Por que pedir impeachment de Dilma não é golpismo

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No julgamento que se concluiu em 16 de fevereiro de 2012, disse Ayres Brito: “A corrupção é o cupim da República, nossa tradição é péssima em matéria de respeito ao erário.” Questionavam na ocasião se a vontade das urnas deveria ser soberana ao ponto de haver o direito à eleição de políticos já condenados em primeira instância, ou se mais prudente seria não apostar que o voto se mostrasse capaz de driblar qualquer manipulação promovida em campanha. Venceu o segundo caso e a Lei da Ficha Limpa foi aprovada por 7 a 4, sendo aplicada já no pleito do mesmo ano.

Uma condenação de Dilma está ainda bem longe. Caso siga-se o ritmo do último gigantesco escândalo petista, isso ocorreria apenas na próxima década, quando um outro presidente já estará tomando conta do Brasil. Mas – mais uma vez – usam o recurso da “soberania das urnas” para carimbar de golpista qualquer um que acredite que a escolha popular de outubro passado deva se posicionar humildemente alguns degraus abaixo do cumprimento da lei.

Ora, porque se é válido barrar a vontade popular da eleição de um candidato já condenado em primeira instância pela Ficha Limpa, por que seria imoral questionar a mesma vontade em manter no poder alguém cujos crimes vão se tornando cada vez mais evidentes após reeleito? Crimes cujas cifras constantemente ultrapassam a casa dos bilhões? Alguém cuja aprovação despencou para 23% no primeiro mês do segundo mandato? Alguém cuja responsabilidade vem sendo apontada pelo próprio ex-presidente da Petrobras?

Não é de hoje

Bem lembra a dupla d’O Antagonista, imoral é olhar para isso tudo e lavar as mãos, como faz Dora Kramer ao cometer a sentença: “Portanto, quem deu vida a Mateus – a maioria do eleitorado – que o embale.” Lula, todo mundo sabe e até lembra, discordava da colunista já em 1992 contra Collor. O que pouca gente se recorda é que em maio de 1999, apenas 5 meses após a reeleição de FHC, o mesmo Luís Inácio e todo seu partido pouco pensavam na tal “soberania das urnas”, articulando no congresso um processo de impeachment – que, como sabemos, não caminhou muito.

O primeiro passo para o processo de impeachment foi dado ontem, quando PT, PC do B, PSB e PDT anunciaram que vão entrar, coletivamente, com uma representação na Câmara acusando FHC de crime de responsabilidade. (…)

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez ontem talvez seu mais duro ataque ao governo de Fernando Henrique Cardoso. “O governo parece até uma quadrilha. Todo dia tem uma pessoa ligada ao presidente envolvida em alguma falcatrua“, disse. Lula avaliou como insustentável a situação de FHC e considerou inadmissível o comportamento revelado pelo grampo.

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Mas o fato é que conversas sobre impeachment são uma constante na história política recente do Brasil. Em 2005, quando do estouro do Mensalão, o Google contabilizou um primeiro levante do tema.

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Em 2013, com os protestos de junho, o assunto novamente ganhou um fôlego momentâneo.

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E mesmo em 2014, até mesmo antes do resultado das eleições, aventava-se bastante a possibilidade graças às notícias que desde março surgiam da operação Lava Jato. A oposição chegou inclusive a protocolar um pedido de impeachment pelo crime de responsabilidade de Dilma na compra da refinaria de Pasadena. O gráfico abaixo mostra que o assunto sofreu oscilações significantes de janeiro a setembro do ano passado, antes mesmo do término do primeiro turno.

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E hoje?

