Gilmar Mendes apresenta queixa-crime contra José de Abreu

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Matéria do portal G1:

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes entrou com uma queixa-crime na qual pede que o ator José de Abreu seja punido pelos crimes de injúria e difamação.

No microblog Twitter, o ator afirmou que o ministro do STF contratou um “araponga” que tem relações com o bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Após saber do processo, José de Abreu afirmou que seu advogado estuda o processo e que é alvo de “perseguição”.

Pelo Código Penal, o crime de difamação tem pena prevista de três meses a um ano e multa. Para o crime de injúria, a pena é de um a seis meses de prisão e multa.

No pedido, protocolado no fim de fevereiro no Juizado Especial Criminal do Rio de Janeiro e que tem 14 páginas, o ministro pede ainda que a punição seja agravada em razão de a suposta injúria ter sido divulgada na internet e ter provocado, segundo ele, “diversos prejuízos morais (dignidade) e sociais (decoro)”.

Em seu Twitter, Abreu comentou nesta quarta-feira (17) o processo. “Um tweet com 140 toques resultou num inquérito que, até agora, já com a inicial, ja tem 601 páginas. […] Ainda não conversei com o advogado, está estudando a inicial que tem 601 páginas”, afirmou.

É a segunda vez que Gilmar Mendes e José de Abreu entram em conflito por conta de uma declaração no Twitter. Da primeira vez, o ator citou que o ministro era “corrupto”. Segundo a nova ação protocolada, daquela vez José de Abreu pediu desculpas.

Antes da sessão desta quarta, Gilmar Mendes comentou o tema e afirmou que o ator se vale do fato de ser uma personalidade pública. “Tenho a impressão que há muito tempo ele é utilizado como uma caixa de ressonância no Twitter, faz brincadeira e se valendo do valor que se dá para personalidade pública.”

Para o ministro, o ator pediu desculpa da primeira vez com argumentos que mostram “irresponsabilidade” ou “inconsciência”

“Há algum tempo ele fez uma afirmação nessa linha de exagero, entrei com uma interpelação e achou por bem dizer que não era nada disso, que ele nem sabia o que significava o termo corrupto, o que chega a ser engraçado e mostra o grau de irresponsabilidade ou até do grau de inconsciência que às vezes ele é acometido. Agora, recentemente, ele voltou à tona depois de ter se humilhado naquela outra ação para dizer que eu tinha contratado o Dadá, que ele foi condenado e por que que eu não tivera sido. Na verdade, nunca houve isso.”

‘Araponga
O suposto “araponga” mencionado por José de Abreu é o ex-sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, conhecido como Dadá, que foi preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo e apontado como espião particular de Cachoeira.

No Twitter, o ator escreveu no dia 10 de dezembro do ano passado: “E o Gilmar Mendes que contratou o Dadá? 19 anos de cadeia pro contratado. E pro contratante? Domínio do fato.”

Dadá tinha acabado de ser condenado pela Justiça Fedral de Goiás pelos crimes de formação de quadrilha e violação de sigilo funcional.

A queixa-crime argumenta que ao fazer a ligação entre Gilmar Mendes e Dadá, o ator demonstra “claramente a intenção do querelado em denegrir a sua honra objetiva e subjetiva”.

“É importante enfatizar que o querelante [ministro] nunca teve qualquer contato com o condenado Idalberto Martins de Araújo [Dadá], seja pessoal, institucional ou profissional, o que comprova a ausência de qualquer contrato pactuado e demonstra a intenção deliberada em ofender a imagem e reputação do ofendido.”

(grifos nossos)

Comentário

Para ajudar a evitar que novos atores globais façam confusão e sejam processados, vocês podem relembrar aqui quem de fato contratou o ‘araponga’ Dadá.

