Ministérios de Brasília um punhado de “colunas de prédios marchando num desfile militar”. Ia além: “O Copan, no centro de São Paulo, chama a atenção pelo desenho em S. Dentro do prédio, no entanto, reina uma bagunça babélica. Não serve para morar nem para trabalhar”. Curiosamente, um prédio onde aplaudiríamos que o trabalho fosse dificultado é o Congresso: construir uma trosoba dupla com um bago pela metade de cada lado é chamativo, mas o povo brasileiro ainda crê que deveria ter chamado atenção do bin Laden. E poucos ainda foram capazes de explicar por que Niemeyer constrói escadas em que você precisa dar exatamente um passo e meio para mudar de degrau.

Basta sair da crítica júnior e pesquisar um pouquinho antes de virar formador de opinião e pedir seu dinheiro público por isso. Há uma reportagem na Revista Alfa de 2 meses atrás falando muito a quem acha que criticar Niemeyer é coisa de reacionários hidrofóbicos brancos vira-latas católicos de direita.

Melhor nem mesmo comentar a opinião do escritor Claude Lanzmann, ex-amante de Simone de Beauvoir, sobre o “poeta das curvas” (essa foi digna de Chico Buarque). Solta a Revista Bula:

Ao visitar o Brasil, há 25 anos, o jornalista diz que hospedou-se num hotel projetado por Niemeyer (a “Folha” erra ao não identificar o hotel). “O hotel era um prédio tipo torre, de Niemeyer, que é um criminoso. Um arranha-céu circular é totalmente idiota, um absurdo”, ataca. Instigado, acrescenta: “Nesse arranha-céu onde o festival [de cinema] se desenrolava, esperávamos 45 minutos de fila para descer ou subir. Esse é o crime do arquiteto. O círculo serve para quê? As pessoas fazem os prisioneiros andarem em círculos nas prisões cortando assim qualquer projeto, qualquer futuro, é isso o círculo. Os arquitetos que constroem prédios circulares são idiotas. Não tenho nenhum respeito por Oscar Niemeyer. Ele construiu Brasília? Pior para Brasília”. (grifos nossos)

Para Lanzmann, o prédio nem meio idiota é.

Devemos mesmo selar a paz aproveitando esse calor pra dar um passeio pelo Memorial da América Latina! Alguém topa? Eu levo os jornalistas da Carta Capital e vocês levam o suco. Ou alguém mais prefere transformar aquilo num pesque-e-pague, já que duvido que alguém tenha pisado lá duas vezes na vida sem ter sido forçado na segunda?

Já no documentário “Conterrâneos Velhos de Guerra”, Niemeyer não apenas mostra um íntegro desconhecimento totalmente lulista sobre os abusos cometidos contra operários na construção de Brasília (o arquiteto também era, logicamente, fã de JK, além de Stálin), como reitera sua visão de indivíduos como algo não muito diferente de formigas. Antes de ordenar, de maneira autoritária, que o cinegrafista pare de filmá-lo, Oscar vocifera: “Matam tanto operário, é um regime de merda (sic), qual é a importância que mataram lá, tão matando todo dia gente aí, invadindo as favelas”, tenta se defender o arquiteto, emendando: “Nunca ouvi falar nisso” (veja o vídeo no Mídia@Mais). Claro, todos os operários são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros.

Vale ainda um comentário encontrado no blog do próprio Reinaldo: “Escreva ‘Justiça Social’ na lápide dos 100 milhões de cadáveres do comunismo. Pena que não tem lápide, foram quase todos pra vala comum”.

Note-se, afinal, que Niemeyer foi um dos comunistas perseguidos pela ditadura militar. Teve de se exilar em Paris. Assim até eu, né, nêgo?! Por que nenhum comunista se exilou na União Soviética?! Como essa turma conseguia ir pra Paris com mais familiaridade do que conseguimos intercâmbio pra Buenos Aires? Enquanto a comunada vai pra Paris com a mesma facilidade que vamos pra Praia Grande, não entendemos por que Niemeyer não construiu nada para Havana. Ou nada de concreto (tão raro e disputado na ditadura de economia de comando), já que projetou o absolutamente horrendo monumento anti-imperialismo.

Protógenes Queiroz quer proibir filme do ursinho Ted

Protógenes Queiroz, deputado federal (PCdoB-SP) e delegado da Polícia Federal, foi assistir com seu filho, o pequeno Juan, de 11 anos, o filme Ted, comédia em que um adolescente passa as diabruras típicas da idade (sexo, drogas e vagabundagem, já que rock tá fora de moda) ao lado do seu ursinho protagonista. A classificação indicativa do filme é de 16 anos.

