Análise: “Fora, Temer”? Lula preferiria sua permanência – e a tática faz muito sentido

Segundo comentou hoje mais cedo O Antagonista, a estratégia de Lula quanto a Michel Temer não é a de que ele saia. Nada de “Fora, Temer”, portanto. Lula preferiria sua permanência, e a estratégia faz sentido por algumas razões bem simples e objetivas.

Desgaste x Popularidade

Hoje, o petista ainda tem uma rejeição altíssima. E, caso queira reverter isso, ele sabe muito bem que precisa de tempo. Para além disso, também sabe que sua própria popularidade ‘rivaliza’ com a de Temer – portanto, quanto mais o presidente ficar desgastado, maior é a chance (não é certeza, mas chance) de Lula faturar com isso.

Inviabilidade

A única chance de Temer sair é renunciando. Ele não fará isso e, com os votos que tem no Congresso, jamais será impichado. Caso caia, são convocadas eleições indiretas, a menos que aprovem a toque de caixa alguma Emenda Constitucional revertendo isso (de novo, não há votos bastantes). Lula sabe dessas informações todas. Uma eleição indireta poderia levar ao Planalto alguém com menos rejeição e/ou mais rapidez na aprovação de reformas.

Narrativa de Perseguição

Por fim, caso DE FATO Michel Temer seja destituído, a narrativa do PT ficará complicadíssima. Como dizer que somente o partido seria perseguido?

Enfim

Lula é um estrategista, aceitem ou não. E dos bons. Ele sabe muito bem de todas essas coisas. O papo de “Fora, Temer” é coisa da militância, apenas.

Enquanto a “alta MPB” segue na esquerda, músicos realmente populares fecham com Bolsonaro

No segundo turno, em 1989, Lula teve ao seu lado a maior conjunção artística de toda a história da democracia brasileira. Praticamente todos os grandes nomes da MPB apoiavam o petista contra Fernando Collor de Mello, que era apoiado por alguns cantores sertanejos, algo ridicularizado pelo jornalismo cultural (e político) da época.

Todos sabem quem ganhou a eleição.

O próprio Lula, que não é bobo, se elegeu em 2002 apoiado também por sertanejos, músicos efetivamente populares, independentemente do apoio sistemático-orgânico da “alta roda” da MPB. Tudo bem que teve um preço, mas valeu a pena. Ele foi eleito.

Para 2018, o cenário é o de sempre. Nenhuma força esquerdista consegue atrair as expressões artísticas DE FATO populares, mantendo-se bajulada apenas pela tal elite da MPB. Isso, como sempre, garante espaços considerados em colunas e artigos, mas não chega ao povo real.

Jair Bolsonaro, por sua vez, recebe apoio espontâneo de músicos que dialogam diretamente com as pessoas reas, do mundo real. São, claro, artistas no geral desprezados pelo esquerdismo – que, invariavelmente, só tolera músicas mais “do povão” quando são tratadas de modo quase folclórico, verdadeira alegoria com a devida distância mesmo física do povo real.

Até agora, quatro artistas efetivamente do povo declaram apoio ao deputado do PSC. São eles: Amado Batista, Buchecha, Eduardo Costa e Juliana Caetano (Bonde do Forró).

Não é difícil ver reações do tipo “quem é esse?” ou análises na base do “fulano causa polêmica ao apoiar Bolsonaro”, sem contar alguma nota de repúdio de esquerdista (como já aconteceu no esporte). Eles são e seguirão sendo assim.

Enquanto isso, apenas um dos lados fala diretamente ao povo e a seus anseios. A adesão de músicos populares é reflexo disso, e o apoio expresso tende a ampliar o alcance da coisa.

Crise na velha política: em nova pesquisa nacional, PT é rejeitado por 50% e PSDB por 47%

O DataPoder360, do portal Poder360, realizou pesquisa nacional nos dias 17 e 19 de junho, entrevistando 2.096 pessoas em 27 municípios. Com margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos, os resultados não foram dos melhores para a chamada “política tradicional”.