Os juristas, como de costume, estão discutindo o assunto. Enquanto Ives Gandra defende que já há como sustentar uma abertura de processo, na revista Consultor Jurídico, essa tese é refutada. Os economistas fazem suas contas e calculam ainda em 30% o risco de um impeachment de Dilma, mas alertam que esse número dobrou nas últimas semanas. Os nomes diretos na sucessão do cargo evitam o tema. Segundo Josias de Souza, o vice-presidente Michel Temer vem refugando. Quanto ao terceiro homem da república, Eduardo Cunha acha a ideia descabida, mas já assinou a criação de uma nova CPI da Petrobras. Caiado, líder do Democratas, não descarta o processo. E Aécio Neves, principal nome da oposição, lembra que não é crime discutir o tema.

Quando Collor comandou o Brasil entre 1990 e 1992, o PIB recuou uma média anual de -1,3%, a inflação se consolidou como hiperinflação e mais de 2 milhões de postos de trabalho foram fechados gerando uma onda de desemprego que jamais voltamos a ver igual. Foi Itamar assumir o comando pelo mesmo PMDB de Michel Temer para que o país ganhasse credibilidade, a inflação fosse controlada, o PIB crescesse a uma média de 5% e a geração de empregos se estabilizasse.

Os números de Dilma são bem menos ruins que os de Collor, mas já demonstram um grave retrocesso em relação aos últimos 3 mandatos presidenciais. Contudo, em algo os dois cenários se assemelham: já não há qualquer fé de um futuro próspero para o país enquanto mudanças significativas não forem feitas. Aguardar as urnas de 2018 seria reprisar a estratégia adotada em 2005 (quando do estouro do Mensalão) e em 2013 (quando dos protestos de junho), ao acreditar que a eleição seguinte daria mais resultado que um processo político. E os resultados foram os recordes de sujeira em uma campanha por parte dos petistas naquilo que hoje vem sendo chamado de “estelionato eleitoral” até pela “linha auxiliar do PT”, o PSOL.

Mais do que isso, deixar aos cuidados dos “parteiros de Mateus” o destino do país é arriscar os avanços democráticos conquistados até aqui. E sabe lá que tipo de força emanará das urnas de um Brasil em recessão. Calma, claro, sempre é bem-vinda. Mas ela não pode ser confundida com leniência. Como bem lembrou Ayres Brito, os cupins estão corroendo a república. Se não faz-se nada e apenas espera-se que o tempo dê jeito em tudo, há de chegar o momento em que já seja tarde demais. As lições sobre as consequências de um mero lavar de mãos diante de injustiças são antigas, vêm da Bíblia. A população espera atitudes da oposição. Que elas venham.

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Mercado financeiro aventa impeachment de Dilma

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Segundo o Estado de São Paulo, após a eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, começou a circular entre banqueiros, investidores e analistas no Brasil e no exterior a possibilidade de um impeachment de Dilma, caso as investigações sobre o escândalo da Petrobrás resvalem pro Planalto.

Essa ideia ficou mais forte a medida que a crise do Petrolão se agravou, com o envolvimento e prisão de mais executivos de empreiteiras.

Enquanto Dilma e o PT afundam, Lula tenta se safar (em vão)

Luiz Inácio Lula da Silva

A policia federal amanheceu esta quinta-feira batendo à porta de um petista barbudo. Mesmo ainda não sendo quem você está pensando, a retenção de João Vaccari Neto representa menos um degrau de distância entre os investigadores do Petrolão e as cabeças do poder brasileiro nestes últimos 12 anos. A acusação diz que o tesoureiro do PT recebeu ao menos um quarto dos duzentos milhões de dólares que teriam ilegalmente entrado no caixa do partido neste período. A imprensa ainda completa a informação dizendo que o acusado se negou a abrir a porta para a PF, fazendo com que os agentes precisassem pular o muro para encontrá-lo. Contudo – e paradoxalmente – esta talvez tenha sido uma boa notícia para Lula.