O novo furo (furado) da Carta Capital

por Flavio Morgenstern

“Amicus Plato, sed magis amica verita.”
(Amigo de Platão, mas ainda mais amigo da verdade.)
– Aristóteles, Ética a Nicômaco

A reportagem de capa da Veja dessa semana mostra que o PT distribuiu um “manual” para companheiros na CPI. É algo completamente legal, só um pouco vexatório, ainda mais para o partido que antes se arrolava o dono da ética – hoje já prefere advogar-se dono do país.

O braço midiático do PT não gostou de passar vergonha. Cynara Menezes, da Carta Capital, foi avisada por um seguidor no Twitter de que o “manual” continha material que estava no blog Brasil 247, aquele mistifório criado por Daniel Dantas para detonar seus adversários – e que acaba servindo bastante para municiar o PT. Sua conclusão veio antes de um raciocínio escorreito e passou reto por conseqüências que foi incapaz de calcular: para ela, seria uma prova “por A + B” de que “o jornalismo da Veja é ruim” e de que o documento é “suposto”, não sendo um “documento” sem aspas por ser “um amontoado de recortes de reportagens de jornais, revistas e sites brasileiros”.

Se tal fosse verdade, seria fácil processar Veja por forjar um documento oficial. O documento que a revista mostra vem com o brasão da República. Seu uso é obrigatório nos papéis de expediente, nos convites e nas publicações oficiais de nível federal, de acordo com a lei 5.700/71. Não é um papel que você pega em branco com o símbolo em qualquer xerox e escreve o que quiser embaixo. Tampouco pode-se usar o símbolo em qualquer informe comunicativo só pra ficar mais supimpa: apenas entidades governamentais federais podem fazer uso do brasão. Nem mesmo paraestatais, como Banco do Brasil ou Petrobrás podem utilizar o símbolo. Há inclusive decisão no sentido de coibir entidade de despachantes que utilizava o brasão da República em seus documentos sob pena de multa diária de 10 mil reais.

Não é o tipo de informação que Cynara pesquisou antes de afirmar, de estro próprio e inconseqüentemente, que era um papel “que utilizou selo da república na hora de xerocar. simplérrimo.” – idéia difícil de sustentar em uma realidade regida pela Constituição Federal e pelas Leis de Newton.

Em outras palavras, se a reportagem de Cynara Menezes tivesse algum pingo de veracidade, seria nitroglicerina prestes a explodir. Poderia ser o maior escândalo midiático do hemisfério. Não seria um erro como “fingir que um site financiado pelo PT é propaganda do próprio PT”. Seria um crime federal seríssimo capaz de fechar as portas da terceira revista mais lucrativa do planeta. Mas, para tristeza de Cynara, não é isso que ela tem em mãos.

O Ctrl C + Ctrl V da Carta Capital

Quando recebeu a “notícia” pelo Twitter (é este o modus operandi do “jornalismo investigativo” cartacapitalista), Cynara não pensou nem pesquisou o assunto. Apenas escreveu um texto afirmando que a concorrente “parece ter perdido toda a noção de ridículo”, emendando que os trechos que a revista publica “são na realidade pedaços copiados e colados diretamente (o manjado recurso Ctrl C+ Ctrl V dos computadores) de reportagens de terceiros, sem mudar nem uma vírgula”. Ora, estranho seria se mudasse – aí então seria uma prova falsa. A blogosfera progressista iniciou uma hashtag entre as pessoas que querem verbas públicas para seus blogs e censura estatal na imprensa, afirmando que Veja divulgava informações antigas e consabidas – como o Manifesto Comunista ou o Decálogo Bíblico.

Mas não passou pela cabeça de nossa heroína que, afinal, um documento oficial que trambicou entre petistas de alto gabarito pode, muito bem, ter sido feito originalmente com material de sites – isto é, quem copiou os tais blogs foi o próprio PT, e Veja apenas teve acesso ao documento que os petistas montaram (por que isso não aventou nem como hipótese pela caçuleta de nossa protagonista?). Ademais, se é para usar informações falsas, mas com aparência de complicadoras para chantagear membros da oposição, quem com um QI maior do que 68 iria pensar em escavucar outro lugar, que não os blogs dos amigos do presidente Lula e da companheirada muy amiga da Carta Capital? Talvez tenha até rolado um ciuminho por nenhuma reportagem da própria Carta Capital ser arrolada no documento. O caso, então, é que simplesmente descobriu-se (ou alguém soprou a resposta) qual a origem do documento apresentado por Veja, jogando ao vento uma afirmação genérica e mentirosa de que a Veja apresentou um “suposto ‘documento'”.

