Retrato do Brasil: todos os ex-presidentes vivos e também o atual são citados na Lava Jato

Antes de tudo, vale ressalvar que uma pessoa só é considerada culpada após o trânsito em julgado; e a pena de prisão apenas acontece após a segunda instância confirmar a sentença original condenatória. Passada a óbvia observação, vamos à calamidade do fato.

A situação é vergonhosa, para dizer o mínimo.

Nas delações da Operação Lava Jato, aparecem simplesmente TODOS os ex-Presidentes da República ainda vivos e também o mandatário atual.

Enfim, o Sarney foi mencionado e surpreendentemente obteve benefício de foro mesmo sem tê-lo (pois é, ele NÃO TEM foro privilegiado), e há menção a seu “grupo” na nova lista. Fernando Collor é alvo de inquérito e Lula, de pedido de investigação. Os casos de Dilma e FHC desceram para a primeira instância.

Temer, por prerrogativa do cargo, só poderá ser investigado sobre fato pregresso após deixar o Planalto.

Este é nosso país.

Collor: renunciou e perdeu os direitos políticos; Dilma: foi cassada e os manteve

Ao pé da letra, Fernando Collor de Mello não caiu por causa do processo de impeachment, já que renunciou nos minutos finais na intenção de preservar os direitos políticos. Ainda assim, o Senado reuniu-se para decidir se ele os perderia. Graças a isso ficou inelegível por oito anos, mesmo depois tendo sido inocentado no STF.

Dilma Rousseff não renunciou, foi cassada pelo processo. Perdeu o mandato. E a Constituição é bem clara: uma vez cassado o mandato, há a perda dos direitos políticos por oito anos. No entanto, para protegê-la da Lava Jato, os senadores acordaram entre si uma forma de simplesmente ignorar o texto constitucional e permitir que ela assuma cargos públicos.

Em resumo: Collor, que não foi cassado, perdeu os direitos, enquanto Dilma, que foi cassada, os manteve.

Já é possível dizer que a manobra golpista fez do ex-presidente um dos maiores injustiçados da Nova República.

Dilma e seus 4 cavaleiros anti-impeachment

O pessoal contrário ao impeachment de Dilma Rousseff, especialmente nas redes sociais, gosta de citar artistas descolados, figuras carimbadas da militância, colunistas supostamente engajados e que tais. Não raro, usam isso para dizer que não estariam numa causa do mesmo lado de Fulano ou Beltrano.

Ok, ok.

Pois então precisam deixar claro que estão lado-a-lado com essas quatro figuras de nossa gloriosa democracia nacional. Fernando Collor, Renan Calheiros, Paulo Maluf e Edison Lobão.

Collor, todos sabemos, sofreu impeachment em 1992, com a curiosidade histórica de que Lula e o PT estavam entre os mais entusiasmados com isso – hoje, também todos sabemos, são aliados. Ele chegou ao ponto de sair do PTB.

Renan é figura carimbada do poder. Foi assessor do então candidato Collor, ministro de FHC e aliado de primeira e última horas do PT. Hoje, é a principal peça para (tentar) evitar o impeachment. O problema é que o PMDB do Senado já parece conformado à ideia de que a presidente cairá.

Maluf, por sua vez, figura na Comissão Especial do Impeachment em defesa de Dilma. E Lobão, também senador pelo PMDB, faz parte do grupo maranhense pró-Dilma, muito embora José Sarney já tenha também dado sinais de que não ponha muita fé na continuidade deste governo.

São esses, portanto, os quatro principais cavaleiros de Dilma contra seu impeachment.

Collor---Renan---Maluf---Lobao---Impeachment

Mostre isso àquele amigo também anti-impeachment que diz não aderir a um movimento que tenha do mesmo lado esta ou aquela pessoa.

A macumba precisará ser mais forte: Rodrigo Janot quer vender carros luxuosos de Collor

Foto: Wilson Dias/ABr - Agência Brasil

Collor comemorou a volta para casa de dois dos três carros apreendidos pela Polícia Federal, mas a alegria do milionário pode durar pouco. Porque Rodrigo Janot está convencido de que o melhor a fazer é leiloar os carros como forma de reaver o dinheiro que teria sido lavado na compra dos veículos.

Foto: Wilson Dias/ABr - Agência Brasil
Rodrigo Janot | Foto: Wilson Dias/ABr – Agência Brasil

Na semana passada, Lauro Jardim revelou que a PF chegou a encontrar um despacho na Casa da Dinda direcionado a Rodrigo Janot. Os nomes dos orixás citados na macumba estavam num papel timbrado do Senado. Ao que tudo indica, o santo terá que ser um pouco mais forte, ou Collor poderá perder novamente seus valiosos carros.