Ao menos, para os partidos que lideraram a corrida eleitoral de 2014.

O PT ‘lidera’ a rejeição, com 50% dos entrevistados dizendo que jamais votariam no partido. O PSDB não fica tão atrás assim, chegando aos 47%. Considerando tais números, fica ainda mais forte a tese do “outsider”, que necessariamente precisará mostrar-se à parte das grandes estruturas.

A eleição de 2018 seguramente será fora de todos os padrões tradicionais.

Direita x Esquerda: novo ranking mostra qual lado “domina” a maior rede social do país

Introdução necessária

Em primeiro lugar, considerando que redes sociais (assim como cantoras pop e séries de TV) também tem “fãs” empedernidos, é preciso citar os números. Desse modo, sim, a rede mais abrangente é, de longe, o Facebook. No mundo e no Brasil. Em escala global, a distância entre a rede de Mark Zukerberg e a queridinha da imprensa (Twitter) é abissal.

Enquanto uma está na primeira colocação, a outra é a décima, atrás até mesmo do Tumblr. E não é diferente no Brasil, embora os dados sobre o país não sejam divulgados de forma oficial pelo Twitter – o Facebook o faz – dados informais dão conta que o total de usuários do Twitter no Brasil seria menos de 20% dos do FB.

Passado o básico

Vamos ao que interessa, portanto. O jornal Gazeta do Povo elaborou um ranking de políticos e formadores de opinião sobre o tema no país, considerando somente perfis pessoais, e os resultados são realmente avassaladores.

No número de seguidores, este é o quadro:

Mas o realmente importante é o número de engajados e, também quanto a isso, a esquerda vai mal:

Pois é. Isso, claro, na rede que engloba 10x mais seguidores do que a outra em geral usada para notícias e estatísticas. Enfim, na rede em que de fato está a avassaladora maioria do eleitorado.

Operação Cifra Oculta, desmembramento da Lava Jato, atrapalha o petista Haddad para 2018

02A Operação Cifra Oculta, que é um desmembramento da Lava Jato, apura despesas da campanha do petista Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo em 2012. E ontem foram cumpridos mandados de busca.

Ocorre que o ex-prefeito da capital paulista vinha sendo cotado como eventual “Plano B” na hipótese de Lula não poder sair candidato. Isso ocorreria mais ou menos dentro de uma estratégia de apresentar alguém fora da “velha política”, embora não seja exatamente o caso, já que se trata não apenas de um ocupante do executivo da cidade de São Paulo, como também ex-ministro dos dois ex-presidentes petistas.

Agora, portanto, tudo se complica um pouco mais. Certamente, os novos acontecimentos atrapalham tais planos.

E a situação do PT é especialmente complicada, pois uma coisa é o discurso para a militância, outra é a realidade prática. Existem, obviamente, chances reais de Lula não poder candidatar-se e, desse modo, é natural que o partido trace estratégias paralelas. Uma das principais, porém, já exigirá novos argumentos.

Aguardemos, portanto. Mas lembrando da pesquisa recente que confirmou a tendência do eleitorado quanto a alguém “fora da política”.

Eleições 2018: nova pesquisa confirma a preferência por candidato fora da velha política

Em levantamento realizado entre os dias 25 e 29 de maio, ouvindo 2.022 pessoas em 26 estados e mais o Distrito Federal, o Instituto Paraná Pesquisas chegou aos seguintes resultados ao indagar sobre a preferência dos eleitores acerca do perfil de candidato que preferem:

Como se nota, e a diferença é expressiva, confirma-se a tendência de que sairá na frente o candidato não identificado com a “velha política”. Há razões concretas para isso, diante de toda a crise que assola os principais partidos.

Alguns, é claro, insistirão na fórmula de apoiar caciques.

