Os livros do MEC, os blogs e o estado de nossa educação

tweet mariafro

A blogueira progressista Maria Fro publicou um texto de Idelber Avelar em seu blog, esquecendo-se de creditar-lhe a fonte. Idelber Avelar é uma espécie de blogueiro progressista solo, um progressista que não faz parte da Grande Turminha do Dinheiro Público. Avelar não gostou, respondeu em público e a quizumba começou.

Nós adoramos ver dois progressistas, esse novo nome para a velha roupagem comunista, brigando por direito de propriedade. Melhor do que isso, só feminista defendendo Mano Brown e Netinho de Paula.

A discussão que se seguiu foi meio chata e sem emoções. Foi um pouco como a revanche de Chael Sonnen contra Anderson Silva: muita falação por fora, e bocejativa dentro do octógono.

Nós já zoamos os dois por aqui. Maria Fro é aquela blogueira que acha que não dar dinheiro público para ela defender o governo é “censura” por “asfixia financeira”.É da blogosfera flanelinha. Idelber Avelar já é o blogueiro que tem até umas críticas lá a Mahmoud Ahmadinejad, mas considera que quem não gosta dele é a “República Morumbi-Leblon com seus gritinhos histéricos”Tutti buona gente.

Mas o que chamou a atenção foi que Maria Fro, no afã de explicar que não fez nada errado por motivos de: “Não sei o que ocorreu, mas no recorta e cola não foi a assinatura do Idelber e eu não percebi isso, mas…” (sic), e lembrando que “E ele sabe que não sou plagiadora, portanto, ele faz isso de má-fé”, resolveu falar “a linguagem que Idelber Avelar entende”, presenteando a humanidade com o seguinte parágrafo:

maria fro paragrafo

QUESTÃO DO ENEM: Coloque o texto acima nos conformes da gramática normativa nazi-fascista do PSDB.

Vamos abrir o Boteco da Gramática Normativa e analisar o que a professora auto-gabante de seu trabalho tem a dizer.

“Sou a única autora de livros didáticos que teve avaliação ÓTIMA (GUIA PNLD2008) em todos os critérios de avaliação do MEC desde quando o MEC avalia coleções didáticas.” (grifos do original) Fro, foram os livros ou foi você que o MEC avaliou? Os livros, né? Então, os livros não tiveram avaliação “ÓTIMA” (assim, em caixa alta e negrito), e sim “ótimo”, né? O avaliador não disse que o livro é “ÓTIMA”, e sim que é “ótimo”. Poderia dizer “ótima avaliação”, mas aí seria apenas um adjetivo, e não uma nota, colocada como substantivo. Ou quando a nota da prova é 2, a nota por extenso é “duas”?!

Mas peraí, você foi autora de livros, né? Isso aí se chama “plural”. Então, você é única autora de livros didáticos que tiveram avaliação ÓTIMO (ou BOM, REGULAR, MEIA BOCA, DÁ PRA USAR COMO SEDA, MUITO RUIM, PÉSSIMO) em todos os critérios.

Isso para não falar em figuras de estilo bem pouco recomendáveis, como avaliação do MEC desde quando o MEC avalia. Convenhamos, é quase tão feio quanto eu acordando.

O arrazoado prossegue com “Tenho dois prêmios jabuti e até 2008 (não cheguei nos anos seguintes era a única autora do seguimento a acumulá-los na área) Portanto”, o que nos permite afirmar: 1) que nome próprio tem inicial maiúscula, para não correr o risco de a moça ganhar um prêmio nobel alguma hora; 2) que não sabemos o que essa conjunção aditiva “e” está fazendo antes de 2008 (o que ela adicionou, se não teve novos “prêmios” depois?); 3) que esse parêntese inteiro não faz o menor sentido; 4) que a palavra “segmento” se escreve com g mudo (Fro, sério, presta atenção, sério, “seguimento” assim é uma parada do verbo “seguir”, não do verbo “segmentar”); 5) que se a referência é a um tempo anterior a 2008, seria muito mais sensato, abusando um pouco do eufemismo, usar o tempo passado composto, já que pretérito-mais-que-perfeito está fora de moda (“tê-los acumulado”); 6) que frases terminam com um ponto final, antes de esfregar na cara da sociedade uma inicial maiúscula na próxima frase antes de fechar a anterior; 7) que não deu pra entender nada e, last but not least, 8) que, Fro, sério, esse texto está tão ruim que se colocarem minha assinatura embaixo vão acreditar que é meu. Sério.