Do assunto ele entende: “Se instalado, impeachment de Dilma é irreversível”, diz Collor

Esse filme eu já vi”, disse o ex-presidente e hoje senador Fernando Collor a Fernando Rodrigues, do UOL. A crise é vista por ele, que deu nome ao trágico Plano Collor, como “sem precedentes“. Hoje se arrepende de ter apoiado a eleição de Dilma. “Eu errei na minha avaliação. Ela realmente não estava preparada.” Sua aposta é que, se iniciado o processo de impeachment, não haverá como a presidente se safar. De fato, com popularidade tão baixa, dificilmente haveria coragem para se apostar em outra coisa.

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Para mais informações:
Se instalado, impeachment de Dilma é irreversível, diz Collor

Como o impeachment de Collor pode inspirar o de Dilma

Contexto

Naquele 15 de março de 1990, Fernando Collor de Mello se tornou o primeiro presidente brasileiro eleito por voto direto em quase três décadas. Mesmo assim, o termo “impeachment” não findou numa palavra temida pela imprensa. Além de discussões sobre o impedimento de um ou outro político menos relevante, discutia-se bastante a possibilidade de queda de Erundina, prefeita de São Paulo, e Brizola, governador do Rio de Janeiro – eleito um ano depois.

Vasculhando o acervo da Folha de São Paulo, descobre-se que a possibilidade de interrupção do mandato de Collor surge primeiro com uma primeira derrota no STF já em junho de 1990. Após o esmagador 9×0, o ministro Celso de Mello, relator do caso, alerta que a “reedição de medidas rejeitadas” deveria ser entendida como crime de responsabilidade, o que poderia justificar uma abertura de processo.

Mas é só – ou “já”, uma vez que havia se passado apenas 18 meses de governo Collor –  em setembro de 1991 que o assunto ganha força. Exatos dez anos antes da queda do World Trade Center, Jânio de Freitas comenta em coluna que a ideia já seria “audível” em Brasília. E é num debate na Folha de São Paulo que Aloizio Mercadante deixa a entender que o “o impeachment de Collor” estava na mira do PT.

De 29 de setembro de 1991 a 29 de setembro de 1992

Um ano antes de Collor ser derrotado na câmara dos deputados, Mercadante ouve de FHC que a ideia de derrubar o presidente soaria um golpe nas instituições democráticas. Mas o então presidente comete um erro que sairia caro. E, dois dias depois, responde à provocação enraizando o assunto na pauta. Com o debate em curso, a Folha voltaria a citar o termo “impeachment” 32 vezes naquele outubro.

Começa ali um período de 366 dias em que Collor, que tão alto apostara e se dera bem na campanha, passa a colecionar derrotas consecutivas. Em 31 de julho de 1992, afirma que só sai do Planalto morto. Em 14 de agosto, pede para que os brasileiros vistam verde e amarelo apoiando-o. No dia seguinte, os cariocas vão às ruas de preto. No dia 19, o presidente oferece um bilhão de dólares aos congressistas de forma a aliviarem a investigação já em curso. Três dias depois, decide ir à TV pedir para não ser deixado só. Numa última cartada, apela ao STF, mas em 24 de setembro descobre que os votos que decidirão seu destino serão abertos e transmitidos pela TV.

As semelhanças com 2015

Revirar o baú da Folha naquele período é estranhar já ter lido algo parecido no noticiário recente. Além da acusação de “golpe”, surge também, como alternativa ao impeachment – ou ainda como saída mais saudável – a volta do parlamentarismo. A fala de Aloysio Nunes em 4 de outubro de 1991 em muito lembra a sua recente postura sobre o impedimento de Dilma Rousseff. E uma pesquisa aponta Lula, a exemplo de Aécio (candidato derrotado no segundo turno na eleição anterior), à frente na corrida presidencial àquela altura do campeonato. Até a aversão aos militares é lembrada em algumas manchetes. Mas a primeira voz jurídica a favor do processo não é Ives Gandra, e, sim, Celso Bandeira de Mello.

E as diferenças

Contudo, chama muito mais atenção as diferenças do que ocorreu no período. A começar pela postura da própria Folha de São Paulo. Se hoje é tão cautelosa ao encarar a pauta, já dedicava um editorial ao tema em 08 de outubro de 1991. O mesmo serve para outras entidades e intelectuais que hoje fecham a cara para este debate.

