Para cada eleitor de Marta que acerta o número do partido dela, três erram e dizem o do PT

Tudo bem, a campanha está apenas começando. Mas o Ibope quis saber se os eleitores sabem o número de seus candidatos. Buscando a reeleição, quem se saiu melhor, claro, foi Fernando Haddad, com metade dos entrevistados acertando os dígitos a serem depositados na urna. Em segundo lugar ficou João Dória Jr, do PSDB, mas com apenas 14%.

Curioso, contudo, é o caso de Marta Suplicy. Após 33 anos no PT, seus eleitores parecem não saber que ela mudou de partido. Apenas 3% acertam os dígitos que renderiam voto a ela. O triplo disso, contudo, ainda acredita que ela esteja no PT, pois responde justo o número pelo qual concorre o Partido dos Trabalhadores.

Também chama atenção o candidato Celso Russomanno. Apesar de liderar as pesquisas, nenhum dos entrevistados acerta o número de sua chapa.

Na verdade, a rejeição a Haddad está em 70%, com a de Marta em 54%, tornado-os inelegíveis

O noticiário deu que a rejeição a Fernando Haddad está em 52%, segundo a pesquisa do Ibope, com Marta em 35% e Luiza Erundina em 25%, fazendo com que o trio de (ex-)petistas seja o mais rejeitado na disputa pela prefeitura de São Paulo. Mas esse é o resultado de uma primeira pergunta genérica feita pelo instituto e que estimula a escolha de três nomes. Vejam como a questão foi formulada:

P.05) Dentre estes candidatos a Prefeito de São Paulo, em qual o(a) sr(a) não votaria de jeito nenhum? Mais algum? Algum outro?

No momento seguinte, a pesquisa do Ibope pede para que o entrevistado avalie candidato a candidato. Nesse ponto do formulário, uma das opções é bem clara ao dizer: “Não votaria nele de jeito nenhum
para Prefeito São Paulo“. Nessa leitura, todas as rejeições sobem bastante. Mas os (ex-)petistas, por terem a antipatia de pelo menos metade do eleitorado, ficariam impedidos de se darem bem num segundo turno.

No gráfico abaixo, estão destacados em vermelhos os candidatos que, com mais de 50% de rejeição, não teriam condições de vencer um segundo turno, a não ser num confronto direto. Em amarelo, aqueles que superam o limite na margem de erro de 3%. Por essa leitura, não haveria condições de Fernando Haddad, Marta Suplicy, Levy Fidélix e Luiza Erundina saírem vitoriosos.

Sim, a campanha está apenas começando. Mas ela não demorará muito.

A culpa do futebol feminino não emplacar não é da mídia, mas sim da falta de público

Toda Olimpíada tem um mesmo roteiro, com mudanças eventuais de esporte/categoria. Após alguma derrota, vários “especialistas” fazem o mesmo diagnóstico: faltou apoio da mídia e/ou do governo.

Parece tentador concordar com isso, mas trata-se de um equívoco. Mais ainda quando dizem que abafam ou boicotam determinadas modalidades. E tem-se ouvido muito isso acerca do fufebol feminino (falamos sobre recentemente, vale lembrar).

Em primeiro lugar, a mídia não abafa nem boicota. Quando se trata de esporte, ela divulga o que dá público, mas não tem a capacidade de CRIAR uma audiência fixa para determinada atividade. Com boa propaganda e divulgação, conseguem atrair audiência a um ou dois jogos, mas a TODO UM CAMPEONATO isso é impossível, a menos que muitas (muitas, mesmo) pessoas já tenham genuíno interesse.

A coisa funciona assim: determinada atividade esportiva ganha o interesse do público, atrai multidões etc. Alguém da TV arrisca transmitir e – AÍ É O PULO DO GATO! – precisa dar audiência. Deu? Transmitem mais e mais, a ponto de passar torneios inteiros. Com isso, patrocinadores aparecem e, aí sim, os esportistas que se destacam ganham mais, começam a estrelar propagandas etc.

