Pós-verdade: foto de Trump com o Papa obviamente não representa o “clima” de todo o encontro

Embora esteja na moda, a expressão “pós-verdade” costuma ser equivocadamente conceituada. Ao contrário do que alguns dizem, não se trata meramente de “mentiras espalhadas”, mas sim de ambientes em que determinadas versões valem mais do que os fatos. Exemplo clássico: torcida de futebol. Pouco importa se foi gol ou não, o que importa é a versão melhor para o time.

Em síntese, é isso.

E Donald Trump, há tempos, é o principal alvo – e às vezes sujeito – desse tipo de procedimento. Recentemente, em sua visita ao Vaticano, houve episódio desse tipo. Desta vez, por conta de uma foto com o Papa Francisco (acima, ilustrando o post).

A ideia não seria apenas mostrar o desconforto do Papa, mas sim a oposição de figuras de acordo com o julgamento da imprensa: uma ruim, uma boa; e a parte benevolente mostrando-se contrariada pelo protocolo. Para além disso, também há a intenção de deixar esse clique como MARCA e, assim, todo o encontro seria imaginado dessa forma.

Mentira, claro.

O Papa, evidentemente, riu diversas vezes. Trump também chegou a ficar sério. Porque isso é o NORMAL. O clique “famoso”, que mostra uma fração de segundo, tem puro e simples objetivo de atuar na “guerra de informação”, sendo propagado nas bolhas pós-verdadeiras em que isso é interessante.

Como a web é plural, por assim dizer, não faltou quem juntasse outras fotos – que, é bem verdade, não ganharão a mesma fama. Mas aí estão:

E houve até quem lembrasse do ex-Presidente Barack Obama:

Pois é.

A “pós-verdade” está na moda, mas nem todos sabem realmente do que se trata

Já de início, é importante deixar bem claro: pós-verdade não é a mesma coisa que “fake news”. E não são apenas conceitos distintos, mas circunstâncias/atos/fenômenos extremamente diferentes. Podem ou não estar ligados, mas muitas vezes existem forma autônoma.

Fake News

É a tradução literal, mesmo: notícia falsa. Isso existe desde que o mundo é mundo, há vários episódios da história da humanidade (e também das mais diversas mitologias) em que lorotas foram noticiadas e isso causou impacto relevante.

Mesmo na internet, o fenômeno é antigo. A ponto de alguns sites, também há vários anos, tornarem-se especializados em desmentir boataria digital. O e-farsas, por exemplo, está no ar desde 2002. E, podem apostar, as pessoas já contavam mentiras antes disso.

Pós-Verdade

Não se trata, portanto, da disseminação de notícias falsas. Essa é a confusão mais comum, a ponto de ser corriqueiro alguém dizer que estariam “espalhando pós-verdade”. Sério, não é nada disso.

Em 2016, o dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano, justificando que, embora seja expressão antiga, seu uso aumentou em 2000% no ano passado. Sim, quem usa/usava eram jornalistas, no geral alinhados à esquerda, e foi entre eles que tal aumento se deu; evidentemente, o povo normal, em suas conversas nos bares ou meios de transporte coletivo, não usava (nem usa) tais termos.

Foi uma escolha política, obviamente, e a complexidade viria na hora da conceituação. Eles explicam que o “pós” não tem um significado meramente temporal (de “após”), mas sim de superação; desse modo, a verdade deixaria de importar, sendo superada pelo desejo de um grupo quanto ao que QUEREM como verdadeiro. Em suma: a realidade dos fatos deu vez à “verdade” que as pessoas desejam como real.

E esse é um ponto crucial do ambiente de pós-verdade: não se trata apenas de ludibriar os outros com notícia falsa, mas de PARTICIPAR DO PROCESSO de superação da verdade, tratando mero desejo como algo concreto. E os integrantes do grupo, como em todas as seitas fanáticas, acreditam piamente no simulacro.