Protógenes não gostou do que viu. Ao invés de perceber que cometeu uma contravenção penal, Protógenes ainda se sentiu no direito de achar que poderia usar a lei a seu favor. Postou em seu Twitter o bravateiro gracejo:

O delegado da PF, famoso pela operação Satiagraha, acredita que, após levar o próprio filho, o pequeno Juan, para a sessão de constrangimento que é assistir um filme com tema adulto, ainda pode exigir explicações do Ministério da Justiça, como se o Ministério não tivesse mais o que fazer do que explicar para um deputado federal e delegado licenciado da Polícia Federal que um filme com classificação indicativa de 16 anos é, $#@&*%, pra ser assistido por pessoas a partir dos 16 anos, e quem deve algumas explicações para a contravenção cometida é a Sua Excelência, sr. deputado Protógenes. Ou poderia eu dizer que fui assistir DEUSAS DO ANAL 6 com meu filhinho pequeno de 8 anos, e por ver cenas de sexo explícito com nítida apologia à masturbação, dizer depois que o Ministério da Justiça me deve explicações?!

Pai, preciso ter aquela conversa contigo

Como bem lembrado por Jerônimo Teixeira, o artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que é crime “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento”. A pena é detenção de seis meses a dois anos. Tá nas regras. Cartão vermelho. Protógenes virou motivo de piada no Twitter. Quer dizer, virou motivo para alguém lembrar dele – ensejo para chacota é alguém do PCdoB ser lembrado, em qualquer dia do ano.

Mas Protógenes, um dos ídolos da blogosfera progressista, não se deu por satisfeito. A piada poderia apenas ter valido ao pequeno Juan seu dia de Nissim Ourfali. Protógenes, fiel à sua linha comunista KGB de ser, resolveu que quer proibir o filme do ursinho viciado, acionando o Ministério da Justiça e o Ministério da Cultura (essa entidade que tanto fez por nosso arcabouço cultural). É de se perguntar se Protógenes Queiroz, que foi reprovado no exame psicotécnico para delegado da PF, tem mesmo uma enorme destreza para evitar drogas entrando no país pelas fronteiras, enquanto vocifera tão raivosamente contra o filme de um ursinho.

Ora, é da tradição liberal que cada um faça o que quiser, desde que não agrida ninguém. Se eu quero ver o filme Ted e tenho mais de 16 anos (e não sou mongo o bastante para levar meus filhos recém-saídos das primeiras aulas sobre célula da cebola para ver escatologia trash comigo), eu tenho esse direito. Se eu agredir alguém, mormente uma criança, obrigando-a a uma sessão vexame que deixa traumas profundos na personalidade (não graças ao filme, mas por perceber a capacidade intelectual apoucada do próprio pai), o poder público deve ser acionado para proteger o elo mais fraco da relação (em tamanho, não em QI), não dar explicações justamente pra quem fez a caquinha.

Já na tradição comunista coletivista do sr. Protógenes, não há indivíduos, apenas números. Alguns números são parte do poder, outros servem de joelhos a este poder. E quando alguma contravenção passível de pena é cometida, a parte que faz parte do poder pode usar do seu próprio mando (o que os romanos chamavam de potestas) para, sem identificar indivíduos, usar o poder físico do Estado (potentia) com base em seu poder político (autoritas), que seria anterior e estaria acima das leis, para sair por aí, prejudicando quem não tem nada a ver com a contravenção cometida. O algoz se torna vítima e vice-versa. O que importa, afinal, é quem dá as cartas (ou, como dizia Mao Zedong, o poder vem da boca do revólver).

Filme com classificação indicativa 16 anos: “infanto-juvenil”

Assim, se sou um delegado num coletivismo brutal, a cada vez que tiro uma nota baixa, posso afirmar que o MJ me deve explicações. E posso ainda sair proibindo o que não gosto, através do meu poder político, pois todas as outras pessoas não são indivíduos com vontades e individualidades distintas das minhas e que devem ser respeitadas – são apenas números que devem ser submetidos ao que o burocrata agente do poder político manda.

Classificação indicativa: Pequeno Juan

Todavia, há algo ainda mais estapafúrdio no comportamento do delegado comunista. Pela visão de mundo de Protógenes (perdoa-se lá a hipérbole), um filme conter uma cena de consumo de drogas é “apologia as drogas” (sic). Tanta coisa pra proibir (como abolir a transitividade indireta do verbo assistir, destruída de cunho próprio neste arrazoado), e o sr. deputado quer proibir um filme em que um ursinho fuma crack.