Exemplo razoável é o MMA: o interesse das grandes emissoras veio DEPOIS da constatação de que se tratava de um fenômeno de público (ou, vá lá, ao menos algo com potencial). No exato momento em que a audiência despencar, tratarão de mudar de horário, tirar da grade e assim por diante.

Desse modo, e por óbvio, só há um caminho de o futebol feminino aparecer na “mídia”: haver interesse do público, lotar estádios nos jogos profissionais etc. Aí cabe perguntar, a quem hoje reclama da falta de destaque na imprensa, quantas vezes já foi a um jogo profissional de mulheres.

Pois é.

Mas é aquilo, o esquerdista não está preocupado com os fatos, com a lógica ou com a ordem das coisas. A ele, no fim, importa apenas o discurso e o quanto ele PRECISA estar adequado a seu dogma ideológico.Como já disse Millôr, o socialista é um alfaiate que, quando a manga da camisa está muito curta, ele corta o braço do cliente.

Enfim, comecem a prestigiar o futebol feminino, indo de fato aos estádios, ginásios e que tais. Comprem os produtos a ele relacionados, juntem suas turmas e amigos e compareçam todos! Assim, e somente assim, haverá uma consagração de fato. E números não faltam: se 10% de quem “lacra” nas redes ou dá like aparecer, já teríamos o maior público da história em um campeonato.

Mãos à obra!

Marta ganharia mais que Neymar se quem faz “mimimi” prestigiasse de fato o futebol feminino

Circulam nas redes sociais algumas imagens, textos e afins reclamando do fato de que Neymar ganha mais do que Marta – há até uma “análise” da remuneração quanto à eficiência, digamos assim, estabelecendo a relação salário/gols nos dois casos.

Sim, é verdade, realmente o jogador do Barcelona ganha muito mais do que a grande craque de nossa seleção. Mas isso não acontece por decisão sexista dos inescrupulosos empresários.

Ele ganha mais porque o futebol feminino é menos prestigiado e, numa conta simples (porém não incorreta), bastaria que todos a compartilhar/comentar tais imagens fossem aos estádios ver futebol feminino, comprassem pacotes de assinatura, adquirissem produtos licenciados, enfim, que assim aumentaria a remuneração e os patrocínios das atletas.

Curtir, compartilhar e fazer textão é bacana para você fazer média com sua turma, mostrando que está “preocupado com a conjuntura”, mas tem eficácia quase nula no salário da Marta e de suas colegas.

Porque a grana recebida pelos jogadores, por óbvio, é proporcional ao interesse e à audiência; quanto mais “fãs”, mais publicidade/patrocínio.

Então, fica a dica: comece a ir aos jogos do futebol feminino, em vez de reclamar.

Antes de ter como vice o PSD de Kassab, Marta evitava ser vista “de mãos dadas” com ele

O mundo dá cada vez mais voltas, mas a internet costuma guardar o histórico de tudo. E chega a ser engraçado confrontar o que era dito por algumas personalidades políticas (num passado até recente) com a postura assumida agora. Andrea Matarazzo confirmou que será o vice de Marta (ainda Suplicy?) na disputa pela prefeitura de São Paulo. Se ele largou o PSDB após 25 anos, ela deixou para trás 34 anos de PT. Atualmente no PMDB, a ex-petista pode dividir a chapa com um candidato do PSD, o partido fundado por Gilberto Kassab em 2011.

A coisa é tão recente que no Twitter mesmo é possível encontrar o rancor de Marta para com o também ex-prefeito de São Paulo. Na fala mais contundente, como se vê abaixo, a candidata renega até mesmo a possibilidade de ser vista por aí ao lado do atual ministro das Comunicações.

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Voltas que o mundo deu.

Delator diz que o PT comprou Maluf forçando o 2º turno com Serra e Marta

O caso teria ocorrido nas eleições de 2004 para a prefeitura de São Paulo. Segundo Pedro Corrêa, ex-deputado federal pelo PP, em delação premiada para a operação Lava Jato, o PT bancou em R$ 26 milhões a candidatura de Paulo Maluf, forçando, assim, um segundo turno entre Marta Suplicy (então candidata petista) e José Serra, que sairia vencedor pelo PSDB.