Porque ontem, em horário nobre, o ex-presidente do Brasil foi acusado pelo empresário Auro Gorentzvaig de cometer a seguinte sentença:

“Poder Judiciário não vale nada. O que vale são as relações entre as pessoas.”
(Luiz Inácio Lula da Silva, segundo Auro Gorentzvaig)

Além destas aspas, o empresário, que já foi sócio da Petrobras na refinaria Triunfo, foi à TV denunciar:

  • Que a Petrobras comprou uma petroquímica pelo triplo do preço num prejuízo de quase R$ 3 bilhões
  • Que Dilma e Lula sabiam de tudo
  • Que, diferentemente do que propaga por aí, Lula mantinha relações com Paulo Roberto Costa, principal delator do Petrolão
  • Que, em 26 de fevereiro de 2009, tentou alertar Lula de tudo e ouviu o disparate mencionado mais acima

No site do Jornal da Band é possível assistir à reportagem por completo.

O estrago dessas denúncias, no entanto, foi ofuscado pela deflagração da nona etapa da operação Lava Jato. De qualquer modo, o time lulista já entrou em campo para mais uma vez tentar descolar do escândalo em curso a imagem do ex-presidente. A exemplo do que ocorrera com Marta, quando uma clássica defensora do PT veio a público dizer as verdades caladas durante três mandatos, agora foi a vez de Ricardo Kotscho. Na condição de ex-secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República nos primeiros anos do governo Lula, repetiu o roteiro da senadora petista e bateu em Dilma sem dó ou piedade. Até a palavra com I*, tão temida e questionada recentemente pelas vozes governistas, foi utilizada. Mas sempre com o estranho cuidado para não resvalar no nome de Lula, que só vem a ser citado no último parágrafo, com as ressalvas de que estaria distante da presidente e irá nesta sexta, ao estilo Mestre dos Magos, aconselhar a “gerentona” em um já alardeado encontro.

Entretanto, se Lula sabe o que deve ser feito, não está transmitindo isso corretamente aos seus assessores disfarçados de jornalistas imparciais. Porque as reportagens em tom de “release do Instituto Lula” soam cada vez menos certeiras. Às 21h12 da última segunda-feira, a Folha anunciou que Lula pediria neste mesmo encontro que Dilma afastasse Graça Foster da chefia da Petrobras. O problema é que, às 10h52 da manhã de terça-feira, a mesma Folha não só disse que a chefe da estatal seria afastada, como a decisão já estava tomada desde o fim de semana anterior. O que faz o estranho vazador das infos privilegiadas sobre torneiro mecânico? Na madrugada da quarta-feira solta que Lula irá aproveitar o encontro com Dilma para sugerir o nome de Henrique Meirelles à vaga em aberto. Contudo, pondo abaixo o teatro do pretenso “Salvador da Pátria”, o Globo adianta no mesmo dia que o ex-presidente do Banco Central não possui qualquer interesse em sentar do “trono de ferro” dessa bagunçada Petrobras.

À oposição resta uma missão bastante delicada. É preciso acertar o alvo em tão estratégico ponto que não pode haver brechas para que Dilma seja sacrificada em prol de benefícios a Lula. Isso já ocorreu num passado recente quando alguns mensaleiros foram trancafiados na Papuda em preservação à integridade presidencial. Os erros do PT são erros coletivos, sistêmicos, pouco têm a ver com os interesses pessoais de um ou outro “aloprado”. Está provado, são transmitidos de mandato a mandato independente da mão que empunha a caneta. Se a justiça novamente não quiser enxergar isso, que as vozes opositoras abram seus olhos. Pois a justiça só é cega quando não quer ver. E, diz o ditado, esse é o pior tipo de cego.

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(*) Impeachment

Já há fundamentação jurídica para pedido de impeachment de Dilma Rousseff

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Na manhã desta terça-feira, em visita da presidente a Campo Grande (MS), por volta de 50 manifestantes o pediram aos gritos. O líder do Democratas no senado não descarta a possibilidade de uma abertura de processo. O mercado financeiro vem monitorando essa possibilidade, principalmente depois da eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara. Mas a notícia mais importante do dia é a de que um parecer realizado pelo jurista Ives Gandra já confirma a existência de fundamentação para um pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

À luz desse raciocínio, exclusivamente jurídico, terminei o parecer afirmando haver, independentemente das apurações dos desvios que estão sendo realizadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público (hipótese de dolo), fundamentação jurídica para o pedido de impeachment (hipótese de culpa).