O massacre prossegue com “não preciso plagiar nada de ninguém, mas se não tivesse nada que abonasse meu trabalho fora da blogosfera, tenho duas décadas de internet”, fazendo de Maria Fro a única pessoa no Brasil a ter internet desde 1993, mostrando que a internet é uma longa vida fora da “blogosfera”. E nossa mãe mandando a gente desligar o computador e viver um pouco.

E, cara Fro, reparou como ficaria “melhor”, ou seja, mais entendível por uns mongos como eu, seguir aquelas regrinhas chatas, fascistas, elitistas, excludentes e neoliberais que nos mandam autoritariamente a separar com víruglas os apostos das orações? Olha só: “tenho colegas de escrita que acompanho e me acompanham há mais de 16 anos na rede VÍRGULA como Alexandre Inagaki ou Nálu Nogueira VÍRGULA com os quais até hoje temos trocas frequentes VÍRGULA, mas também recomendaríamos uma escolha menos poética de palavras para o que você acabou de falar que são testemunhas do tempo que ando pela rede produzindo conteúdo sem precisar plagiar ninguém.” Ficou da hora, fala a verdade.

Isso tudo em 01 parágrafo, minha gente. Um único parágrafo!

Poderíamos acreditar que é apenas algo feito nas coxas, o que qualquer um faz e publica cheio de erros na internet (ninguém está mais acostumado com isso do que nós, para usar um plural majestático bem disfarçador de responsabilidades). Mas, vamos ser honestos, este aí é o texto de uma autora de livros de “avaliação ÓTIMA” pelo MEC? Será que é tão difícil assim entender por que nossa Educação está no estado em que está? Será que não seria mais um motivo de vergonha do que de júbilo usar esses argumentos, sobretudo para fazer a ensinança das crianças, e ainda mais no seguimento (sic) da internet, onde tu te tornas eternamente responsável pelas porcarias que escreves?

Poderíamos até pagar o tributo de nossa malevolência e atribuir os pequenos erros de Maria Fro à pressa que sentimentos ao obtemperar alguém que nos acusa de algo que não cometemos, ou cometemos por engano, porque o Ctrl C + Ctrl V sumiu com a assinatura do autor do texto (quem nunca?). Mas será que é mesmo um caso isolado, e não um modus operandi que parece até ser exemplo para inventar essas teses insanas de “preconceito lingüístico”, aquele troço que criaram para justificar o quanto certos autores exigem dos leitores em entendimento do inentendível? Não seria uma autora de “livros ÓTIMA” do MEC apenas dificultando a própria compreensão, ao exigir que o leitor compreenda tanto a mensagem quanto a língua na qual foi escrita, decifrando na tentativa-e-erro um código específico a cada nova mensagem cifrada?

Fiquemos apenas com essas imagens à guisa de tentativa de esclarecimento.

maria fro tweets 1

maria fro tweets 2

Ah, falando em propriedade intelectual, esta divertidíssima compilação foi-nos gentilmente cedida pelo hilário Tumblr Gênios Petistas. Só falta alguém avisar os caras disso.

As redações com “enchergar” e “trousse” no Enem: luta de classes na gramática

Cabelereira

Assim que saiu o espelho da redação do ENEM, em fevereiro, o jornal O Globo pediu que estudantes que tivessem obtido pontuação máxima na prova (nota 1.000) enviassem suas redações. Para quem desconhece o que se “estuda” porta adentro de certos cursos de Letras das Universidades brasileiras, o resultado foi assustador.

Erros gritantes do uso da norma culta da língua portuguesa, como “rasoavel”, “enchergar” e “trousse” passam batidos, desde que a redação, vista “como um todo”, esteja coesa.

Segundo nota publicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (Inep), “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. Essa visão “holística”, de ver um texto “como um todo” ignorando suas partes constituintes, diluindo erros no todo, é a mesma desculpa da Homeopatia, que não é estudada como Medicina, mas fez sucesso entre lingüistas brasileiros de importância meramente circunstancial e local (e só estudados à força graças ao MEC).

O “pensamento” dessa turma, já apresentado aqui, baseado em escritos de Pierre Bordieu e sintetizados em obras como “Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz”, de Marcos Bagno, parte de um pressuposto válido entre vários pressupostos, na melhor das hipóteses, burros. O correto é notar que erros gramaticais são marcas na linguagem de uma cultura na qual o falante está inserido, além de seu próprio traquejo dentro dessa cultura.