Quatro dos cinco parágrafos do texto de Cynara são “provas” da verdadeira origem oculta, misteriosa, obscura, arcana e danbrowniana do documento. Todos eles citações de sites terminados com “CLIQUE AQUI”. Uma forma bem curiosa de “jornalismo” pra quem reclama dos concorrentes fazerem tudo na base do Ctrl C + Ctrl V… para piorar a sua bricolagem, coloca links sem aviso para conteúdo restrito. É uma forma fácil de diferenciar um jornalista de um blogueiro que, por acaso, escreve para uma revista.

Todavia, o busílis deixou a tese cartacapitalista numa estúpida sinuca de bico. A partir deste momento, temos duas hipóteses mutuamente excludentes à vista.

Primeira hipótese: o “documento” é falso e o jornalismo da Veja é ruim: o que, na prática, significa afirmar que Veja forjou um documento que não existia. Na verdade, a revista da Abril estaria tentando manchar a imagem ilibada de petistas, pois seu jornalismo “copiou sites” como o Brasil 247 (que acusou a revista de… “plágio”). Segundo essa hipótese doidivanas, Cynara acabou de descobrir o maior trambique jornalístico do Brasil e um dos maiores do mundo. Resta apenas processar a revista e se tornar um ícone mundial, o que Cynara não parece ter muita coragem de fazer – fora auferir um lucrinho mocorongo diante de seus pares fanáticos – porque há certos paradoxos a serem desatados.

Segunda hipótese: o documento é verdadeiro, porém não é um documento, só para se poder falar mal da Veja: por essa hipótese, a reportagem de Cynara deu um belo tiro no pé (exatamente como a reportagem de capa de Veja demonstra, diga-se). O documento que circulou entre petistas é que foi copiado de blogs e sites, portanto deve-se reclamar com a falta de criatividade do PT, e parabenizar VEJA pelo jornalismo correto e que “não muda uma vírgula” do que vê (na verdade, é uma foto de um documento, e não uma transliteração).

Há ainda uma complicação, que aparentemente Cynara não percebeu ao tecer suas algaravias: ao descobrir a fonte do documento (que é incapaz de provar que inexiste, a não ser colocando aspas entre a palavra, como uma criança fechando os olhos para fazer sumir o que vê diante de si), acabou provando… a existência do documento (então, qual o motivo da choradeira com o semanário da Abril?). Tudo o que conseguiu fazer foi impugnar o conteúdo, que pode ter sido copiado de qualquer lugar. Já o meio Cynara não desdiz. Na prática, ficou pior a emenda: além de confirmar que o PT fez o que a Veja afirma, ela ainda por cima revela que eles plagiaram o comunicado todo. Ao tentar acusar a Veja (ao invés de acusar o montador do documento) de Ctrl C + Ctrl V, não percebe que seu “jornalismo investigativo” se prova apenas um Ctrl F. Mas vá explicar isso pra quem quer acreditar em estatismo a qualquer custo…

É bem provável que Cynara não tenha calculado todas essas conseqüências de sua, digamos, “reportagem” – muito menos o quanto demonstrou estar muito além das raias do ridículo. Assim, foi baixando a bola no decorrer do dia, trocando uma tentativa de vender a primeira hipótese por um remendo na segunda. Surgiu uma idéia band-aid de emergência: não era bem um documento (mesmo com brasão da República), era um… clipping (sic). Há de se admitir que não foi a pior desculpa do dia, já que o senador Cristovam Buarque, após divulgar site erótico pelo Twitter por engano, afirmou: “Devo ter digitado algum número errado. Vou consertar agora mesmo”… medalha de prata para Cynara.