(grifos nossos)

O que derrubaria Dilma seria a prática de “improbidade administrativa”. Isso pode se dar de maneira dolosa (com intenção) ou culposa (sem intenção, mas com responsabilidade sobre o ocorrido). Ives Gandra buscou avaliar apenas o segundo caso, já que o primeiro precisa esperar ainda o desenrolar das investigações da operação Lava Jato. Ele explica que, por “culpa”, o direito considera as figuras de omissão, imperícia, negligência e imprudência. Desta forma, bastaria ao jurista provar que Dilma se omitiu ou foi imprudente para haver a base legal de um pedido de impeachment.

Como a própria presidente da República declarou que, se tivesse melhores informações, não teria aprovado o negócio de quase US$ 2 bilhões da refinaria de Pasadena (nos Estados Unidos), à evidência, restou demonstrada ou omissão, ou imperícia ou imprudência ou negligência, ao avaliar o negócio.

E a insistência, no seu primeiro e segundo mandatos, em manter a mesma diretoria que levou à destruição da Petrobras está a demonstrar que a improbidade por culpa fica caracterizada, continuando de um mandato ao outro.

(grifos nossos)

O parecer de Ives Gandra recebeu o apoio dos professores Modesto Carvalhosa, da USP, e Adilson Dallari, da PUC-SP. No entanto, ele deixou claro que, sem vontade política, o impeachment não sairá. “O julgamento do impeachment pelo Congresso é mais político que jurídico.

Collor caiu graças a valores que, na época, compravam um FIAT Elba. Quanto aos desvios da Petrobras, já passam da casa das dezenas de bilhões de reais e o governo segue de pé. Para completar, o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha, deixou a entender que falta-lhe essa vontade. Ou que, ao menos, estava mal informado.

Não há a menor possibilidade de minha parte. Não há de se discutir fatos de um mandato anterior. Todos querem que o país siga sua estabilidade. Pedido de impeachment ou qualquer coisa nesse sentido é descabido.

(grifos nossos)

Descabido, esclarece o parecer de Gandra, não é mais (ou nunca foi). E cabe questionamentos a essa estabilidade defendida por Eduardo Cunha. Desde meados de 2013 o Brasil vive um momento politicamente tenso e coleciona números que, mesmo maquiados, sugerem perda de rumo. Processo de impeachment não é golpe e só costuma defender o contrário quem de alguma forma será prejudicado por ele. Enquanto Collor esteve no poder, vivemos uma recessão que reduziu aos milhões os postos de trabalho no Brasil. Foi a queda do presidente que permitiu ao país se estabilizar, controlar a inflação e voltar a crescer. O momento pede atitudes enérgicas que tragam de volta a esperança de um futuro melhor. Mas a esperança não vem da sujeira varrida para baixo do tapete. É preciso perder o medo de gritar a palavra que começa com “I”. Hoje, em Campo Grande, ao menos 50 brasileiros perderam esse medo. Que essa coragem contagie o resto da população.

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Celso de Mello: Se Lula ainda fosse presidente, seria caso de impeachment

por Flavio Morgenstern

Está ficando difícil acompanhar todas as críticas que os ministros do STF fazem à “pressão” de Lula sobre Gilmar Mendes. É cabível: até mesmo aquela que é considerada sua arqui-inimiga no Brasil, a revista Veja, não cansou de separar Lula dos outros caudillos da América Latina e suas manias de concentrarem poderes em suas mãos.

Por maiores que fossem as críticas da revista e de toda a imprensa, a manuntenção da democracia ao menos era elogiada, mesmo com suas diatribes de sempre – como as ganas eternas de censurar a imprensa. O mesmo era válido na direção oposta: até num período em que os velhos esquerdistas remanescentes do antigo Pasquim resolveram recriar o jornal em fins de mandato de FHC (com direito a elogios sebosos a José Alencar na primeira página), a pauta era a mesma: criticar o governo tucano por mundos e fundos, mas afirmar que os pilares democráticos se estabeleceram e foram defendidos em seu governo. Até Fausto Wolff afirmava isso.