A OAB o discute no mesmo outubro de 1991. A CUT se organiza em novembro, o mesmo mês em que Lula, principal nome da oposição, deixa bem claro o posicionamento a favor. A CNBB exige punição aos culpados, enquanto a classe artística, inspirada na postura de Jô Soares, convoca os próprios protestos em agosto de 1992.

Nomes que hoje compõem a tropa ministerial de Dilma logo cedo se posicionaram. O atual ministro da educação, por exemplo, deixou bem claro sua intenção ainda em outubro de 1991. Em junho de 1992, a maioria dos parlamentares parece estar em cima do muro. Mas a Folha dá como possível a vitória no final de agosto.

Políticos se convenciam aos poucos

Logo cedo, no PMDB, Requião e Quércia ecoam a postura do PT. O jogo até começa a mudar após a capa da Veja com Pedro Collor. Mas os principais líderes só começam a descer do muro depois que Renan Calheiros se volta contra o conterrâneo na CPI.  Um mês depois, a oposição já estaria projetando o que seria um governo Itamar. Brizola, temeroso de um impeachment no Rio, só cede à ideia em 21 de agosto, depois de Sarney e antes de FHC. A gota d’água é o abandono do PFL, até então um ferrenho defensor do mandato em curso.

Mas e o povo?

Já se discutia o impeachment de Collor há quase 10 meses quando a oposição se tocou que não tinha o devido apoio popular. Em 26 de maio de 1992, apenas 43% dos brasileiros defendem o impedimento do presidente. Em julho, 53% dos eleitores se dizem a favor, assim como 62% dos parlamentares. Só em 06 de agosto, PMDB, PSDB e PT decidem convocar protestos e trabalhar uma maior adesão nas ruas.

A tática surte efeito. Ao final do mês, 70% dos cidadãos concordam com a queda do Presidente. Quando ela de fato vem, oito em cada 10 brasileiros a aprovam.

E os protestos?

Ao contrário do que se acredita, não foi o povo quem exigiu atitudes de seus representantes. Foram as entidades políticas que buscaram referendar junto à opinião pública a vontade interna de mudar o comando do país. Tanto que os primeiros protestos ocorrem tarde e sem qualquer encanto. Já era julho de 1992 quando 400 pessoas tomam a iniciativa de ir às ruas reclamar as denúncias de Pedro Collor e Renan Calheiros. Na primeira semana de agosto, o PT se esforça, mas só consegue reunir 10 mil militantes nas quatro principais capitais do país.

A coisa começa a mudar quando Collor, em 14 de agosto, convoca o exército verde e amarelo. No dia 15, já são 10 mil marchando de preto no Rio de Janeiro. Em 16 de agosto, por volta de 50 mil se mobilizam em alguns grandes centros.

A grande data, no entanto, ao contrário do que hoje se noticia, é 25 de agosto de 1992. É quando meio milhão de brasileiros protesta em 31 cidades pela queda do presidente da república. Depois deste dia, Collor perde quase todo o apoio que ainda restava.

Queda de Collor vira questão de tempo

Após um hiato entre janeiro e abril de 1992, o assunto impeachment voltou com tudo no que Pedro Collor surge na capa da Veja. Dois meses depois, parlamentares diziam ter as provas necessárias para incriminar o presidente. O povo só entra na equação em agosto, referendando todos os esforços da CPI em curso.

Com 930 dias de mandato, o primeiro presidente eleito com voto direto em 29 anos sofre, na câmara dos deputados, uma derrota incontestável. Eram esperados 396 votos, mas o placar fecha em 441 a 33 para a felicidade de meio milhão de brasileiros que foram às ruas acompanhar a votação. No dia seguinte, a bolsa de valores reage positivamente. O vice presidente assume interinamente até dezembro daquele mesmo ano, quando Collor renuncia e o senado cassa-lhe o mandato e os direitos políticos por 8 anos.

Inspiração

No restante daquele mandato, o Brasil retomaria o crescimento, recriaria os empregos perdidos, renegociaria a dívida externa e dominaria a até então incontrolável hiperinflação. Mas tudo isso só foi possível porque a nação como um todo tomou uma decisão de coragem, que era a de tirar do comando um corrupto que apenas servia para desencorajar qualquer aproximação de pessoas bem intencionadas.

No 30 de setembro de 1992, a Folha de São Paulo não teve medo de chamar aquela de “vitória da democracia”. No que estava corretíssima. Falta hoje em dia, no entanto, a mesma coragem que sobrou décadas atrás não só à imprensa, mas a toda a massa formadora de opinião. Isso precisa ser mudado. E o próximo 16 de agosto pode ser crucial, a exemplo do ocorrido há 23 anos.