É uma sensação de déjà vu. O “não era documento, era clipping” é um novo “não era dossiê, era banco de dados”. Ou “não era caixa 2, era dinheiro não contabilizado”. Que tal afirmar que a entrevista de Haddad e Lula no Ratinho não era propaganda antecipada. Era “horário eleitoral não contabilizado”?!

É claro que seus leitores, que defenderão até a mentira mais deslavada da Carta Capital para proteger petistas, compraram os farrapos de desculpa. Mesmo que, neste meio tempo, tenha-se complicado ainda mais a sustentação de alguma tese de “jornalismo ruim” ou, segurando a risada, “clipping” com brasão da República (talvez o primeiro da história mundial).  O site da Veja publicou contradições cynarísticas do líder do PT, Jilmar Tatto, tentando dar para trás e fingir que não houve confecção do manual, com fatos e fotos. Isso é jornalismo investigativo que vai além de um Ctrl F. E que busca entender conseqüências ao invés de cair em contradições estapafúrdias.

A solução foi tentar, por contraste, aumentar o poder de fogo da informação inicial, fingindo que o documento que Veja publicou era apresentado como um “documento secreto” ou então até mesmo um “dossiê” (duas expressões inexistentes na reportagem de Veja).

O que era de se esperar? É assim que a Carta Capital inventa “verdades” e “jornalismo bom”.

Segundo um galfarro seu tentou remendar, o problema então não seria Veja ter mentido ou mesmo que o PT tenha usado os velhos sites que adora financiar via propaganda estatal para produzir documentos (o que até tem a sua lógica), e sim que “qualquer mané pode fazer um clipping, basta pegar uma pasta e encher de recortes de jornal, de notícias que todos conhecem”, jogando no ataque: “tenta processar alguém, apresenta um clipping como prova e diz pro juiz que é documento, aí você quebra a cara volta aqui” (sic). Curioso que não se pede para Cynara provar a falsidade do documento com o brasão da República. E nem se pergunta o que diabos é esse “clipping” com uma das logomarcas federais.

Um fenômeno realmente curioso: a reportagem de Veja apenas afirma que o PT distribuiu um documento que serve como guia para seus cupinchas se comportarem durante a CPI. O foco era cobrir Gilmar Mendes de porrada, e Veja apresenta as acusações que o documento pretende levantar. Algumas delas ainda não caíram na mídia. Se Veja realmente quisesse “forjar” algo, seria muito estranho tornar públicas acusações contra Mendes que o público ainda não conhecia. Tampouco Veja afirmou que o PT fez algo ilegal, ou mesmo imoral: apenas mostrou que a estratégia foi contraproducente. A petistada não precisava se ofender tanto. Acabou agindo como um certo Luis Nassif, que ultrapassou as barreiras poéticas da linguagem ao dar pra trás em sua campanha de difamação à Veja.

As garatujas cartacapitalistas, tentando mostrar que Veja errou no diagnóstico, não apenas confirmaram as verdades do semanário abriliano, como também deram outro tiro no pé na tentativa desesperada de achar alguma virtude no PT e na sua tentativa de ameaçar seus desafetos para encobrir seus próprios crimes.

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Sempre que faz um clipping, coloca um brasão da República no alto só pra aumentar o valor de mercado. No Twitter, @flaviomorgen

Celso de Mello: Se Lula ainda fosse presidente, seria caso de impeachment

por Flavio Morgenstern

Está ficando difícil acompanhar todas as críticas que os ministros do STF fazem à “pressão” de Lula sobre Gilmar Mendes. É cabível: até mesmo aquela que é considerada sua arqui-inimiga no Brasil, a revista Veja, não cansou de separar Lula dos outros caudillos da América Latina e suas manias de concentrarem poderes em suas mãos.