É exatamente o problema com o mensalão: antes mesmo de se falar no dinheiro público correndo pelo Valerioduto (uma mixaria de R$35 mil por mês por cabeça, bem menos do que eles já levam legalmente de nosso Estado inchado), há de se entender que é o Executivo comprando o Legislativo. Uma afronta à democracia. Só o Judiciário tinha se mantido incólume até agora.

Até agora.

Entre as grandes e esponjosas definições de democracia (vide Robert Dahl, em Sobre a democracia), um dos pressupostos que as democracias modernas deixaram claro, mas que desde a Grécia é instrumentalmente obrigatório, é a independência de poderes. Cada um é definido em separado do outro. É claro que o Judiciário é o mais “dependente”, e já avisamos aqui no Implicante™ o risco enorme que o STF corre nas próximas eleições presidenciais de se tornar um parquinho pouco disfarçado de um partido (em questão de uma nova eleição, dos 11 ministros do STF, 10 serão indicados pelo PT).

Claro que não é um dogma impassível de exceções. A Inglaterra possui muito mais interferência entre poderes do que o Brasil e é uma democracia absurdamente mais consolidada. Existem medidas provisórias, emendas e diversos outros mecanismos para o Executivo legislar (que deveriam ser mais contidas, óbvio). Mas, pela primeira vez, o PT ataca frontalmente o Judiciário, de maneira, abusando do eufemismo, pouco republicana.

É o que mostra a revista eletrônica Consultor Jurídico, com alguns melhores momentos destacados:

“Se ainda fosse presidente da República, esse comportamento seria passível de impeachment por configurar infração político-administrativa, em que um chefe de poder tenta interferir em outro”. A frase é do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, em reação à informação de que o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem feito pressão sobre ministros do tribunal para que o processo do mensalão não seja julgado antes das eleições municipais de 2012. “É um episódio anômalo na história do STF”, disse o ministro.

Os dois mais antigos ministros do Supremo — além de Celso de Mello, o ministro Marco Aurélio — reagiram com indignação à reportagem. Os dois ministros classificaram o episódio como “espantoso”, “inimaginável” e “inqualificável”.

(…)

O ministro Marco Aurélio afirmou que pressão sobre um ministro do Supremo é “algo impensável”. (…) “Não concebo uma tentativa de cooptação de um ministro. Mesmo que não se tenha tratado do mérito do processo, mas apenas do adiamento, para não se realizar o julgamento no semestre das eleições. Ainda assim, é algo inimaginável. Quem tem de decidir o melhor momento para julgar o processo, e decidirá, é o próprio Supremo”.

(…)

O encontro foi patrocinado por Jobim. Lula começou por oferecer “proteção” a Gilmar Mendes, no âmbito da CPI do Cachoeira, uma vez que ele teria a comissão sob seu comando. Gilmar reagiu negativamente e Jobim tentou consertar: “O que o presidente quis dizer é que o Protógenes pode querer convocá-lo”. Ao que Gilmar teria retrucado que, nesse caso, quem precisa de proteção é ele, pelas suas ligações com o esquema de Cachoeira. Ao repetir que suas ligações com o senador Demóstenes nunca passaram dos limites institucionais, Lula teria perguntado sobre a viagem de Gilmar e Demóstenes a Berlim. “Vou a Berlim como você vai a São Bernardo do Campo. Minha filha mora lá. Vá fundo na CPI”. Mendes confirma o encontro com Demóstenes na Alemanha, mas garante que pagou as despesas da viagem de seu bolso. Sem favor de ninguém.