Deste montante, R$ 6 milhões foram para o próprio PP, e outros R$ 20 milhões pararam no bolso de Maluf, tudo no caixa dois.

De fato, pelo resultado do primeiro turno, caso fossem somados os votos de Serra e Maluf, a disputa seria concluída sem necessidade de segundo turno. E a votação final do tucano equivale a 97,3% dessa soma, fortalecendo a tese de que, para evitar a reeleição da petista, o eleitorado se dividiu na primeira etapa da disputa.

Em 2016, Marta deve voltar a disputar a prefeitura de São Paulo, dessa vez pelo PMDB.

Amor em SP: Presidente do PT-SP defende Kassab em evento; Kassab diz que ‘descalabro’ era duas vezes maior na gestão Marta

Haddad

Matéria do Estadão:

São Paulo – O presidente do PT do Estado de São Paulo, deputado estadual Edinho Silva, fez neste domingo, 10, uma defesa enfática do ex-prefeito da capital paulista Gilberto Kassab (PSD) e pediu o fim da utilização política das apurações do esquema que pode ter desviado até R$ 500 milhões do Imposto Sobre Serviços (ISS) na prefeitura paulistana.

“Kassab tem sido aliado importantíssimo e de primeira hora do governo Dilma. O PT tem de seguir valorizando Kassab como aliado, uma liderança leal e o PSD como um partido fundamental para o governo Dilma”, disse Edinho em entrevista ao Broadcast, serviço de tempo real da Agência Estado.

Ao comentar o fato de Kassab e do secretário de Governo da Prefeitura de São Paulo, Antônio Donato, terem sido citados nas gravações, Edinho considerou que paralelamente ao processo de apuração feito pela Controladoria Geral do Município (CGM) de São Paulo e pelo Ministério Público do Estado, “há por parte de forças políticas um esforço de envolver companheiros do PT que têm histórico de idoneidade, além de lideranças de outros partidos”, afirmou. “A apuração tem de ser autônoma e ir às últimas consequências”.

Edinho, que governou o município de Araraquara (SP) por duas vezes, admitiu “que nenhum prefeito, ou governador, nem a presidente sabem de tudo o que o ocorre na máquina pública” e, por isso, disse defender que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), dê total liberdade e estrutura às apurações. “O Haddad deve ter estrutura e ainda apoio do PT para governar e instituir instrumentos de combate à corrupção. Ele é um quadro político experiente e o governo não deve ser paralisado”, completou.

(…)

(grifos nossos)

Kassab

O ex-prefeito concedeu entrevista à Folha de S. Paulo, publicada nesta segunda (11). Confiram alguns trechos:

Folha – Como sr. interpretou a afirmação de Haddad de que a situação encontrada na prefeitura era de “descalabro”?

Gilberto Kassab – Na medida em que ele utilizou o termo descalabro, sou obrigado a devolver na mesma moeda.

É difícil aceitar essa referência sobre o final da nossa gestão. Se aceitássemos, o final da gestão anterior, que era dele [Haddad participou da administração Marta Suplicy (2001-2004)], estaria duas vezes esse descalabro.

Todos sabem como encontramos a cidade. Ela estava quebrada. E, apesar das dificuldades financeiras e da dificuldade para encaminhar nossas reivindicações ao governo federal sobre o problema da dívida, terminamos com finanças em dia, [com] recursos em caixa.

(…)

Vale lembrar, ainda no campo do descalabro, como encontramos a saúde, com programas reduzidos, unidades sucateadas. Chegava ao ponto de faltar medicamentos em toda a rede. Superamos isso. E não é que voltamos agora a ter falta de medicamentos?

Sobre duplamente descalabro, o sr. fala da gestão anterior?

Se essa é um descalabro, imagina como era antes, duas vezes um descalabro. Nunca assumimos o compromisso de resolver todos os problemas, mas a cidade avançou bastante.