Se uma cena de consumo de drogas é “apologia as drogas” (eterno sic), acaso as cenas em que Jesus é açoitado e torturado em A Paixão de Cristo são apologia do espancamento? A horrenda cena de estupro de Irreversível é uma apologia à violência sexual? (cena que foi elogiada por feministas por demonstrar visualmente o absurdo que é a crença machista de que mulheres, na verdade, têm fantasias sexuais com o estupro) Independence Day é alguma apologia da invasão alienígena? (desconte-se lá a explosão da Casa Branca, para tirar o sorrisinho safado das fauces dos millitantes do PCdoB) O sr. deputado não poderia explicar para o filho que o ursinho está envolvido com drogas devido à luta de classes, sendo uma vítima da sociedade? Acaso há apologia ao consumo de drogas em Eu, Christiane F, 13 anos, drogada e prostituída, ou o próprio título demonstra o choque por si? Há alguma coisa favorável ao consumo de drogas em Trainsporting, Réquiem para um Sonho, Diário de um Adolescente ou Tropa de Elite?

Um roteiro de filme não é apologia de nada, a não ser para pessoas ainda com pouco discernimento (por isso a porcaria da classificação indicativa) ou para completos debilóides. Ninguém, em filme algum, nem mesmo o narrador falando ao espectador, está ensinando nada, por ser um produto cultural. O mesmo se dá com livros. Madame Bovary não é um apologia ao adultério, como não há casos conhecidos de alguém que tenha assistido Hamlet e tenha saído por aí assassinando o tio (apesar da maior homenagem da década passada ao ato shakespeariano).

Quando vejo algo de que não gosto, minha atitude é trocar de canal, sair do cinema, jogar o livro longe ou xingar muito no Twitter. Não é acionar o poder público (e vocês sabem quem financia tudo isso). É a diferença entre o liberalismo e o coletivismo comunista: no regime das liberdades individuais, se você é um idiota, simplesmente não gosto de você, não vou lá no seu barco e você não vem na minha lancha. No comunismo, meus cupinchas têm o poder completo, e, se não vamos com a sua cara, te mandamos para o exílio, Gulag, cadeia ou paredón. Se o Protógenes privatizou a educação do seu filho pequeno Juan, não temos nada a ver com isso. Continuamos conseguindo assistir Borat sem lavarmos a cara na privada, por mais que os filmes sejam os professores que nos ensinam tudo o que nossos pais não têm tempo de nos dizer. Não há órgãos de censura num sistema liberal, porque a vantagem que é dar liberdade às pessoas (inclusive para criticar o governo) se sustenta. Já a confusão entre Estado e sociedade da planificação centralizadora é opressora, e só se sustenta descendo o chicote no lombo de quem reclama.

O avanço liberal é a tolerância.com os idiotas (as primeiras vítimas do socialismo). Já a centralização do poder estatal só possui tolerância com assassinos, ladrões e outros pilhadores se eles podem destruir a velha ordem (o que Marcuse chamava de “tolerância revolucionária”). Se fosse sair por aí proibindo todos os idiotas que tornariam o mundo melhor sem suas obras, começaria em A de Almodovar e terminaria em Z de Žižek. Mas, ao contrário do modelo protogenesiano de democracia da foice, eu não proibo nada, apenas tento convencer as pessoas de que existem coisas melhores a se ver (espectro que vai de P. J. O’Rourke a Exterminador do Futuro 2).

Despiciendo dizer que, tal como Romênia e Polônia, países que já passaram pelo pesadelo comunista, proibiria de todas as formas que um partido se chamasse “Partido Comunista”, já que não é permitido tampouco um Partido Fascista ou Nazista, totalitarismos horrendos que conseguiram a façanha de matar menos do que o bolchevismo no último século. Ainda mais se esse Partido Comunista reunisse personalidades do porte de Protógenes Queiroz, Aldo Rebelo e Netinho de Paula, tudo no mesmo estado (já sobre a Manoela D’ávila, conversamos em privado).

Contudo, parece ser uma constante na carreira de Protógenes Queiroz esse modelo heterodoxo de liberdade democrática. Protógenes não conseguiu convencer a população de São Paulo de que deveria ser deputado – foi alçado ao cargo embalado nos votos do fenômeno Tiririca, que aparentemente não foi o único palhaço eleito. Mas ainda insiste em falar por um coletivo:

Quem “não aceitamos”, cara pálida? “Não aceitamos” sequer sua nomeação como deputado – Vossa Excelência só entrou lá por uma tramóia do sistema eleitoral. O pequeno Juan quando nasceu foi programado a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos U.S.A., de nove as seis. Desde pequeno come lixo comercial e industrial, mas agora chegou sua vez (ele vai cuspir de volta o lixo em cima de vocês), E como diz o restante da canção:

“Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis”

Ao menos a comédia já está feita, até para quem não foi ao cinema. Porém, resta ainda entender algo não esclarecido nessa patacoada de enlatados culturais americanos no Brasil: sr. Protógenes, por que Vossa Excelência manda tweets via Twitter for iPad?!