Os de melhor estratégia, contudo, saberão apostar em um “outsider” para aproveitar a tendência. Dois nomes nesse sentido já surgem: João Doria e Jair Bolsonaro. Na esquerda, por enquanto, apensa Lula e Ciro Gomes aparecem com destaque, e ambos são nomes já consolidados no quadro político.

Aguardemos, portanto.

Novo “acordão” teria desistência de Diretas e candidatura, mas sem prisão pós 2ª instância

A tese soa conspiratória, mas faz sentido. Infelizmente. Vejam o que publicou O Angatonista, já voltamos:

“O acerto para garantir a impunidade
A coreografia da impunidade está clara:
— Lula joga a toalha das diretas já e até mesmo da sua candidatura em 2018;
— o STF volta atrás na prisão de condenados em segunda instância, o que salva Lula e também Michel Temer;
— Nelson Jobim, no ministério da Justiça, “dá um jeito” na PF.
O Brasil está condenado a fazer voos de galinha.”

Vamos por partes.

Diretas

É uma tese furada, que jamais prosperará. Porém, pode causar danos na esfera da comunicação, já que é desgastante aos parlamentares ficar o tempo todo negando seguimento de PECs pedindo “Diretas Já”. Ao povo, por óbvio, isso pega mal. A desistência dessa guerra, de certa forma, aliviaria a base governista.

Prisão pós 2ª Instância

O STF decidiu, pelo Pleno, que réus podem ser presos após condenação em 2ª Instância. A maioria dos Ministros continua favorável à tese – mesmo com eventual mudança de Gilmar Mendes. Será que o Supremo reverteria o entendimento em tão pouco tempo? Seria um desgaste e tanto. E é mesmo um engano, como ressalva o Antagonista, supor que isso beneficiaria apenas uma pessoa, já que muitos se encontram em situação similar.

Candidaturas

Não chega a ser uma medida “voluntária”, mas só um aspecto da coisa toda. Isso porque, havendo condenação em 2ª instância, há subsequente inelegibilidade, mesmo sem prisão. Pode ser uma saída “salomônia” do Supremo: mudar o entendimento sobre um dos aspectos, reforçando o outro como “compensação”. Ainda assim, será desgastante.

Jobim no Ministério

Nelson Jobim é próximo de Lula e de FHC e tem sido considerado para a Presidência como um nome de consenso. Não seria difícil, portanto, fazer parte do primeiro escalão. Daí ao “jeito” na PF, vai chão. E, seja por otimismo ou excesso de cautela, preferimos não apostar nisso.

Enfim…

Considerando ser o Brasil, a tese central do novo “acordão” faz sentido, sim. Infelizmente.

Rafael Rosset: “Precisamos falar sobre a (falha da) democracia”

Uma voz se ergue na esquerda, à medida que o cadáver do governo de Michel Temer se dissolve em cadeia nacional: o grito por “Diretas Já”. O fato de haver uma regra constitucional definida que estabelece a obrigatoriedade de eleições indiretas em caso de vacância dos cargos de Presidente e Vice nos dois últimos anos do mandato não resiste à idealização de que a vontade da maioria é soberana, sábia e capaz de consertar qualquer problema. Isso a despeito do fato comprovado de que Lula, Dilma, Dirceu, Aécio, Renan, Jucá, Collor e Cunha terem sido todos eleitos pela vontade popular para ocuparem os cargos que ocupam ou ocuparam, e que usaram para cometer as maiores atrocidades da história política brasileira.

Há pelo menos dois séculos, mas com mais intensidade após as duas guerras mundiais, os modernos romantizam a democracia ateniense como um ideal a ser seguido. Mas Platão sempre apontou que um vício inerente ao sistema democrático é que pessoas sem virtude exerçam o poder. Ademais, a liberdade irrestrita induziria um desrespeito às leis e aos direitos individuais. Aristófanes denunciava a demagogia inseparável da democracia, e como o sistema gerava brigas intestinas pelo poder, que ao final acabariam por destruir qualquer senso de comunidade.