Também de forma expressa, o Oxford atribui o fenômeno à direita, que teria largado de mão o mundo real e passaria a tratar seus desejos como verdades. Mas esse tiro saiu pela culatra: rapidamente, descobriu-se que o ambiente pós-verdadeiro mais dissonante do mundo concreto é justamente a bolha canhota. Os que se arvoraram a estudiosos do problema não perceberam porque – pois é, pois é – estavam eles próprios dentro de uma bolha.

Fanfic e Pós-Verdade

O erro de ligar a pós-verdade às fake news fica ainda mais crasso diante desse outro exemplo: a “fanfic” ideológica. A quem eventualmente desconheça o conceito, segue explicação simples: uma história fictícia é disseminada como se fosse verdade, a ponto de até mesmo jornais e revistas darem destaque. Depois, MESMO QUANDO CONFIRMADA A MENTIRA, muitos dos disseminadores se justificam na base do “mas isso acontece mesmo” ou “então quer dizer que nunca acontece algo assim?”. Com um adendo: não raro, o expediente já nasce com o objetivo de dar relevância à pauta.

Isso é a pós-verdade em estado puríssimo. Já não importa mais se algo DE FATO aconteceu, o importante é usar aquilo – desejando ser verdadeiro – para passar mensagem, bradar tópicos de agenda ideológica, justificar movimento X, Y ou Z e assim por diante. Esse é o exemplo mais próximo do que seria ambiente pós-verdadeiro.

Trump

Citado na explicação do próprio Oxford, ele foi por muito tempo tratado pela esquerda como o símbolo mor da pós-verdade. Mas, assim como no caso das “fake news”, o feitiço acabou atingindo o feiticeiro (no caso, a velha imprensa). E são hoje os trumpistas que apontam as bolhas pós-verdadeiras do outro lado.

Exemplo recente interessante: o “Dossiê Trump”. Alguns veículos chegaram a divulgar, jornalistas não totalmente imunes a ter alguma tendência falaram em impeachment… e descobriram ser algo falso. Disso, todos sabemos, e morreria por aí apenas como “fake news”.

Mas agora entra a pós-verdade. Mesmo diante do desmentido, MUITOS – sim, muitos – passaram a defender a divulgação, ou relativizar a coisa na base do “mas pode ser sim verdade”, entre outras frases pra lá de curiosas. Em suma, pouco importa o que de fato houve, diante do DESEJO de que determinada coisa tenha havido. O toque final é a transição do ambiente pós-verdadeiro para a pura estratégia política: seguir com a mentira por acreditar num efeito final positivo, mesmo sendo trapaça.

Bolhas

Isso sempre existiu e é um comportamento humano pra lá de natural: não gostamos de passar nervoso. Sim, olha só, odiamos ficar irritados! Que descoberta, não é mesmo? E, nesses casos, preferimos evitar o fato que nos irritou, substituindo-o por algo agradável. E isso inclui pessoas, obviamente.

Na vida real, não é tão fácil assim. Por fatores da vida, muitos deles dificilmente modificáveis, somos obrigados a frequentar estabelecimentos no bairro, fazemos trajetos em que determinadas pessoas estão presentes com frequência, temos pessoas desagradáveis como colegas profissionais e também vizinhança, e quase nunca conseguimos fazer algo para nunca mais encontrá-las – e, ainda que façamos, nada impede que outras apareçam.

Mas na internet a coisa é diferente, especialmente com as redes sociais. É em razão disso que surgem as bolhas, e vale tratar de dois casos da esfera virtual, e um terceiro no mínimo curioso (mas também importante):

Voluntária/Deliberada

Todos nós (sim, todos), aos poucos, vamos eliminando das redes sociais aquelas pessoas mais chatas que, não raramente, são aquelas de quem mais discordamos. A bolha não acontece de uma hora para outra; ela resulta desse processo, que leva tempo. E vale para time de futebol, música e obviamente política. Assim, por nossa ação deliberada, vamos pouco a pouco nos fechando em diversas bolhas temáticas/ideológicas.

