Os três poderes já não mais são independentes e harmônicos, mas coniventes e degenerativos

A cena que ilustra essa postagem é uma das mais clássicas da filmografia de Quentin Tarantino, retirada do momento mais tenso de Cães de Aluguel, filme de 1992. Mas pode facilmente ser lida como uma metáfora da crise política vivida pelo Brasil há alguns anos.

O povo está ali no chão, quase esquecido, ensanguentado, levantando uma mão como quem pede socorro. O executivo, sempre interessado em reduzir a força deste mesmo povo, aponta-lhe uma arma, mas cai na mira do judiciário, que por sua vez é retaliado pelo legislativo.

Os poderes já não são mais independentes e harmônicos entre si. São coniventes e degenerativos, ainda que nitidamente a corda arrebente primeiro do lado mais fraco.

Em crises anteriores, havia sempre uma rota de fuga, um caminho a se seguir para encontrar a luz. Agora, nem o tempo parece contar a favor: se correr, o corrupto pega; se ficar, o corrupto come.

Tarantino costuma entregar finais trágicos, ainda que cômicos. Não parece haver para o Brasil um destino diferente. Mas só é possível rir dele estando bem longe daqui.

General do exército assinou no Estadão um artigo assustador sobre intervenção militar

Rômulo Bini Pereira é descrito no Estadão como General de exército e ex-chefe do Estado-Maior do Ministério da Defesa. Neste 15 de dezembro, ele assina no jornal artigo intitulado “Alertar é preciso! (2)“.

A notícia boa é que Pereira tem uma visão muito realista da situação. Eles faz severas e justas críticas aos três poderes. E pergunta se o segundo artigo da Constituição ainda “está em vigor ou é um princípio fundamental inócuo?” Trata-se do artigo que define: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário“.

A ruim é que de fato ele não descarta a possibilidade de as Forças Armadas intervirem nos rumos políticos do país. O Implicante toma a liberdade de reproduzir os dois últimos parágrafos:

É nesse cenário de ‘desgraças’ que as instituições maiores e seus integrantes deverão ter a noção, a consciência e a sensibilidade de que o País poderá ingressar numa situação de ingovernabilidade, que não atenderá mais aos anseios e às expectativas da sociedade, tornando inexequível o regime democrático vigente. O aludido brejo é significativo. É um caso, portanto, a se pensar.

Desse modo, se o clamor popular alcançar relevância, as Forças Armadas poderão ser chamadas a intervir, inclusive em defesa do Estado e das instituições. Elas serão a última trincheira defensiva desta temível e indesejável ‘ida para o brejo’. Não é apologia ou invencionice. Por isso, repito: alertar é preciso.”

O Implicante não quer acreditar que isso seja possível.

O Datafolha parece ajudar Lula, mas finda ajudando Michel Temer

Dilma Rousseff, Michel Temer e Lula

Como já explicando aqui no Implicante, essa pesquisa do Datafolha sobre a corrida presidencial de 2018 não pode ser levada a sério. Mas infelizmente será, pois a imprensa adora estampar nas manchetes que Lula ainda é uma força política viável, mesmo que a favorita siga sendo Marina Silva, alguém cujo raro mérito tem sido o de não ter sido chamuscada pela Lava Jato.

Um ex-presidente pelo PT e uma ex-presidenciável pelo PT, que já se candidatou duas vezes por outros dois partidos e deve tentar na próxima por uma quarta sigla.

Ainda que pouco confiável, o levantamento parece ajudar o lulismo, mas finda ajudando Michel Temer. Porque, com os escândalos recentes, vinha ganhando força a proposta da antecipação das eleições presidenciais. Mas, com o suposto aumento do risco de uma volta do PT ao poder, fatalmente o apoio a esta saída arrefecerá.

É um fôlego a mais para o PMDB.

Mente – até para si mesmo – quem diz saber o que irá acontecer nas eleições de 2018

A crise política brasileira já tem mais de três anos. Começa no inverno de 2013, com o governo Dilma Rousseff cometendo pedaladas fiscais, contabilidade criativa e vendo boa parte da militância de esquerda tomar as ruas para destruir propriedades privadas e públicas. Chega à preparação da Copa do Mundo e desaba no 7 a 1. Com a queda do avião de Eduardo Campos, vem a campanha mais suja que se tem notícia. Na sequência, a Lava Jato dinamita o que poderia haver de segundo mandato para a petista, vem o impeachment, e vem o governo Temer. Que não consegue mostrar muito resultado, e ainda lida com toda uma insatisfação da população com o que restou de corrupção em Brasília – muita coisa!

