Em entrevista, Caetano Veloso relembra que a esquerda brasileira hostilizava os gays

Recentemente, comentamos aqui o caso de Pedro D’Eyrot, ou Pedro Ferreira, que se consagrou como um dos integrantes da debochada banda Bonde do Rolê e, agora, é conhecido por ser um dos fundadores do MBL. A imprensa, especialemente a cultural, ainda tem dificuldades em compreender isso.

Ainda nessa toada, até mesmo Caetano Veloso foi procurado para, entre outras coisas, manifestar-se sobre o tema. E ele o fez em entrevista à Folha. Porém, mencionou um fato que muitos tentam esconder e tratam como se fosse uma mentira, mas é uma grande verdade: a esquerda brasileira era anti-gay.

Não que isso ocorresse apenas no Brasil, mas por aqui temos a riqueza do testemunho de quem viu a coisa acontecer e/ou estudou os “pensadores” que perpetraram esse tipo de bizarrice. A seguir, trecho da entrevista:

“Isso de gay conservador é muito mais frequente do que se imagina. A direita, pelo menos a direita liberal, sempre atraiu os gays. Quando eu era moço, a homossexualidade era tacitamente tida como um aspecto da decadência burguesa. Alguns conhecidos meus na Bahia eram veados e comunistas.

Mas antes de 1968 isso era um problema para eles. A desaprovação nem sempre era apenas tácita. Oswald de Andrade, por exemplo, vê os veados como degenerados. Como algo que contrasta com a perfeição moral do proletário, que está fadado a salvar o mundo. A direita transante de Pedro é interessante e enriquece esse ambiente de polarização simplificadora.” (grifamos)

Vale lembrar que o próprio Caetano, independentemente de sua sexualidade, também foi alvo da esquerda quanto a isso.

Em 1968, durante a apresentação de “É Proibido Proibir”, na qual realizou um discurso em defesa de Gilberto Gil (ele havia sido desclassificado) e da modernização da música, o compositor atacou a esquerda e o atraso estético desses movimentos (sim, eles já eram atrasados e esteticamente deploráveis naquela época) e, por conta disso, foi atacado de volta.

Como? Com gritos de “BICHA! BICHA! BICHA!”

De lá pra cá, a esquerda passou a ser mais “esperta” e se infiltrou nesses movimentos, fazendo de conta que defende as minorias. Mas bastaria ver quais países têm os mais representativos movimentos de gays, negros, mulheres e afins: os de história recente socialista ou os de tradição capitalista? Pois é.

Essa parte da entrevista de Caetano, claro, sumiu em meio a outras declarações. Mas nós fazemos questão de registrá-la com destaque e divulgar a todos.

“Caso Pedro D’Eyrot” (Bonde do Rolê) mostra que a esquerda cultural está perdida (e velha)

A notícia, em si, não chega a ser uma “notícia”. Não para o grande público, tanto menos para alguém abaixo dos 30 anos. Mas ainda assim atingiu em cheio a rapaziada hoje mais velha, já ostentando (ou tentando esconder) cabelos brancos, que acompanhava as novidades musicais nos idos de 2002/2004.

Em suma: descobriram que Pedro Ferreira, um dos fundadores do MBL, é na verdade Pedro D’Eyrot, também fundador do Bonde do Rolê, banda um tanto alternativa que surgiu há mais de uma década. Vale registrar que a entrevista é bem respeitosa, o problema foram as reações.

O espanto, claro, veio dos que então eram jovens (não, não são mais, basta consultar a certidão de nascimento). Para eles, é simplesmente IMPENSÁVEL que um artista de tal grupo seja anti-esquerda. Eles não admitem isso, não aceitam, não toleram. Não entra em suas cabeças, simples assim.

Uma das razões é o fato de terem se fechado cada vez mais, e mais e mais, sempre em si próprios, numa bolha de pensamentos políticos muito similares. Para essa parte da esquerda, especialmente essa mais “cultural”, com a rapaziada na faixa dos 30 e poucos, é impossível alguém ser “de direita” e ao mesmo tempo fazer música, fazer piada, ter vida sexual, não fazer parte de um estereótipo-espantalho que eles estabeleceram como modelo da pessoa anti-esquerda.

Perderam o bonde dos fatos, estão velhos, foram superados. E esse caso serve para que se deem conta disso de forma inequívoca.

Sim, claro que a “nova direita” tem de tudo. Independentemente do gênero, predileção ou produção cultural, atuação na sociedade, pendores sexuais/fetichísticos e assim por diante. A diferença é que a velha esquerda – que se pretende eternamente jovem – segue rotulando. E segue cada vez mais perdida.