Diretor preso pela PF usou senha do MEC para alterar dados de faculdade da família

Em conversas interceptadas pela Polícia Federal, Paulo Rodrigues Vieira diz que “tinha acesso direto ao gabinete” do ministro da Educação.

Informação do jornal Folha de São Paulo:

Paulo Rodrigues Vieira, o diretor da ANA (Agência Nacional de Águas) preso desde a última sexta sob acusação de tráfico de influência em órgãos do governo federal, obteve uma senha privativa de um funcionário do Ministério da Educação para alterar dados financeiros de uma faculdade de sua família.

A manipulação de parâmetros financeiros pode servir, em tese, para a faculdade conseguir mais recursos do governo em programas como o Prouni, de bolsas para estudantes pobres, e o Fies, de financiamento.

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O interlocutor de Vieira no MEC é Márcio Alexandre Barbosa Lima, da Secretaria Especial de Regulação do Ensino Superior. É a ele que Vieira pede: “Eu tô querendo entrar aqui no MEC (…) com sua senha. Me fala seu CPF”. Lima entrega todos os dados.

A família de Vieira é dona da Faculdade de Ciências Humanas de Cruzeiro, cidade de 77 mil habitantes no Vale do Paraíba, interior paulista.

Numa conversa entre Vieira e uma funcionária da faculdade chamada Patrícia, ela conta que já alterara os dados de 2009 para 2010. “Você pediu para eu alterar em 15% todos os números que aparecessem”, diz ela, sobre o passado. “Aumenta agora 20%”, ordena Vieira.

Um outro funcionário do MEC foi apanhando pela Operação Porto Seguro da PF. Trata-se de Esmeraldo Malheiros dos Santos, que era consultor jurídico, um cargo de confiança do ministro.

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O MEC descredencia cursos quando a faculdade é reprovada em avaliações.

No caso de Santos, a PF interceptou um e-mail de dezembro de 2010 no qual Paulo Vieira escreve: “Peça para a sua amiga fazer um bom relatório e logo (…)”, referindo-se a um parecer do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão que coordena a avaliação de instituições de ensino.

Ele conclui o e-mail de maneira enigmática: “Há 20 exemplares da obra à sua disposição na minha casa na próxima semana. É para a suas leituras de férias”.

“Exemplares da obra”, segundo a PF, era a maneira cifrada de o grupo falar de dinheiro. Vinte exemplares seriam R$ 20 mil.

O próprio Vieira foi funcionário do MEC. Antes de sua atuação na ANA, onde entrou em 2010 por indicação do ex-presidente Lula, ele foi gestor de controle interno na gestão de Tarso Genro (2004-2005) no Ministério.

Em conversa em 4 de maio deste ano, ele gaba-se: “Tinha acesso direto ao gabinete [do ministro]. Dava parecer sobre tudo porque estava dentro do gabinete”, diz.

Esmeraldo Santos teve também conversas com Rubens Vieira, irmão de Paulo que era da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e está preso em Brasília. Num dos diálogos, ele cobra R$ 1.250.

Reprovado no Senado, diretor preso pela PF só garantiu cargo por pressão de Lula

Indicação de Paulo Rodrigues Vieira foi rejeitada duas vezes pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Posse só ocorreu após forte pressão do ex-presidente Lula.

Reportagem de O Globo:

BRASÍLIA – Um dos alvos da operação Porto Seguro da Polícia Federal, o diretor da Agência Nacional de Águas (ANA) Paulo Rodrigues Vieira teve padrinhos poderosos para chegar ao cargo: o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sua secretária particular em São Paulo, Rosemary Noronha, e o ex-ministro José Dirceu. Mesmo assim, a aprovação da indicação para a ANA provocou muita polêmica no Senado. O nome de Vieira foi rejeitado em duas votações em 2009. Mas o Palácio do Planalto não aceitou a decisão. Pressionado pelo presidente, o então líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), pediu e o senador Magno Malta (PR-ES) recorreu à Comissão de Constituição e Justiça para que as votações em que a indicação fora rejeitada fossem anuladas. No ano seguinte, mesmo com parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) contrário à anulação da votação, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), colocou a indicação novamente em apreciação e, desta vez, Vieira teve o nome aprovado para dirigir a agência como queriam seus padrinhos.
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A indicação de Vieira contou com forte oposição dos funcionários da ANA e dividiu a base do governo. Os integrantes da agência queriam a técnica Gisela Forattini, que também teve seu nome defendido pelo então ministro do Meio Ambiente Carlos Minc (PT). A pedido do Palácio do Planalto, no entanto, o PMDB e o PR apadrinharam Vieira, que, na época, era conselheiro fiscal do banco Nossa Caixa, na representação do Banco do Brasil.

(grifos nossos)

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