Derrotada a democracia ateniense pela Guerra do Peloponeso e por uma série de crises econômicas, a cidade passou a ser governada pelos Trinta Tiranos. Durou pouco – em menos de um ano eles foram depostos por um exército popular. Mas o estrago já estava feito, e a desunião entre Atenas, Esparta e Tebas acabou fazendo com que toda a Grécia caísse nas mãos de uma potência estrangeira, governada por um tal de Filipe II.

Os “founding fathers” dos EUA conheciam bem a História. Em lugar nenhum na “Declaração de Independência”, nos “Artigos da Confederação” nem muito menos na Constituição se lê a palavra “democracia”. Desde o início a América foi pensada para ser uma República. Alexander Hamilton afirmou que “nós estamos agora formando uma forma republicana de governo. A verdadeira liberdade não é encontrada nos extremos da democracia, mas em governos moderados. Se nos inclinarmos demais à democracia, em breve seremos arremessados numa tirania, ou em alguma outra forma de ditadura”. Para Thomas Jefferson, “a democracia é nada mais que a ditadura das multidões, em que 51% das pessoas podem escravizar os outros 49%”. Benjamin Franklin disse que “democracia é dois lobos e um cordeiro votando sobre o que comer no almoço. Liberdade é um cordeiro armado discordando do resultado da votação”. Por fim, James Madison, o pai da Constituição norte-americana, ensinou uma lição cujo eco é perfeitamente audível no Brasil de 2017: “democracias tem sido espetáculos de turbulência e contenção; tem sido sempre incompatíveis com segurança pessoal ou com os direitos de propriedade; e tem em geral tido vidas curtas e mortes violentas”.

O republicanismo norte-americano não tem nada a ver com o exercício direto do poder político pelo povo, e sim com freios, contrapesos e equilíbrio de poder. Em sua versão original, o povo elegia diretamente seus “representantes” (no Brasil, seriam os deputados federais). O presidente seria eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral. Juízes da Suprema Corte seriam apontados pelo Presidente, e aprovados pelo Senado, ao passo que os Senadores seriam eleitos pelas legislaturas estaduais (nossas Assembleias Estaduais). O fato de as duas casas legislativas serem eleitas por diferentes constituintes frustraria o poder dos lobbies ao exigir uma combinação da maioria dos representantes do povo com a maioria dos representantes dos Estados como condição a se aprovar qualquer lei. Esse sistema, perfeito em sua concepção, começou a ser erodido com a aprovação da 17ª emenda, de autoria de um presidente democrata, Woodrow Wilson, que instituiu a eleição direta para membros do senado. Mas ele tem se mantido relativamente íntegro ao longo da história, e isso por conta de seu inegável sucesso.

As eleições nos EUA se processam da mesma forma há 229 anos. Apenas 9 dos 45 presidentes não terminaram seus mandatos, 8 dos quais por morte. Eles só tiveram dois processos de impeachment nesse período, e nos dois casos os presidentes foram absolvidos pelo Senado. A estabilidade política ajudou a produzir a nação mais próspera da história da humanidade.

Já no caso brasileiro, tentou-se implantar aqui um arremedo do sistema norte-americano (nem tomou-se o cuidado de adaptar alguns termos, utilizando-se por exemplo o nome “Senado Federal” para a Câmara Alta, que faz todo sentido em seu país de origem, em que existem “Senados Estaduais”, mas perde completamente o significado num país em que o único “senado” é mesmo o “federal”), partindo-se do pressuposto de que, desde que fosse o povo a decidir, o resultado final seria necessariamente ótimo. O sistema, contudo, começa a se desmanchar a partir da constatação de que nossa democracia representativa não é nada representativa, como já apontei em outro artigo.