Algorítmica

Não bastasse nossa ação voluntária, há também os “algoritmos” das redes, que selecionam o conteúdo de nossas timelines. O objetivo de uma rede é que todos interajam mais e mais, de modo que elas tendem a mostrar o que é de nosso (ou melhor, o que “acreditam” ser de nosso interesse). Assim, aparecem posts das pessoas com quem mais interagimos (sim, são quase sempre as pessoas que nos são mais agradáveis e, eureka!, com quem geralmente concordamos). Desta feita, mesmo não bloqueando ou deixando de seguir de maneira deliberada, aqueles de quem discordamos vão sumindo aos poucos.

Algumas pessoas, diante disso, passam a acreditar que TODO MUNDO pensa da mesma forma, dada a hegemonia em suas redes. Na verdade, por óbvio, é apenas um grupo, devidamente selecionado (por ação direta ou efeito algorítmico). Não por acaso, quando 99% do mundo pensa de forma diferente daquela expressa numa bolha, os integrantes de tal redoma chegam a ficar assustados com a dissonância – o choque do fanático quando percebe que o resto do mundo não partilha de suas crendices (e isso muitas vezes leva à agressividade).

Geográfica

Não é a bolha existente na web, mas sim no mundo físico. E pode ser exemplificada na seguinte imagem:

Este é o mapa do resultado eleitoral dos EUA da revista Time. Os grandes veículos de comunicação, de alcance mundial e dos quais os correspondentes de todo o mundo pegam notícias, estão em grande maioria nos pontinhos azuis.

Tais pontos correspondem às cidades onde Hillary venceu e, por óbvio, aquelas onde Trump não era exatamente amado pela maioria. Todos ali acreditavam que ele iria perder, afinal SAÍAM PARA AS RUAS e viam que não existia apoio popular massivo. Decretaram sua derrota sem medo de cometer equívocos. E deu no que deu.

Soma-se à bolha geográfica o desejo de muitos, especialmente nos meios de comunicação, de que aquilo fosse mesmo o retrato de todo o país. O impacto da realidade foi forte, de modo que a simples negação do mundo real não foi fato isolado. Até hoje, aliás, vários insistem nisso – e aqui vale reiterar a analogia com as seitas fanáticas.

Ah, sim: isso não acontece apenas nos EUA, no âmbito nacional, mas em vários outros lugares do mundo – e o Brexit é outro exemplo interessante.

Solução: individual, não coletiva

Em suma, você pode fazer sua parte, informando-se nas mais variadas bolhas, ponderando tudo e descobrindo o que é narrativa, o que é versão, o que é desejo, o que é torcida e o que é FATO de verdade. Um dos caminhos fundamentais é não ficar empolgado com uma notícia que endosse seu pensamento. Sim, a tendência é alastrá-la na mesma hora, mas é aí que está o erro. Segure esse ímpeto e trate de checar a fonte.

Mais que isso: também a fonte-da-fonte. Citaram uma pesquisa? Veja qual é essa pesquisa, quem foi entrevistado, qual o instituto, se os números correspondem às proporções corretas e assim por diante. Apareceu um “especialista”? Vá atrás da obra, de quem é ele, de qual apito político toca e assim por diante. É chato, mas é o único jeito.

E não adianta ser otimista, isso não se dará no plano coletivo. A tendência humana é sempre buscar esse tipo de conforto, voluntária ou involuntariamente; para piorar, hoje ainda há os algoritmos, e uma rede social que traga coisas desagradáveis nunca fará sucesso, então a tendência mais óbvia é que também isso se acentue.