Os erros, então, não são anárquicos e aleatórios, mas se encaixam em padrões. Uma criança aprendendo a falar copiando os adultos troca “eu sei” por “eu sabo” (por analogia: se “beber > eu bebo”, então “saber > eu sabo”), erro que adultos de qualquer classe social não costumam cometer. Já falar “bicicreta” é um erro marcado das classes sociais com pouca renda e estudo. É um erro mais estigmatizado socialmente (não aquilo que se fala por acidente e rende só umas risadas no bar). Já erros de concordância verbal que são comuns, por exemplo, a jornalistas, quando escrevem longas sentenças cheias de apostos (portanto, comuns à linguagem escrita), e assim se acaba usando diversas sentenças com tempos verbais diversos que acabam confundindo o próprio leitor, já é um erro mais “tolerado” socialmente, pois trata-se de erro “de gente letrada” (note-se que há um erro de concordância nessa sentença que ficaria horrível sem o monte de frases intercaladas que o “escondem”).

Obviamente que a língua não é como a matemática – até mesmo sua lógica é própria e variável conforme o tempo. Por exemplo, o emprego de “entre você e eu” é errado, pois “você e eu” estão na condição de objetos indiretos na sentença, e “você” é pronome de tratamento derivado de “Vossa Mercê”, que o português brasileiro adotou como pronome pessoal no lugar de “tu” na maior parte das regiões do país (e, sendo pronome de tratamento, é invariável), ao passo que “eu”, pronome pessoal stricto sensu, se torna “mim” na condição de objeto indireto (o único resquício de declinação que o português herdou do latim). O correto, então, é “entre você e mim”, embora a confusão que o pronome “você” causou na língua provavelmente fará com que esta regra logo deixe de ser assim encarada. Todavia, note-se que falar “entre você e eu” ainda tem um valor muito distinto de proferir “chicrete” ou “iorgute”.

placa comportasEntretanto, é preciso notar que há forças tanto centralizadoras da língua e forças que a fazem mudar. Isso é natural e não há motivo para pânico. A confusão causada pelo pronome “você”, que inventamos de tratar como pronome pessoal (ainda, para piorar, com sentido de segunda pessoa, mas conjugado como terceira – o mesmo caso da troca de “nós” por “a gente”, nesse caso ainda com o agravante de se conjugar plural como se fosse singular), é um exemplo óbvio de força de mudança, com todas as suas justificativas (e note-se novamente uma vírgula separando verbo de predicado, que em uma sentença escrita com aposto e parêntese passa quase despercebida). Já fatores como o grau de leitura, os laços culturais, a tradição lingüística e a própria estética da língua são forças de conservação da língua.

Ora, é claro que um estudante ingressando na Universidade passou mais de uma década aprendendo um padrão único da língua não apenas por que algum gênio do mal, bruxo agourento da elite dominante pensou: “Vou inventar uma regra gramatical complicada não compreensível para os pobres, assim podendo separar a classe média eleitora dos tucanos dos pobres oprimidos viciados em Bolsa Família, BUAHAHAHAHAH!”. Ele aprende um único padrão pois na Universidade, ao menos em teoria, deveria aprender ciência, e a linguagem científica (seja em cursos de Ciências Políticas ou Engenharia Nuclear) precisa ser única, em todas as suas regras.

Quando alguém diz “mecanismo para os reatores”, todos devem entender o mesmo para que o experimento não termine em tragédia (despiciendo comentar a bobagem que fez o tal “Novo Acordo” em sentenças como essa). Por essas e outras a linguagem científica não deve ser a mesma apenas para uma cultura, mas deve ser mesmo universal (por isso a Europa inteira publicou ciência em latim milênios depois da derrocada de Roma. Por isso também que hoje todos os trabalhos científicos de peso buscam ser escritos em inglês (no Brasil, faz-se um disfarce com um simples “Abstract”).

No entanto, na versão de correção “como um todo”, esses pequenos “desvios” (o eufemismo da moda para “erro”) são tolerados, já que não farão diferença para ninguém (já que ninguém leva as usinas nucleares de Angra a sério, mesmo). Ainda acreditando que foi um bruxo maligno buscando um feitiço para aumentar a desigualdade social quem criou as regras gramaticais tão somente para fazer exclusão social dos pobres, não percebem que a norma da língua segue o uso, e não o contrário. Mesmo em línguas criadas ad hoc como a unificação do alemão (que começou com a tradução da Bíblia por Lutero), as regras seguem um uso anterior, pois absolutamente ninguém (muito menos ricos com mais o que fazer do que se preocupar com gramática) vai tentar lembrar do que é uma coordenada assindética ou um genitivo epexegético antes de falar sobre mercado financeiro.