E neste primeiro ano de gestão [Haddad], ela não avançou nada. Ele se iludiu, talvez, com o marketing de sua campanha, de que soluções mágicas eram suficientes. Cadê o Arco do Futuro [projeto urbano de estimular o desenvolvimento em algumas regiões]? Ele deixou de lado. Cadê os investimentos da cidade? Deixamos recursos em caixa.

(…)

O que era essa situação de “muito mais descalabro” que o sr. diz que encontrou?

Contas não pagas, bilhões de dívidas, fornecedores sem receber, postos de saúde sem abastecimento, escolas de lata. Aquilo era um descalabro.

O que tem achado das primeiras medidas do prefeito?

Quero voltar à campanha. Ele fez promessas sobre vagas em creche e elas já foram diminuídas. É preciso lembrar do Arco do Futuro, da redução do plano de metas. Isso tudo com a colher de chá do governo federal [renegociação de dívidas], que não fez o mesmo com a nossa gestão.

Íntegra aqui.

A entrevista de Erundina na revista Brasileiros

por Flavio Morgenstern

Luiza Erundina está na capa da desastrada revista Brasileiros deste mês.

Essa revista é uma daquelas que falam de “tendências” e “personagens” (com o perdão do faux pas), acreditando que isso tem algo a ver com “cultura, política e economia”. É uma espécie de Bravo! para esquerdista da Vila Madalena. Uma dessas revistas que fazem reportagem com Caetano Veloso em 80% de suas edições.

Sob o título “Luiza, a coerente” (assim, em vermelho-Cortina de Ferro), Erundina desfila sua facúndia para explicar por que picou a mula do lugar de vice na chapa encabeçada pelo não menos desastrado Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo (como se ninguém soubesse o porquê).

Na capa, em letras garrafais, já há uma fala da deputada tentando justificar o injustificável: “E o Maluf não ficou no colo do Serra”. Pior desculpa de todos os tempos? Seria então melhor fazer aliança com Fernando Collor, José Sarney e seguir pari passu até o modelo econômico do ditador Geisel para que tais forças das trevas “não caiam no colo de Serra”? A propósito, tudo isso tem sido mesmo feito pelo PT. É coerente chamar Erundina de “coerente” depois dessa?

Segundo a revista, o anúncio de Erundina queimando o chão fez seu nome ser associado ao tema “ética na política” nas redes sociais. Ora, “ética na política” (assim, entre aspas) é um bordão. Tal como um cartaz numa marcha (aquela coisa antiquada, que já deveria ter morrido nos anos 80 junto ao Muro de Berlim), é um pedido, um reclame do plim-plim, não um elogio (como aquelas faixas falsas, do tipo “A população de Três Coquinhos da Serra agradece ao governo por desentupir um bueiro”). E quem acessou qualquer rede social entre o dia do seu anúncio e hoje vê que, longe de um elogio, o nome de Erundina serviu foi para ridicularizar até a alma o PT.

Erundina era da linha dura trotskysta do PT (hoje, no PSB). Dessas que não negociam: batem com o pau na mesa. Basta ver um elogio que recebeu do não menos comunista Antônio Cândido: “Aceite os meus cumprimentos pela coragem cívica e a coerência socialista com que agiu, de maneira a confirmar o seu passado exemplar”. Talvez o grande crítico literário explique mais do que pretende: não é coerência, assim, em si. Não é qualquer coerência identificável a olhos vistos. É uma coerência socialista, como demonstra a delimitação do adjetivo. Assim, sim.