Agora vem a delação da Odebrecht. E ela vai pegar mais de 200 cabeças. E aí não importa se os cabelos são escuros, claros, ou nem existem. E, pelo aperitivo trazido neste final de semana, não serão denúncias triviais, mas bombas capazes de destruir presidentes e ex-presidentes.

A chance de o Brasil ser presidido em 2019 por alguém que ainda hoje nem sabe que será candidato são enormes. A tendência mundial aponta para “outsiders”, ou aqueles que não possuem vivência política, os únicos capazes de sobreviver ao filtro da insatisfação popular. Mas nem isso é certo.

O voto feminino pode ter um peso ainda maior. Porque há muito mais eleitoras do que eleitores. E elas estão cada vez mais engajadas, cada vez mais interessadas em se sentirem representadas. Se quiserem, impõem sozinhas a escolha. Mas isso, claro, matematicamente. Na prática, responderão a quem melhor dialogar com elas.

De qualquer forma, resta a certeza: o futuro é incerto. Cada vez mais incerto. E mente, até para si mesmo, qualquer um que acredite saber prever o que vem por aí.

República desmoronando: num só dia, bombas que atingem Lula, Dilma, Temer, Gleisi e Alckmin

A delação da Odebrecht está saindo do forno. Enquanto isso, a República treme nas bases. Este 9 de dezembro amanheceu com Geraldo Alckmin recebendo caixa 2 em dinheiro vivo na Folha de S.Paulo. E terminou com Michel Temer recebendo 10 milhões de reais da mesma empreiteira nas páginas da revista Veja.

Trata-se do atual presidente e daquele que vinha sendo considerado favorito para 2018. Mas não são os únicos.

Dilma Rousseff é capa da revista IstoÉ mandando a Odebrecht doar R$ 4 milhões a Gleisi Hoffmann. E Lula foi denunciando uma quarta vez, dessa vez pela operação Zelotes.

Se o Brasil vem vivendo dias complicados pelo menos desde 2013, nada indica que 2017 será um período tranquilo. Muita água ainda há de rolar até a próxima eleição.

Trata-se, contudo, de um remédio amargo que o país precisa engolir. Ou jamais tomará jeito.

Livro explica como Mercadante teria sido primordial para o governo Dilma Rousseff fracassar

Rodrigo de Almeida foi secretário de Imprensa da Presidência da República durante o curto segundo mandato de Dilma Rousseff. E, em “À Sombra do Poder”, entrega detalhes dos bastidores que só agora vêm ao público que pediu o impeachment da petista.

Um ponto importante fala da participação de Michel Temer naquela gestão. Segundo o autor, o vice-presidente de fato tentou reatar a relação de Dilma com o Congresso, fragilizada desde a eleição de Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara. Mas a todo tempo foi sabotado por Aloisio Mercadante.

“O ex-presidente Lula havia tentado pacificar o PMDB no início do segundo mandato. Mercadante dinamitou a estratégia. Dilma ainda fez uma tentativa quando Temer assumiu a coordenação política, em abril de 2015, mas se esqueceu de tirar Mercadante do caminho.”

O mais curioso é perceber que Aloisio Mercadante era ministro da Casa Civil neste período, um dos muitos cargos usando pelo Presidente da República para manter uma relação diplomática com o parlamento.

Cármen defendeu o STF como técnico, mas depois teria negociado uma saída política para Renan

Um dia após os protestos que pediram a cabeça de Renan Calheiros, Marco Aurélio Mello concedeu liminar que afastava do cargo o presidente do Senado. Muitos se apressaram em dizer que a Suprema Corte finalmente escutava as vozes das ruas. Na manhã de 6 de dezembro de 2016, Cármen Lúcia negou a pressão e pronunciou-se nos seguintes termos a respeito da decisão do colega: “O Supremo toma decisões muito impopulares. Para isso que o STF é tão técnico“.

Segundo o jornalista Josias de Souza, na tarde de 6 de dezembro de 2016, em conversa com dois senadores da República, Cármen Lúcia se permitiu as seguintes aspas:

Me ajude a pacificar essa Casa”, rogou Cármen Lúcia em telefonema a uma das pessoas às quais recorreu no Senado. “Se tirar o Renan daquela cadeira, o governo do Michel Temer acaba”, disse a voz do outro lado da linha, segundo relato feito ao blog. “O vice do Renan é do PT, Jorge Viana. Ele não tem compromisso nenhum com a agenda econômica do governo. O PT quer implodir os planos do governo.”