Toda compilação de regras é criada a posteriori, apenas marcando os usos com maior rigor lógico e de separação de conceitos que os usuários da língua foram capazes de conceber. A regra, assim, é dada já mastigadinha para que o falante não tenha de ter a capacidade científica de um Aristóteles, o rigor lógico-matemático de um Leibniz e a cultura lingüística de um Umberto Eco para que consiga apreender sentenças simples. Se o exemplo dos reatores parece exagerado, pense-se em sentenças em que o sujeito aparece depois do objeto, numa língua em que a posição das palavras é que marca sua função sintática. “Minha mãe o seu pai vê ali com a Maria” pode causar um nó nos neurônios se o verbo não estiver muito bem conjugado. Pior ainda o perigo de se ignorar a vírgula. Ficou famoso um livro para a quinta série que jogou às fauces dos infantes: “Coma Maria que é bom”.

As premissas que geram esse tipo de ideologia são autofágicas (contraditórias com um objetivo claro). Ignorar os erros das classes sociais mais baixas (como escrever “enchergar” ou “trousse”) torna os estudantes muito menos preparados, e incapazes de enxergar a sua própria fraqueza intelectual. Desprotegidos e eternamente em dificuldade para encarar textos que podem lhes formar como intelectuais independentes e moldar o seu futuro (tanto as Investigações Lógicas de Edmund Husserl quanto O princípio da correspondência de Niels Bohr), para serem universitários, precisam evitar a meritocracia do mercado e se amparar sempre sob a barra da saia de seus salvadores: as políticas inclusivas do Estado, aquela entidade que só age obrigando os outros a fazerem o que dá na caçuleta de seus burocratas. Os defensores da tomada e expansão da atuação do Estado, como o sr. Bagno, assim, surgem como os salvadores dos oprimidos, sempre tomando dinheiro, vagas e até capacidade comunicativa dos outros para, robinhoodianamente, “dar aos pobres”.

Claudio Cezar Henriques, professor titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Uerj, disparou:

— A demagogia política anda de braço dado com a demagogia linguística. É preciso lembrar que as avaliações oficiais julgam os alunos, mas também julgam o sistema de ensino. Na vida real, redações como essas jamais tirariam nota máxima, pois contêm erros que a sociedade não aceita. Afinal, pareceres, relatórios, artigos científicos, livros e matérias de jornal que contiverem esses desvios/erros colocarão em risco o emprego de revisores, pesquisadores e jornalistas, não é? — ele indaga.

Demagogia é um tema de redação que dificilmente cairá no vestibular.

A desculpa apresentada pelo Inep, incapaz de explicar seus próprios pressupostos sem cair no ridículo, é de “um egresso do ensino médio ainda [está] em processo de letramento na transição para o nível superior”. Depois de mais de uma década lendo e aprendendo? Apenas, assim, um júnior? Ora, como um estudante desses, que pode estar prestando vestibular para Letras, será capaz de compreender James Joyce, Maiakovski, Paul Celan, Ezra Pound, Guimarães Rosa, William Blake ou outros artífices da língua? Como supor que possam compreender os sofisticados versos de Camões? Apenas a partir dos 40 anos que estará apto a ler o texto mais importante da língua que fala como universitário? Como irão compreender as inversões, prosódia e ritmo das traduções de Homero, geralmente apresentadas já no primeiro ano do curso? (notando, é claro, que conhecer o texto mais importante da literatura apenas por traduções, sem contato algum com o original, já é um sinônimo de barbarismo). Um livro de Thomas Mann ou Eric Voegelin nas mãos desses estudantes não pode servir para muito além de peso de papel, nivelador de cadeira ou seda para fins recreativos.