A entrevista

Erundina fala dos seus sentimentos – a única coisa que vale a entrevista, já que o ridículo da aliança lulo-malufista fez até a Carta Capital colocar Maluf na capa. Diz a deputada: “Faço política acreditando que é possível mudar”. Para um totalitarismo socialista, aquele modelo genocida brega? “Quando saí [do PT], não mudei para o centro nem para a direita. Mudei para uma casa no campo popular democrático de esquerda, socialista. Eu não sou daqueles que acha que o socialismo morreu”. Mais uma vez: ou se é democrático, ou se é socialista. É como tentar criar o fascismo democrático. O feudalismo burguês. O liberalismo estatal. É um oximoro, uma contradicto in adjecto. Ademais, é claro que o socialismo não morreu: tá vivão, alive and kicking, basta olhar para Cuba, onde os salários mais altos são o equivalente a US$30/mês, mais ou menos o salário mínimo recebível por duas horas de trabalho na Califórnia. Outros, da maioria da população, na típica desigualdade social socialista, são metade disso. Isso para não falar da Coréia do Norte, entre outros exemplos que vão do bolivarianismo chavista ao Irã.

Sobre a sua “coerência” (a socialista, não aquela conhecida da galera), Erundina afirma cada vez algo diferente nas respostas. Primeiro, afirma que sua preocupação “era com a direção nacional do PSB, que fez a aliança com o PT. O projeto da direção estadual era apoiar o Serra. O presidente do diretório estadual, Márcio França, já tinha até ido para o governo Geraldo Alckmin”. Entendendo a coerência: Erundina prefere Maluf aos tucanos, já que isso a preocupava tanto.

“Claro”, diz a deputada, que seria melhor “deixar Maluf no colo do Serra”, como pergunta a entrevistadora Luiza Villaméa: “O Maluf só não ficou no colo do Serra porque o Alckmin negou um elemento de barganha política, que era uma Secretaria de Habitação”.

Estranho. O nome de Maluf, apesar de todos os pesares (que não cabem em um livro), é um nome eleitoralmente forte em São Paulo. Ninguém, nem mesmo os políticos mais jeca, costumam se associar a Maluf, todavia, sem um sorriso amarelo e um desconforto pior que o de uma diarreia. O tucanato paulista não aceitou dar algo a Maluf em troca do seu apoio (não é a primeira vez que isso acontece, já que Maluf vai de mal a pior, sendo cada vez mais um queima-filme do que um bom nome a ter como apoiador). Quem viu alguma reportagem dizendo: “Serra, o coerente”, ou “Alckmin, o coerente”? Não que fosse grande coisa: negar Maluf três vezes, ou três milhões de vezes, garante um bom lugar no Éden. Entretanto, como pode a deputada Erundina agora tentar transformar água em vinho para inverter a ordem dos fatores e ainda tal frase aparecer na capa da revista? Afinal, Alckmin negou a barganha – no máximo, Maluf apoiaria os tucanos por saber que nunca mais conseguirá ser prefeito em São Paulo (como Erundina nunca será, ou Marta nunca será, por isso a escolha de Haddad como candidato-tampão do PT; a própria Erundina lembra: “[Maluf] estava resgatando um espaço que havia perdido”). Já o PT atende ao desenho barganhador do mesmo Maluf. Isso é uma mostra de “coerência” e “ética na política”? Ademais, a deputada acaso acredita mesmo que ter Maluf defendendo seu candidato é algo melhor para seu candidato? Quem negou o “fisiologismo” e “não fez concessões” (como a própria deputada afirma serem seus valores): o PT ou o PSDB?

Na dança das cadeiras das alianças, é a própria Erundina que dá mostras de pouca coerência nos estreitamentos com o PP malufista: “o governo federal concedeu a ele [Maluf] a Secretaria Nacional de saneamento, em um ministério que, na verdade, é do PP. Aliás, um dos ministérios com um dos maiores recursos orçamentários e financeiros”. Que bonitinho dar uma coisinha dessas ao Maluf! Ainda mais bonitinho lembrar o que misteriosamente ninguém lembra desde 2002: que o PP é tão aliado do lulismo que até seu vice era do partido do Maluf (ou alguém lembra do PP por outro motivo?). a raposa cuidando do galinheiro. Mais: não foi dado ao Maluf propriamente, mas a um mancomunado seu. Mas todo sabe que, na prática, é o próprio Maluf (tanto é que a foto que correu a internet é com o Maluf). Por que a choradeira dos petistas estarem aliados ao PP só veio a público uma década depois? Só valem as aparências na democracia petista.