A título de exemplo, Jorge Viana chegou ao Senado Federal com 205 mil votos, eleito pelo Acre. Se for escolhido presidente da casa, pode inclusive integrar a linha de sucessão e tornar-se Presidente da República, ainda que em exercício. Já Eduardo Suplicy recebeu 6,17 milhões de votos em 2014, e foi chutado do Senado. Ano passado, elegeu-se vereador em São Paulo. Com 301 mil votos. O máximo que se espera que ele faça é se jogar na frente de algum trator durante alguma desocupação, caso em que todos nós aqui estaremos obviamente torcendo pela vitória do trator.

A despeito da distorção escandalosa, o princípio democrático aqui é cláusula pétrea. Mas qual seria então a alternativa?

A alternativa é QUALQUER sistema de governo que funcione. Pode ser uma monarquia parlamentarista como o Reino Unido, pode ser uma república presidencialista como os EUA, pode ser até uma democracia direta como a Suíça, ou qualquer coisa que ainda não existe e a gente invente. A democracia liberal como sistema virou esse semideus que não pode ser questionado nem discutido: qualquer um que o faça é acusado de ser partidário de ditaduras (e a ironia é que há regimes ditatoriais em que se goza de mais liberdade individual e qualidade de vida do que em muitas democracias – você preferiria viver na ditadura de Cingapura ou na democracia venezuelana?). Para Aristóteles, havia governos bons de um, de poucos e de muitos, e governos ruins de um, de poucos ou de muitos. Avaliava-se pela qualidade dos que exerciam o governo, não pela quantidade dos que participavam do governo.

É verdade que os dois primeiros exemplos que eu dei acima são democracias. Mas são democracias extremamente controladas. Tanto no Reino Unido quanto nos EUA o voto é distrital puro e facultativo, e em ambos o Chefe de Governo não é diretamente escolhido pelo povo. No caso do Reino Unido, obviamente, nem o Chefe de Estado é escolhido diretamente. Também na França vigora o voto distrital puro em conjunção com o semipresidencialismo: o povo elege diretamente o presidente, mas ele divide o poder com um primeiro-ministro que é responsável por todos os assuntos de política interna. A vantagem desse sistema, que chegou a ser cogitado por aqui no auge da crise política do governo Dilma, é que em caso de crise institucional derruba-se o gabinete e não o presidente, o que é muito mais simples e menos traumático.

Na realidade, a maior parte dos países desenvolvidos adota algum tipo de filtro entre a vontade popular e as instâncias decisórias da nação. Em lugar nenhum “a voz do povo é a voz de Deus”.
O que é imperativo é derrubar esse tabu de que o que a maioria decide é necessariamente melhor. Pra que isso seja verdade é preciso uma conjunção extremamente improvável de fatores: o sistema partidário deve oferecer opções sólidas ao eleitor (Dilma vs. Aécio já nos desqualifica de cara), eleitor esse que deve ser provido de um bom grau de cultura política e boa vontade em participar do processo político. Mesmo nos países ditos de primeiro mundo essa reunião de fatores não é comum, e o Brasil é provavelmente a única grande nação a partir do pressuposto de que TODO MUNDO com idade entre 18 e 70 anos tem condições de tomar decisões informadas acerca de temas complexos como macroeconomia, política externa e direitos fundamentais, quando a esmagadora maioria sequer consegue administrar a própria vida.

A voz do povo não é a voz de Deus, e com uma frequência alarmante pode ser a própria voz do capiroto.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

Rafael Rosset: “A república dos marqueteiros”

O que emerge dos depoimentos dos publicitários João Santana e Mônica Moura não é um simples esquema de corrupção. É um projeto continental de poder altamente concertado.

Ambos trabalharam em praticamente todas as campanhas desde a redemocratização, e em assim sendo tem conhecimento profundo das entranhas do sistema. Não só isso, mas a partir de 2006, com o sucesso na campanha de reeleição de Lula a despeito do escândalo do mensalão (em que o casal conseguiu a proeza de ROUBAR votos de Alckmin no segundo turno em relação ao primeiro), e a fama recém-adquirida de milagreiros, o casal responsabilizou-se pelas campanhas de quase todos os governos “amigos” na região, incluindo Venezuela, Argentina, Panamá, República Dominicana e El Salvador. Tudo ajambrado e coordenado pessoalmente pela trinca petista formada por Lula, Palocci e José Dirceu, inclusive no que tange ao financiamento.