Por maiores que fossem as críticas da revista e de toda a imprensa, a manuntenção da democracia ao menos era elogiada, mesmo com suas diatribes de sempre – como as ganas eternas de censurar a imprensa. O mesmo era válido na direção oposta: até num período em que os velhos esquerdistas remanescentes do antigo Pasquim resolveram recriar o jornal em fins de mandato de FHC (com direito a elogios sebosos a José Alencar na primeira página), a pauta era a mesma: criticar o governo tucano por mundos e fundos, mas afirmar que os pilares democráticos se estabeleceram e foram defendidos em seu governo. Até Fausto Wolff afirmava isso.

É exatamente o problema com o mensalão: antes mesmo de se falar no dinheiro público correndo pelo Valerioduto (uma mixaria de R$35 mil por mês por cabeça, bem menos do que eles já levam legalmente de nosso Estado inchado), há de se entender que é o Executivo comprando o Legislativo. Uma afronta à democracia. Só o Judiciário tinha se mantido incólume até agora.

Até agora.

Entre as grandes e esponjosas definições de democracia (vide Robert Dahl, em Sobre a democracia), um dos pressupostos que as democracias modernas deixaram claro, mas que desde a Grécia é instrumentalmente obrigatório, é a independência de poderes. Cada um é definido em separado do outro. É claro que o Judiciário é o mais “dependente”, e já avisamos aqui no Implicante™ o risco enorme que o STF corre nas próximas eleições presidenciais de se tornar um parquinho pouco disfarçado de um partido (em questão de uma nova eleição, dos 11 ministros do STF, 10 serão indicados pelo PT).

Claro que não é um dogma impassível de exceções. A Inglaterra possui muito mais interferência entre poderes do que o Brasil e é uma democracia absurdamente mais consolidada. Existem medidas provisórias, emendas e diversos outros mecanismos para o Executivo legislar (que deveriam ser mais contidas, óbvio). Mas, pela primeira vez, o PT ataca frontalmente o Judiciário, de maneira, abusando do eufemismo, pouco republicana.

É o que mostra a revista eletrônica Consultor Jurídico, com alguns melhores momentos destacados:

“Se ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro”. A frase é do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, em reação à informação de que o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem feito pressão sobre ministros do tribunal para que o processo do mensalão não seja julgado antes das eleições municipais de 2012. “É um episódio anômalo na história do STF”, disse o ministro.

Os dois mais antigos ministros do Supremo — além de Celso de Mello, o ministro Marco Aurélio — reagiram com indignação à reportagem. Os dois ministros classificaram o episódio como “espantoso”, “inimaginável” e “inqualificável”.

(…)

O ministro Marco Aurélio afirmou que pressão sobre um ministro do Supremo é “algo impensável”. (…) “Não concebo uma tentativa de cooptação de um ministro. Mesmo que não se tenha tratado do mérito do processo, mas apenas do adiamento, para não se realizar o julgamento no semestre das eleições. Ainda assim, é algo inimaginável. Quem tem de decidir o melhor momento para julgar o processo, e decidirá, é o próprio Supremo”.

(…)

O encontro foi patrocinado por Jobim. Lula começou por oferecer “proteção” a Gilmar Mendes, no âmbito da CPI do Cachoeira, uma vez que ele teria a comissão sob seu comando. Gilmar reagiu negativamente e Jobim tentou consertar: “O que o presidente quis dizer é que o Protógenes pode querer convocá-lo”. Ao que Gilmar teria retrucado que, nesse caso, quem precisa de proteção é ele, pelas suas ligações com o esquema de Cachoeira. Ao repetir que suas ligações com o senador Demóstenes nunca passaram dos limites institucionais, Lula teria perguntado sobre a viagem de Gilmar e Demóstenes a Berlim. “Vou a Berlim como você vai a São Bernardo do Campo. Minha filha mora lá. Vá fundo na CPI”. Mendes confirma o encontro com Demóstenes na Alemanha, mas garante que pagou as despesas da viagem de seu bolso. Sem favor de ninguém.