Enfim

“Fake news” é uma coisa, pós-verdade é outra. E, quanto a esta última, não apenas estamos sujeitos a seus efeitos como quase sempre também somos dela culpados, por ação deliberada ou resultado de nossas interações nas redes sociais. Os ambientes pós-verdadeiros (bolhas) existem em toda e qualquer comunidade ou grupo que concorde sobre um tema e no geral expurgue os discordantes; e a tendência, pelos fatores já expostos, é de tudo piorar cada vez mais.

Há saída individual, não sem esforço demasiado e contínuo, mas seria ingênuo acreditar em solução coletiva. Mais do que nunca, faça sua parte. E desconfie de tudo.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde escreve às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

Condenar as mentiras da imprensa não é ser “pró-Trump”, mas sim defender a verdade

Não foram poucos os episódios de cobertura pra lá de distorcida, e em muitos casos simplesmente mentirosa, durante a campanha eleitoral nos EUA. A “desculpa” quanto à utilização do expediente era algo do tipo “ele é péssimo, seu governo será um inferno, então não é errado fazer de tudo para evitá-lo”. E fizeram quase tudo, mesmo. Porém, deu errado.

Em vez de parar, resolveram intensificar a tática comprovadamente furada – demonstrando a um só tempo a existência das bolhas ideológicas pós-verdadeiras e a idiotice avassaladora dos que nelas habitam.

Serve de exemplo o episódio do “dossiê trump”: segundo o “documento”, ele seria chantageado pela inteligência russa, já que tinham em mãos alguns filmes de estripulias íntimas num hotel russo, inclusive em práticas fetichistas de nível “avançado”. De alguma forma, isso chegou às mãos de políticos americanos e eles encaminharam para seus próprios órgãos de inteligência.

Foi nessa fase que entrou a gloriosa mídia. Um veículo forte na web e uma emissora de alcance internacional deram a história. O primeiro trouxe o tal documento; a outra apenas mencionando, naquelas de “esta história ainda não está confirmada”.

A esta altura, como todos já sabem, era lorota. O “dossiê” foi refutado de forma até meio patética e a coisa ganhou ares de tragicomédia quando um grupo reclamou a autoria e era no fim das contas uma pegadinha. Vexame total.

Mas o que se viu em seguida foi um festival de bizarrices. Bem poucos pediram desculpas, o resto resmungou, houve quem preferisse o silêncio, mas chamou atenção o tamanho da turma ENDOSSANDO a coisa toda, mesmo sendo mentira. Para eles, Trump seria um mal maior, de modo que qualquer expediente se tornaria válido para atacá-lo – até a mentira. Outros buscaram mais discrição na trucagem, partindo para o “bom, mas pode ser verdade, não é mesmo?”.

E quem apontasse (e aponta) esse tipo de traquitana era (e é) chamado de DEFENSOR DO TRUMP. Os diálogos seguem mais ou menos o seguinte esquema:

– Viu que tão chantageando Trump, o negócio dos filmes em que ele e prostitutas aprontam num hotel da Russia?
– Mas isso é mentira.
– Não é.
– É sim, olha aqui (vai o link).
– Bom, mas poderia ser verdade.
– Pois é, mas é mentira.
– Peraí, você tá defendendo o Trump? Então acha que ele é uma boa pessoa? Não acha que ele também já contou mentira?

E então, ao condenar a difusão de lorotas como algo razoável, o interlocutor se torna DEFENSOR DE TRUMP. É mole?

Mas isso não ocorre por acaso. Trata-se de tática velha da esquerda: vincular o adversário (ou potencial adversário, ou ainda opositor em algum debate) a figura repugnante. O propósito é mesquinho, daí o sucesso entre os canhotos: buscam fazer com que a pessoa ganhe todos os defeitos (verdadeiros, exagerados ou inventados) atribuídos à figura maligna. E também isso hoje em dia não tem funcionado.