Mesmo antes disso, João Santana atuou para recuperar a imagem do ex-presidente no auge da crise. Programas como PAC e Minha Casa Minha Vida, criados em 2005, não surgiram como políticas de governo, e sim como “produtos” inventados sob medida numa agência de publicidade para criar a ilusão de que o Brasil tinha um governo funcional, e não uma quadrilha no poder. Vendia-se Pan-americano, Copa do Mundo, Olimpíadas, Trem Bala, tudo como parte do ideal de Pátria Grande, uma grande América Latina unida, solidária e anti-americana, mas que nunca passou de uma grande, enorme, cortina de fumaça: os quase R$ 4 bilhões gastos com o Pan de 2007 foram jogados no lixo, eis que nada se aproveitou para as Olimpíadas. Há 3 anos, estávamos celebrando a “Copa das Copas”. Gastamos R$ 8,5 bilhões SÓ em estádios novinhos, metade dos quais construídos em cidades sem times de futebol na primeira divisão. 3 das cidades-sede não tem times nem na segunda divisão. Em Manaus, o público de um ano, somados todos os jogos de todos os times locais, não enche os 55 mil lugares da Arena da Amazônia. A Arena Pantanal e o Estádio Nacional vivem de locações para times de fora. Na primeira, o jogo de maior público já registrado foi Ponte Preta vs. Palmeiras. Apenas a fase de projeto do trem bala São Paulo-Rio, que deveria ter ficado pronto a tempo da Copa de 2014, já custou mais de R$ 1 bilhão, sem que sequer um dormente tenha sido deitado.

Era tudo propaganda de Estado.

Fato é que o PT montou e exportou uma máquina eleitoral azeitada por montanhas de dinheiro público e privado. Na campanha presidencial de 2006, por exemplo, Monica Moura afirmou que a Odebrecht sozinha arcou com R$ 13 milhões dos R$ 24 milhões pagos por fora. A empreiteira ainda financiou campanhas municipais, como a de Marta Suplicy em 2008. Em 2010, a aliança que elegeu Dilma congregou 12 partidos, todos urubus gravitando em torno do centro do poder em busca de acesso a indicações e verbas públicas, tudo regiamente financiado por empreiteiras, interessadas em vultosos contratos de infraestrutura, sempre sobre faturados para remunerar as propinas pagas, num círculo vicioso perverso para lesar o cidadão pobre.

Dinheiro nunca faltou. Segundo levantamento da Folha de São Paulo, somente o Partido dos Trabalhadores recebeu R$ 324 milhões da Odebrecht entre 2009 e 2014. A simbiose era vantajosa para todos os lados: as empreiteiras elegiam políticos que lhes garantiriam contratos, que a seu turno eram superfaturados para pagar pelas doações via caixa 2 e pelas propinas. No fim, as empreiteiras não pagavam nada: todo esse esquema era financiado pelo contribuinte, via sobre preço de obras públicas.

E o contribuinte brasileiro não financiava apenas a corrupção doméstica. Na América Latina, Maurício Funes elegeu-se presidente de El Salvador em 2009 com a “colaboração” de R$ 3 milhões da Odebrecht, intermediados por Antonio Palocci e campanha assinada por João Santana. O casal responsabilizou-se pela reeleição de Chaves em 2012, e eleição de Maduro em 2013. Segundo Monica Moura, o então chanceler Nicolás Maduro fazia os pagamentos em dinheiro vivo na própria chancelaria. Empreiteiras brasileiras doavam milhões pelo projeto continental de poder: a Odebrecht doou R$ 7 milhões, a OAS outros R$ 2 milhões. João Santana ainda elegeu Danilo Medina na República Dominicana, que derrotou o ex-presidente do país, Hipólito Mejía. E ainda assinou a campanha de José Eduardo Santos, em Angola. Todos esquerdistas.