O ministro Celso de Mello lamentou a investida. “Tentar interferir dessa maneira em um julgamento do STF é inaceitável e indecoroso. Rompe todos os limites da ética. Seria assim para qualquer cidadão, mas mais grave quando se trata da figura de um presidente da República. Ele mostrou desconhecer a posição de absoluta independência dos ministros do STF no desempenho de suas funções”, disse o decano do Supremo.

Para Marco Aurélio, qualquer tipo de pressão ilegítima sobre o STF é intolerável: “Julgaremos na época em que o processo estiver aparelhado para tanto. A circunstância de termos um semestre de eleições não interfere no julgamento. Para mim, sempre disse, esse é um processo como qualquer outro”. Marco também disse acreditar que nenhum partido tenha influência sobre a pauta do Supremo. “Imaginemos o contrário. Se não se tratasse de membros do PT. Outro partido teria esse acesso, de buscar com sucesso o adiamento? A resposta é negativa”, afirmou.

De acordo com o ministro, as referências do ex-presidente sobre a tentativa de influenciar outros ministros por via indireta são quase ingênuas. “São suposições de um leigo achar que um integrante do Supremo Tribunal Federal esteja sujeito a esse tipo de sugestão”, disse.

(…)

O ministro Celso de Mello também disse que a resposta de Gilmar Mendes “foi corretíssima e mostra a firmeza com que os ministros do STF irão examinar a denúncia na Ação Penal que a Procuradoria-Geral da República formulou contra os réus”. Para o decano do STF, “é grave e inacreditável que um ex-presidente da República tenha incidido nesse comportamento”.

De acordo com o decano, o episódio é grave e inqualificável sob todos os aspectos: “Um gesto de desrespeito por todo o STF. Sem falar no caráter indecoroso é um comportamento que jamais poderia ser adotado por quem exerceu o mais alto cargo da República. Surpreendente essa tentativa espúria de interferir em assunto que não permite essa abordagem. Não se pode contemporizar com o desconhecimento do sistema constitucional do país nem com o desconhecimento dos limites éticos e jurídicos”.

Celso de Mello tem a convicção de que o julgamento do mensalão observará todos os parâmetros que a ordem jurídica impõe a qualquer órgão do Judiciário. “Por isso mesmo se mostra absolutamente inaceitável esse ensaio de intervenção sem qualquer legitimidade ética ou jurídica praticado pelo ex-presidente da República. (…) Confirmado esse diálogo entre Lula e Gilmar, o comportamento do ex-presidente mostrou-se moralmente censurável. Um gesto de atrevimento, mas que não irá afetar de forma alguma a isenção, a imparcialidade e a independência de cada um dos ministros do STF”.

Celso de Mello concluiu: “Um episódio negativo e espantoso em todos os aspectos. Mas que servirá para dar relevo à correção com que o STF aplica os princípios constitucionais contra qualquer réu, sem importar-se com a sua origem social e que o tribunal exerce sua jurisdição com absoluta isenção e plena independência”.

(grifos nossos)

O que Lula, os petistas, Nelson Jobim, a Carta Capital, o jornalismo da Igreja Universal e a blogosfera progressista podem responder a isso? Apenas dar uma de Cachoeira e ficarem caladinhos. Uma atitude curiosa: Gilmar Mendes e Veja, quando estão sendo achincalhados por denúncias doidivanas, tascam fogo: “Vá fundo na CPI”. Eles mesmos cuidam de falar de seus encontros ou publicarem as próprias conversas que seus repórteres tiveram com o contraventor como fonte. Por que o medinho do outro lado?

Além de Marco Aurélio Mello afirmar em entrevista ao SBT publicada pelo blog do Josias que ‘o Supremo não é sindicato’, o ministro também falou à Folha:

FOLHA – Como o sr. avalia esse encontro do ministro Gilmar Mendes com o ex-presidente Lula e o pedido de adiar o julgamento?

MARCO AURÉLIO MELLO – Está tudo errado. É o tipo de acontecimento que não se coaduna com a liturgia do Supremo Tribunal Federal, nem de um ex-presidente da República ou de um ex-presidente do tribunal, caso o Nelson Jobim tenha de fato participado disso.