Já as mentiras e distorções narrativas para atacar adversários ideológicos, vale dizer, deram certo durante muitos anos, pois um bom truque pode ser eficiente mesmo ao longo das décadas. O problema é quando se descobre como o mágico faz aquilo. Diante de uma plateia informada do procedimento, toda tentativa de repetição se transforma em episódio patético.

É esse o desespero deles, hoje. A meninada, com tempo de sobra na web e talento considerável, acha as fontes apontadas em questão de segundos e imediatamente as matérias, textos, posts e afins recebem contestações  e questionamentos os mais variados, num tipo de reação impensável poucos anos atrás.

Fazem isso por que amam Trump? Claro que não. Na grande maioria das vezes, a reação decorre do ódio à mentira. E são esses leitores, ou potenciais leitores, que a grande imprensa acaba perdendo a cada vez que repete tal prática.

Seria simples evitar isso, mas parece ser difícil abrir mão de velhos truques, mesmo quando descobertos. Uma pena.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

Com as notícias falsas, a grande imprensa apenas fortalece Trump e queima o próprio filme

Antes de entrar no mérito desse tema, é preciso tratar do contexto em que tudo acontece. Em primeiro lugar, o esquerdista parece ter como missão divulgar o esquerdismo onde quer que trabalhe. Pode ser numa sala de aula, pode ser no departamento de marketing de multinacional e, claro, também num grande veículo de comunicação. Desse modo, como acontece em qualquer seita congênere, ele aproveitará cada momento de mínimo destaque para passar a “palavra” adiante.

Além disso, e este parece um traço ainda mais deplorável, essa turma não vê problemas em trapacear para o bem da causa. Ao contrário, considera positiva a mentira que “lance luz” sobre alguma bandeira da agenda esquerdista. Como quando torcem fatos para que uma notícia pareça fundamental a certa causa, as coisas depois se comprovam diferentes, e mandam algo do tipo “ah, mas isso acontece muito, valeu chamar atenção”.

E assim chegamos a Trump.

Para dizer o mínimo, a cobertura eleitoral foi vergonhosa, nos EUA e no resto do mundo. Por mais que Donald Trump seja alguém repleto de defeitos, as matérias descaradamente sujas, sobretudo de veículos grandes, acabaram fazendo com que os defeitos patentes do então candidato ficassem, pouco a pouco, num segundo plano. Afinal, por mais que ele fosse uma pessoa terrível, era mais do que evidente a distorção de fatos e notícias para prejudicá-lo.

Resultado prático dessa brilhante tática de comunicação: o vilão virou vítima (acontece muito, aliás). E, acima de tudo, é preciso ser muito incompetente para conseguir que o dito cujo, com toda sua postura sempre agressiva, fique também na posição de “alvo de ataques”. A vida na “bolha” canhota e a empáfia gigante por parte desses jornalistas propiciaram essa verdadeira façanha.

Mesmo assim, ou até por causa disso, ele se elege, e muito “especialista” que cantava a vitória de Hillary passa vergonha mundial. Alguns poderiam supor que, até mesmo pelo fiasco (não tanto por arrependimento ético), a grande mídia pararia com a distorção absurda, não é? Mudariam a estratégia, certo? Errado. A toada segue idêntica.

Dias atrás, por exemplo, divulgaram um “dossiê” que comprovaria pesadíssimo escândalo sexual, com direito a práticas fetichistas e tudo mais. A acusação central seria de que a Rússia mantinha Trump como refém de chantagem, pois teria em mãos os vídeos dessas farras. O roteiro, por si, seria digno de muita desconfiança; mesmo assim, muitos divulgaram como verídico um documento fajuto. A farsa foi rapidamente comprovada e, para piorar, parece ser pegadinha de um fórum online.