Erundina afirma que não sabia sobre as negociações com o PP pelos petistas: “Eu estava acompanhando o noticiário, foi on line, digamos assim”. Dona Erunda, uma dica: pare de acompanhar política pelo Brasil de Fato e leia mais o Implicante™. Da próxima vez, saberá em primeira mão algo sobre sua chapa que o Brasil inteiro já sabia, menos a senhora.

Segundo ela, a notícia foi dada por um “companheiro”. Quando Haddad foi indagado, “ele disse que isso seria algo sem importância”. Deu pra ver.

Mas Erundina limpa a barra do seu “companheiro”: “Acredito que ele não estava seguro sobre como as coisas iriam se dar. Acredito que ele não sabia mesmo”. Poxa! Bom saber o quanto Haddad anda atencioso à sua própria campanha, ainda mais quando toda a imprensa séria (não a “imprensa livre” financiada pelo próprio partido do governo) já martelava essa tecla há mais de duas semanas. Imagino Haddad no governo. “Eu não sabia de nada” versão 2.

Erundina também abre concessões para alguns delírios: “A personalização política em São Paulo tem em um polo a minha pessoa, em outro o Maluf”. Erundina disputou duas eleições – contra Maluf, em que ganhou, e contra Pitta, em que perdeu. Acredite Erundina ou não, São Paulo está quase caminhando para completar duas décadas de governo tucano – se livrando dos dois. Talvez ela e Maluf sejam mesmo “polos” (talvez Marta Suplicy fosse o verdadeiro polo da esquerda). Aqueles extremos radicais com os quais ninguém quer se envolver.

Seu vocabulário, além do “companheiro”, também mostra que seu atraso, tão “progressista” quanto Maluf. Fala que fez “contato com os movimentos” (?), que São Paulo precisa de uma “gestão democrática, participativa e transparente” (glasnost não é algo assim meio direitista?). Quando fala do afago de Maluf em Haddad, este último imediatamente deixa de ser um indivíduo de nome Fernando Haddad: Erundina fala sobre “aquele afago ao candidato. Ele passa a mão na cabeça do candidato”. A democracia participativa transparente erundiniana faz até o candidato deixar seu lado mamífero para se tornar um número.

Também sobra espaço para aqueles bordões bem ao gosto dos bolcheviques da Vila Madalena, mas que na prática não fazem um pingo de sentido: “Nordestina, de esquerda, de origem humilde. Só faltava ser negra para completar. (…) Se eu fosse negra, teria mais um motivo para fazer luta ideológica. A luta contra o preconceito é uma luta ideológica”. Bonita intenção, mas então, só é possível lutar contra o preconceito racial sendo negro? Isso talvez explique por que todo esquerdista adora comparar seus inimigos aos nazistas, embora costumem odiar ainda mais os judeus do que muito oficial da Waffen SS.

Já que o único assunto possível seria a coerência (a socialista, não a lógica e universal), Erundina dá uma espezinhada em Marta Suplicy: “a Marta teve o apoio do Maluf em 2004, no segundo turno. Maluf saiu com Kombi, com outdoor, Marta e Maluf. Percebe? Por que em 2004 Maluf poderia aparecer na campanha e apoiá-la publicamente?”. Aproveitamos o ensejo para espezinhar a revista Brasileiros: por que colocar itálico em “outdoor” e não em “on line” (assim, separado) ali em cima? A primeira palavra já deve estar no léxico médio brasileiro desde que Erundina ainda estava no primário.

Claro que Erundina retira a patada a seguir: “Eu tenho amizade pela marta, tenho muito respeito por ela. É uma pessoa muito autêntica, fala aquilo que sente”. Nós sabemos, Erundina:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=MQXoJCDow2Q[/youtube]

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=x4lyJeNlcuQ[/youtube]

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=0KHDI90qlB8[/youtube]

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=R6c0cgUsFho[/youtube]

Flavio Morgenstern é redator e tradutor. Acha curioso que o Haddad não possa usar o slogan “Pior que tá não fica”. No Twitter, @flaviomorgen