O ministro Celso de Mello lamentou a investida. “Tentar interferir dessa maneira em um julgamento do STF é inaceitável e indecoroso. Rompe todos os limites da ética. Seria assim para qualquer cidadão, mas mais grave quando se trata da figura de um presidente da República. Ele mostrou desconhecer a posição de absoluta independência dos ministros do STF no desempenho de suas funções”, disse o decano do Supremo.

Para Marco Aurélio, qualquer tipo de pressão ilegítima sobre o STF é intolerável: “Julgaremos na época em que o processo estiver aparelhado para tanto. A circunstância de termos um semestre de eleições não interfere no julgamento. Para mim, sempre disse, esse é um processo como qualquer outro”. Marco também disse acreditar que nenhum partido tenha influência sobre a pauta do Supremo. “Imaginemos o contrário. Se não se tratasse de membros do PT. Outro partido teria esse acesso, de buscar com sucesso o adiamento? A resposta é negativa”, afirmou.

De acordo com o ministro, as referências do ex-presidente sobre a tentativa de influenciar outros ministros por via indireta são quase ingênuas. “São suposições de um leigo achar que um integrante do Supremo Tribunal Federal esteja sujeito a esse tipo de sugestão”, disse.

(…)

O ministro Celso de Mello também disse que a resposta de Gilmar Mendes “foi corretíssima e mostra a firmeza com que os ministros do STF irão examinar a denúncia na Ação Penal que a Procuradoria-Geral da República formulou contra os réus”. Para o decano do STF, “é grave e inacreditável que um ex-presidente da República tenha incidido nesse comportamento”.

De acordo com o decano, o episódio é grave e inqualificável sob todos os aspectos: “Um gesto de desrespeito por todo o STF. Sem falar no caráter indecoroso é um comportamento que jamais poderia ser adotado por quem exerceu o mais alto cargo da República. Surpreendente essa tentativa espúria de interferir em assunto que não permite essa abordagem. Não se pode contemporizar com o desconhecimento do sistema constitucional do país nem com o desconhecimento dos limites éticos e jurídicos”.

Celso de Mello tem a convicção de que o julgamento do mensalão observará todos os parâmetros que a ordem jurídica impõe a qualquer órgão do Judiciário. “Por isso mesmo se mostra absolutamente inaceitável esse ensaio de intervenção sem qualquer legitimidade ética ou jurídica praticado pelo ex-presidente da República. (…) Confirmado esse diálogo entre Lula e Gilmar, o comportamento do ex-presidente mostrou-se moralmente censurável. Um gesto de atrevimento, mas que não irá afetar de forma alguma a isenção, a imparcialidade e a independência de cada um dos ministros do STF”.

Celso de Mello concluiu: “Um episódio negativo e espantoso em todos os aspectos. Mas que servirá para dar relevo à correção com que o STF aplica os princípios constitucionais contra qualquer réu, sem importar-se com a sua origem social e que o tribunal exerce sua jurisdição com absoluta isenção e plena independência”.

(grifos nossos)

O que Lula, os petistas, Nelson Jobim, a Carta Capital, o jornalismo da Igreja Universal e a blogosfera progressista podem responder a isso? Apenas dar uma de Cachoeira e ficarem caladinhos. Uma atitude curiosa: Gilmar Mendes e Veja, quando estão sendo achincalhados por denúncias doidivanas, tascam fogo: “Vá fundo na CPI”. Eles mesmos cuidam de falar de seus encontros ou publicarem as próprias conversas que seus repórteres tiveram com o contraventor como fonte. Por que o medinho do outro lado?

Além de Marco Aurélio Mello afirmar em entrevista ao SBT publicada pelo blog do Josias que ‘o Supremo não é sindicato’, o ministro também falou à Folha:

FOLHA – Como o sr. avalia esse encontro do ministro Gilmar Mendes com o ex-presidente Lula e o pedido de adiar o julgamento?

MARCO AURÉLIO MELLO – Está tudo errado. É o tipo de acontecimento que não se coaduna com a liturgia do Supremo Tribunal Federal, nem de um ex-presidente da República ou de um ex-presidente do tribunal, caso o Nelson Jobim tenha de fato participado disso.