O Implicante pergunta: isso, mesmo ao longe, mesmo a uns 3 mil quilômetros de distância, parece um tribunal técnico? Ou não passa de um tribunal político que vai tomando decisões de acordo com as conveniências?

Político. Claro que político! Como o STF se acostumou a ser. A diferença agora é que o rei está nu. E, ao contrário do que cantava Caetano Veloso, o rei é muito mais feio nu.

Confira nome, rosto, partido e estado de cada senador que ajuda Renan a manter a Presidência

O que Renan Calheiros fez na tarde de hoje é negativamente histórico. O presidente do Senado negou-se a cumprir a decisão do ministro Marco Aurélio Mello, que o afastou do cargo até que o STF decida se ele, na condição de réu, pode continuar na linha sucessória.

Mais do que isso. Segundo o portal Jota.Info, contou com a ajuda de toda a mesa diretora do Senado, exceto Jorge Viana, o que não quer dizer que o petista não o está apoiando.

Quem são os senadores? O próprio site do Senado traz essa lista. Mas o Implicante facilita a vida do leitor – e do eleitor – mais abaixo:

captura-de-tela-2016-12-06-as-14-45-05 captura-de-tela-2016-12-06-as-14-45-00 captura-de-tela-2016-12-06-as-14-44-55 captura-de-tela-2016-12-06-as-14-44-47 captura-de-tela-2016-12-06-as-14-44-41 captura-de-tela-2016-12-06-as-14-44-34 captura-de-tela-2016-12-06-as-14-44-25

“Nome de chuveiro”: Lorenzoni ri por último e vê Renan ser afastado após comentário bizarro

Onyx Lorenzoni foi uma rara exceção a defender os interesses da Lava Jato na Câmara Federal. Como os deputados reagiram? Vaiando o relator do projeto das dez medidas contra a corrupção. Mas postura nada nobre veio também do presidente do Senado, que fez chacota do sobrenome do companheiro de parlamento, dizendo que “parece nome de chuveiro“.

Diz o ditado que ri melhor quem ri por último. E Calheiros não tem muitos motivos para sorrir, uma vez que 48 horas depois foi suspenso da Presidência do Senado por ter se tornado réu. Claro, o caso ainda precisa ser referendado pelo plenário do Supremo. Já permitiu a Onyx Lorenzoni ir à forra em sua conta no Twitter: “Biografias explicam“.

Sim, explicam.

2016, o ano que mudou tudo!

Apesar dos três poderes, o país tem cinco presidentes que, em maior ou menor grau, comandam essa bagunça chamada Brasil. Claro, o maior e mais desejado cargo é o da chefia da República, pois controla sozinho mais de 60% dos tributos recolhidos dentro destas fronteiras. Mas ele precisa a todo tempo negociar com outros poderes, e é aqui que os comandos da Câmara Federal, Senado, STF e TSE fazem diferença.

As mudanças do judiciário já eram esperadas por força do fim dos mandatos de Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, à frente do STF e TSE respectivamente. Mas o “clima das ruas”, além de uma justa pressão, estimulou Cármen Lúcia e Gilmar Mendes a fazer um trabalho mais responsável já nos primeiros meses.

No executivo e no legislativo, contudo, ocorreram os maiores vexames. Dilma Rousseff nomeou Lula para a Casa Civil, Eduardo Cunha tentou dar baile no conselho de ética, Renan Calheiros bancou projetos para inibir a ação de investigações que os atingiam. E os três caíram. A primeira, por impeachment num processo ainda mais legítimo que o responsável pelo afastamento de Fernando Collor em 1992. Os outros dois, afastados pelas linhas tortas do STF, que inventa entrelinhas na Constituição sempre que lhe convém.

O Supremo ainda deve confirmar ou rejeitar o afastamento de Renan Calheiros. Mas, se usar um peso distinto com este, ficará em situação bem complicada com a opinião pública, que via pouca diferença entre o presidente do Senado e Eduardo Cunha, hoje na cadeia.

O brasileiro, que sempre defendeu mudanças, finalmente as teve em 2016. Resta observar se não terá trocado seis por meia dúzia.