1992-09-30 - Vitória da democracia

 

 

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Marlos Ápyus escreve no Implicante às terças. Siga-o no Twitter.
Texto originalmente publicado no Ápyus.Com

PF apreende carrões de Collor – apenas um deles vale 3 milhões de reais

Ferrari de Collor apreendida na "Casa da Dinda" - foto de Rodrigo Rangel (Veja)
Ferrari de Collor apreendida na “Casa da Dinda” – foto de Rodrigo Rangel (Veja)

Falamos aqui da operação de busca em residências do senador Fernando Collor, aliado do governo Dilma Rousseff. Pois tem mais: apreenderam veículos de luxo, entre eles uma Ferrari, uma Lamborghini e um Porsche. A informação é de Rodrigo Rangel e Laryssa Borges, da Veja. Segue trecho da reportagem, voltamos em seguida:

“A notória Casa da Dinda, mansão com torneiras de ouro reformada com dinheiro de contas fantasmas movimentadas pelo tesoureiro Paulo César Farias, voltou ao cenário político nesta terça-feira na Operação Politéia, da Polícia Federal. Residência oficial do senador Fernando Collor (PTB-AL) na época em que ele era presidente da República, a casa abrigava uma valiosa coleção de carros de luxo. Na manhã desta terça-feira, porém, os automóveis do senador, entre eles um Porsche, uma Ferrari vermelha e uma Lamborghini foram levados pelos policiais. Apenas a Lamborghini é avaliada em 3 milhões de reais.” (grifo nosso)

Collor é um dos mais ferrenhos aliados do governo petista, e isso desde a gestão Lula. O cerco, definitivamente, vai se fechando. Ainda bem.

PF faz buscas em residências de Collor

Foto: Senado

Fernando Collor e Dilma Rousseff

O furo jornalístico é de Natuza Neri, Gabriel Mascarenhas, Andréia Sadi, Márcio Falcão e Aguirre Talento, da Folha de São Paulo. Seguem trechos da reportagem, voltamos em seguida:

“O senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), ex-ministros do primeiro governo Dilma Rousseff e políticos do PP foram alvos de nova fase da Operação Lava Jato, deflagrada nesta terça-feira (14). A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis ligados a eles, como nas residências de Collor em Brasília e em Alagoas. Os policiais também foram à TV Gazeta,afiliada da TV Globo no Estado nordestino, que pertence à família de Collor; ele é um dos principais acionistas. Os outros envolvidos foram os senadores Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional da sigla, os ex-ministros Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE, senador) e Mário Negromonte (ex-PP-BA, hoje conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia) e o deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE).” (grifos nossos)

O cerco está se fechando. Nossa torcida é que o próximo a ser posto no engradado seja o Brahma.

Memória Implicante: Petrolão, Collor, BR Distribuidora? Serra avisou em 2010…

dilma e collor

“Recodar é viver”, dizem. E o “Memória Implicante” está aqui para não deixar que alguns fatos sejam esquecidos, como o alerta de José Serra, de 2010, sobre a situação da Petrobras e da BR Distribuidora; esta última estando ligada a Fernando Collor. Isso foi dito em debate presidencial e negado pelo governo.

O tempo passou e, como sempre, os fatos teimam em aparecer. Diante das delações premiadas e todo o conjunto atual de denúncias, parece que o senador eleito por SP estava correto. Vejam só:

E agora? O governo petista vai negar como?

Dilma defende alianças com Collor e Sarney

Do Estadão:

dilmacollor

Dilma Rousseff defendeu as alianças de seu governo com José Sarney, Fernando Collor e Renan Calheiros, além de Paulo Maluf (PP-SP). Em uma sabatina do jornal O Globo, ela foi questionada se tinha orgulho das alianças que possui e se elas eram coerentes com sua história e a do PT. A presidente-candidata classificou a pergunta de “enviesada” e, depois de defender José Sarney, respondeu de maneira evasiva em relação aos demais: “As pessoas podem fazer aliança e manter sua posição. Não é possível querer que o presidente da República casse e tire direitos políticos das pessoas. Respeito o ex-presidente Sarney. Respeito bastante. Acho que ele deu uma contribuição para o país”. Sobre Collor, que integra a base de apoio do governo no Congresso, ela se esquivou: “Collor não é uma pessoa absolutamente próxima do governo. ele tem sua posição lá em Alagoas, e eu respeito”.