Claro que a atuação da máquina eleitoral petista não ficava adstrita a eleições presidenciais. O casal foi determinante em inúmeras eleições legislativas no Brasil e em outros países latino-americanos, sempre ajudando a criar a hegemonia referida por Antonio Gramsci. Além disso, é evidente que boa parte dessa dinheirama toda servia para lubrificar Organizações Não Governamentais, Movimentos Sociais e veículos “alternativos” de mídia, que mantinham a militância constantemente suprida de narrativas. A “luta” era do povo, das mulheres, dos negros, dos gays, contra os ricos, os brancos, os homens, os banqueiros, o imperialismo estadunidense, etc. Programas de transferência de renda, não dos ricos aos pobres e sim da classe média remediada aos miseráveis, garantiam o panis, e dinheiro de empreiteiros e banqueiros asseguravam o “circensis” do poeta romano Juvenal. O círculo se completava com o apoio dos “idiotas úteis”, expressão muitas vezes atribuída a Lênin, e utilizada para descrever jornalistas, professores, artistas e intelectuais ocidentais que pensavam ser aliados do comunismo soviético mas eram na realidade cinicamente usados para fomentar os ideais revolucionários no Ocidente. Eram idiotas porque seriam eles, claro, os primeiros a ser descartados em caso de vitória da Revolução, como de resto a história demonstra na extinta URSS, na China de Mao e na Cuba de Fidel e Che.

Repita-se, o que sobra dos depoimentos de Monica Moura e João Santana, e que será certamente ampliado com a aguardada colaboração premiada de Palocci, não é um esquema de corrupção: É UM PROJETO DE PODER CONTINENTAL.

Em 1941 Bertold Brecht escreveu uma peça intitulada “A Resistível Ascenção de Arturo Ui”, um libelo contra os fascismos e totalitarismos que ameaçavam, naquela altura, destruir o mundo. A peça conta como um cartel de verdureiros arregimenta um gângster na Chicago dos anos 30 (Arturo Ui) para que ele obrigue os quitandeiros a comprarem apenas a couve flor que eles produzem, em troca de um percentual dos lucros. Arturo Ui se aproveita de sua posição para também extorquir os quitandeiros, vendendo-lhes “proteção” em troca de um percentual de seus lucros. O gângster alia-se a políticos tradicionais e constrói uma rede de proteção em torno de si, contando com o apoio de juízes e cooptando a imprensa, com violência e sedução. Lentamente ele expande territorialmente seu poder e influência, ao ponto em que se torna hegemônico e virtualmente irresistível. Vide o que passou no Brasil e adjacências, com a nomeação de juízes ideologicamente alinhados nas supremas cortes, fechamento de jornais e cooptação da classe artística, e de repente o gângster é um personagem familiar a todos nós: tem o olhar de Maduro, a boca de Rafael Correa, o nariz de Evo Morales, as orelhas de Fidel Castro e o sotaque inconfundível de Luis Inácio Lula da Silva.

Bertold Brecht era um socialista convicto, decerto. Mas houvesse ele vivido para conhecer Lula e o PT, talvez revisse algumas de suas posições.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

PF faz ação na fronteira e políticos correm para o aeroporto pensando ser da Lava Jato

Eis um retrato do atual estado das coisas em nosso país. Neste caso, fotografia tragicômica: políticos de Roraima souberam que a Polícia Federal lá estaria e correram para o aeroporto, pensando tratar-se da Lava Jato.

Mas não era nada disso, já que se tratava de uma ação de proteção da fronteira. Quem relata o caso é a Coluna do Estadão.

A comédia dessa cena no mínimo pitoresca e a tragédia de nossa classe política.