Interfere no funcionamento da Corte?

Precisamos compreender uma coisa: ministro do Supremo não é cooptável. No dia em que for, teremos que fechar o Brasil para balanço.

O sr. acha que o mensalão pode ser, de fato, adiado por pressões políticas?

Se eu fosse advogado de algum acusado estaria muito chateado com a situação. Pois parece um gol contra. Mas como julgador, continuo no mesmo patamar de isenção. (…) Se tem gente que pensa que, diante de um ministro do Supremo, que é o órgão máximo do Judiciário, é capaz de interferir, interceder, influenciar, imagina o que deve acontecer com um juiz de primeira instância.

Na sua avaliação, esse episódio de fato aconteceu?

Não posso presumir que o ministro Gilmar Mendes tenha criado esse episódio. O presidente Lula tem uma forma de tocar as coisas concernente ao mundo privado, que funciona em sindicatos, onde ele cresceu. Agora, no campo público é diferente.

Problema para Dias Toffoli, último ministro indicado por Lula (por que será?) que já foi advogado de campanha do próprio Lula e cuja namorada, Roberta Rangel, defende justamente alguns réus do mensalão. Tudo em família. Será que ele está chateado ou continua “estudando” se vai julgar o mensalão ou se vai, ele próprio, se declarar incapacitado?

Dessa vez, para abandonar a fama de Oposicinha, eis que o PSDB resolveu partir para o ataque, como só a Kátia Abreu parece ter tido coragem de fazer na CPMI do Cachoeira. Diz também a Folha:

O líder do partido na Câmara dos Deputados, Bruno Araújo (PE), disse estar estarrecido com a notícia.

“Não é admissível que qualquer autoridade, especialmente um ex-presidente, tenha em seu poder informações fundamentais para as investigações e que, ao contrário de partilhá-las, faça uso político das mesmas”, afirma o deputado.

 A revista também diz que Lula contou a Mendes que delegaria ao ex-ministro do STF e presidente da Comissão de Ética da Presidência Sepúlveda Pertence a tarefa de falar sobre o julgamento com a ministra Cármen Lúcia.

Sepúlveda negou ontem que Lula tenha feito o pedido e disse lamentar que Mendes tenha dado “declaração sobre conversas, reais ou não, que tenha tido com um ex-presidente da República”.

É montypythoniano ver um presidente da Comissão de Ética da Presidência “lamentando” que um ministro fale sobre conversas em que foi achincalhado. Pior ainda: que um ex-presidente da República que poderia dar provas de que Gilmar está mentindo só consiga mesmo é se calar e torcer para seu carisma lhe salvar o couro mais uma vez. A tal “mídia golpista”, PiG ou que quer que seja não cansou de afirmar que Lula tem pouco apreço pela república. Aguardamos uma contra-prova.

Também esperamos os contorcionismos de Nassif, Paulo Henrique Amorim et caterva para explicar o inexplicável. A Cynara, aquela da Carta Capital que jura que “Cachoeira deu apelidos carinhosos para Policarpo Jr.” usando com “prova” um áudio em que ele não sabia de quem falavam quando simplesmente abreviavam o nome do repórter, preferiu apenas dizer que não acredita em Veja e Gilmar Mendes. A semana promete muitas risadas neste reino do lulocentrismo.

Post Scriptum: Reclamaram muito de Veja não ter dado capa para Cachoeira, sendo que havia chamada de capa por 9 edições seguidas para o escândalo e 3 reportagens de capa sobre o esquema – incluindo uma que saiu exatamente quando Carta Capital reclamou disso. Dessa vez, teve a acusação mais grave a Lula desde o fato de ter sido avisado do mensalão e… não deu reportagem de capa para o fato. Será que a blogosfera progressista vai reclamar disso também?

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Está tentando marcar um cházinho com a galera do STF e ninguém retorna as ligações. No Twitter, @flaviomorgen