Pararam? Não pararam. Numa mistura de arrogância de quem não reconhece o erro e a persistência tática que tem fracassado o tempo todo, esses mesmos veículos adotaram posturas do tipo “nada foi comprovado ainda” ou “o melhor foi mesmo divulgar”. Patético. Mas o pior (sim, a coisa piora) veio depois: MUITOS colunistas e formadores de opinião acham que foi “importante” e/ou “positivo” levantar a história, mesmo falsa. Sim, é exatamente a tal pós-verdade que tanto criticam, e aplicada a um caso concretíssimo de “fake news”.

Tudo que conseguiram foi mostrar que jogam sujo, colocando de novo Donald Trump como vítima dos grupos de mídia, ainda por cima oferecendo ao republicano uma “narrativa” agora imbatível. Na hipótese de surgir algum “dossiê verídico”, ou qualquer relato descrevendo fatos parecidos, ele ganhou a inapelável saída de dizer que estão requentando uma “mentira comprovada”, relembrando o documento falso divulgado como verdadeiro. E ganhará a batalha com relativa facilidade.

Esse expediente, portanto, é a um só tempo sujo e burro. Sujo porque atropela a verdade e burro porque dá errado. A ideia é prejudicar Trump, mas o uso da trapaça faz com que as pessoas não fiquem contra ele, mas sim contra a imprensa – que, no frigir dos ovos, perde mais e mais a credibilidade já bem discutível. E a insistência no jogo sujo parece ainda mais suicida quando se constata que a influência eleitoral já foi para o saco.

Por fim, vale lembrar que isso não se restringe a Trump ou aos EUA; fazem a mesma coisa por aqui e o resultado é similar. Nestes novos tempos, com as redes sociais cada vez mais fortes, as notícias falsas/distorcidas não chegam a vingar e, além de queimar o próprio filme, os veículos acabam ajudando quem queriam prejudicar. Provavelmente, só acordarão para isso tarde demais.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde publica suas colunas às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

Dicionário Oxford se rende ao esquerdismo bocó e escolhe um embuste como “palavra do ano”

O Dicionário Oxford da Língua Inglesa é uma verdadeira instituição. Ele foi publicado pela primeira vez no ano de 1884 e por óbvio é uma das mais fortes referências quando se trata desse idioma.

Assim, imagina-se que estaria imune aos modismos ideológicos mais imbecis, certo? Não exatamente.

Em seu já clássico ritual de escolher a “palavra do ano”, a publicação resolveu atribuir a 2016 uma expressão carregadíssima da mais pesada tinta do esquerdismo: pós-verdade (post-truth). Sim, já começa com o fato de que “a palavra” do ano é na verdade um substantivo formado por DUAS palavras, mas um detalhe como este jamais atrapalharia a missão ideológica.

Vamos lá. A tal “pós-verdade” é um embuste. Nada mais nada menos que um embuste esquerdista.

A grande mídia, com aplauso dos intelectuais canhotos, passou a adotar essa expressão como uma desculpa para suas sucessivas derrotas. Afinal, disseram que não rolaria o Brexit, e ele aconteceu; falaram que Trump nem mesmo seria nomeado candidato, e não apenas o foi como ainda por cima faturou.

Não é necessário pós-doutorado para perceber que a imprensa está sem relevância. Mas ela não dá o braço a torcer e diz que as coisas seguiram um rumo diferente porque “espalharam mentiras”. Isso mesmo. Uma grande e complexa rede de divulgação de lorotas fez com que as maiores democracias do mundo decidissem contra o esquerdismo.

É demais. E o espanto é ainda maior pelo fato de o Dicionário Oxford cair na esparrela.

Ao fim e ao cabo, “pós verdade” é quase o CONTRÁRIO do que alegam significar. A mídia sempre falou sozinha e nunca teve problemas para impor suas versões, mas agora as redes sociais mudaram isso e o que se faz, com êxito, é DESMENTIR as lorotas da imprensa.

Claro que há notícia falsa ou “site fake”, mas o que chamam de pós-verdadeiro é nada menos que a própria verdade, usada para desmentir a também boa e velha mentira.

Apenas isso.