Interfere no funcionamento da Corte?

Precisamos compreender uma coisa: ministro do Supremo não é cooptável. No dia em que for, teremos que fechar o Brasil para balanço.

O sr. acha que o mensalão pode ser, de fato, adiado por pressões políticas?

Se eu fosse advogado de algum acusado estaria muito chateado com a situação. Pois parece um gol contra. Mas como julgador, continuo no mesmo patamar de isenção. (…) Se tem gente que pensa que, diante de um ministro do Supremo, que é o órgão máximo do Judiciário, é capaz de interferir, interceder, influenciar, imagina o que deve acontecer com um juiz de primeira instância.

Na sua avaliação, esse episódio de fato aconteceu?

Não posso presumir que o ministro Gilmar Mendes tenha criado esse episódio. O presidente Lula tem uma forma de tocar as coisas concernente ao mundo privado, que funciona em sindicatos, onde ele cresceu. Agora, no campo público é diferente.

Problema para Dias Toffoli, último ministro indicado por Lula (por que será?) que já foi advogado de campanha do próprio Lula e cuja namorada, Roberta Rangel, defende justamente alguns réus do mensalão. Tudo em família. Será que ele está chateado ou continua “estudando” se vai julgar o mensalão ou se vai, ele próprio, se declarar incapacitado?

Dessa vez, para abandonar a fama de Oposicinha, eis que o PSDB resolveu partir para o ataque, como só a Kátia Abreu parece ter tido coragem de fazer na CPMI do Cachoeira. Diz também a Folha:

O líder do partido na Câmara dos Deputados, Bruno Araújo (PE), disse estar estarrecido com a notícia.

“Não é admissível que qualquer autoridade, especialmente um ex-presidente, tenha em seu poder informações fundamentais para as investigações e que, ao contrário de partilhá-las, faça uso político das mesmas”, afirma o deputado.

 A revista também diz que Lula contou a Mendes que delegaria ao ex-ministro do STF e presidente da Comissão de Ética da Presidência Sepúlveda Pertence a tarefa de falar sobre o julgamento com a ministra Cármen Lúcia.

Sepúlveda negou ontem que Lula tenha feito o pedido e disse lamentar que Mendes tenha dado “declaração sobre conversas, reais ou não, que tenha tido com um ex-presidente da República”.

É montypythoniano ver um presidente da Comissão de Ética da Presidência “lamentando” que um ministro fale sobre conversas em que foi achincalhado. Pior ainda: que um ex-presidente da República que poderia dar provas de que Gilmar está mentindo só consiga mesmo é se calar e torcer para seu carisma lhe salvar o couro mais uma vez. A tal “mídia golpista”, PiG ou que quer que seja não cansou de afirmar que Lula tem pouco apreço pela república. Aguardamos uma contra-prova.

Também esperamos os contorcionismos de Nassif, Paulo Henrique Amorim et caterva para explicar o inexplicável. A Cynara, aquela da Carta Capital que jura que “Cachoeira deu apelidos carinhosos para Policarpo Jr.” usando com “prova” um áudio em que ele não sabia de quem falavam quando simplesmente abreviavam o nome do repórter, preferiu apenas dizer que não acredita em Veja e Gilmar Mendes. A semana promete muitas risadas neste reino do lulocentrismo.

Post Scriptum: Reclamaram muito de Veja não ter dado capa para Cachoeira, sendo que havia chamada de capa por 9 edições seguidas para o escândalo e 3 reportagens de capa sobre o esquema – incluindo uma que saiu exatamente quando Carta Capital reclamou disso. Dessa vez, teve a acusação mais grave a Lula desde o fato de ter sido avisado do mensalão e… não deu reportagem de capa para o fato. Será que a blogosfera progressista vai reclamar disso também?

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Está tentando marcar um cházinho com a galera do STF e ninguém retorna as ligações. No Twitter, @flaviomorgen