Nota-se, assim, não uma medida para diminuir a desigualdade social e incluir os pobres na massa pensante (a “democratização da filosofia”, que juram que Marilena Chaui fez na USP ao excluir qualquer capacidade de um universitário compreender a diferença da noção de logos ou intelecção entre Aristóteles, Tertuliano, Schelling, Heidegger e Zubiri). Trata-se apenas de um projeto de poder, feito por affirmative actions, ativismo judicial, cotas, aparelhamento e coitadismos, fazendo com que apenas um partido ou grupo político desponte no horizonte como “defensor” dos pobres, que cada vez mais dependem de sua proteção — daí a autofagia dessa nova “luta de classes”, que atinge até mesmo a gramática.

empregadaClaro que há diferenças de fala e escrita, que muitas vezes não precisam seguir a norma gramatical (é possível encontrar diversos erros acima, sem muito prejuízo do entendimento). Todavia, mesmo mestres da linguagem informal, de Rosa a Bukowski, de Conrad a Houellebecq, ao menos conseguem se comunicar em linguagem formal caso queiram. A avaliação “holística”, que ignora os “desvios”, faz com que estudantes apenas dominem a linguagem de entender bilhetes que os patrões lhes deixem (fomentando, mais uma vez, a briguinha social que julgam ser ciência política, por falta de conhecimento adequado). Mais uma vez, precisam correr para o partido de massa que lhes “defenda”, sob auspícios da lei do menor esforço.

O estudante passa a ser avaliado não pelo que faz, mas por quem é (todo movimento anti-liberdade de mercado se escorou em tentações totalitárias de cunho fascistóide). Claro, os bem servidos dirigentes que dão suas migalhas aos pobres assim, conseguindo um poder inquebrantável em troca, não querem que os pilotos de seus aviões particulares tratem a altura e tangência em relação à pista de pouso como “desvio” que possa ser ignorado “no todo” (as cotas de Dilma não valem para o ITA, urge relembrar). Os engenheiros que colocam prédios de pé não podem cometer “desvios” capazes de fazer um edifício ruir sobre suas bases.

Mas esses são uma elite com a qual o novo modelo político sabe lidar. Aqueles que se viram por si, nunca se achando coitadinhos perante a força estatal, enriquecem e são forçados a dar um alto percentual dos dividendos de seu trabalho para a máquina burocrática que tanto lhes atrapalha. Outros, que mandam os escrúpulos às favas e aprendem o jogo, podem virar donos das empreiteiras tão faraônicas cujo único cliente possível no país é o próprio Estado. Para esses, até o José Dirceu sabe cobrar um preço módico na base dos milhões como “consultor” para que também consigam seus contratos com o governo, como fez com a empreiteira Delta. Quando a situação aperta, o Partido sempre pode também dar uma canetada invertida, demonstrando o mesmo preconceito lingüístico que só combate quando pega bem eleitoralmente.

Enquanto vendem essa dicotomia entre o partido e o resto da população, o discurso oficial é uma busca de “igualdade” para o povo (“representado”, obviamente, apenas em um partido). Como diz Thomas Sowell, há mentiras tão burras em que apenas um intelectual é capaz de cair.

tweet bagno master

Dicionário Houaiss censurado: o PT tem preconceito lingüístico

por Flavio Morgenstern

A esquerda, por cerca de duas ou três décadas, vem reafirmando ad nauseam a primazia da “língua viva” sobre os livros de gramática, retórica e (oh, horror) literatura, usados por professores como moldes que mantêm a multifacetada expressão verbal razoavelmente uniforme.

Ao se digitar a expressão preconceito lingüístico no Google, um termo desengastado de Pierre Bourdieu para explicar o preconceito que as “altas classes” têm pelas “baixas classes” através de seu linguajar, dá-se rapidamente de cara com um texto meu aqui no Implicante™ em que discuto tais idéias, famosas ao público laico das faculdades de Letras graças a um livro do MEC que afirmava, irresponsavelmente e sem atentar para todas as nuances do verbo “poder”, que se “pode falar nós pega os peixe“, colocando como único problema de tal ato a possibilidade de sofrer o tal “preconceito lingüístico” por isso. Ou seja, o problema estaria em quem ouve, não em quem profere. Seriam as outras pessoas que precisariam de aulas e estudo, não o aluno com aprendizado insuficiente.

É um conceito complicado, derivado do pensamento politicamente correto que faz com que o Estado seja aparelhado para funcionar como uma grande babá a evitar comportamentos que vão contra a cartilha do que o Partido permite. Na verdade, apenas um caminho para instaurar a desconfiança paranóica entre as pessoas – o exato caminho que faz com que tratemos um Estado policialesco (seja nas ruas, seja na fala) como a única solução para nos corrigir a pauladas de nossos defeitos como seres humanos.

Entretanto, se tais teorias já são contraditórias por si (como exposto), o comportamento que o Partido exige rapidamente é multiplicado por -1, e muda da água para o vinho (ou para não-água) assim que os motivos para instaurar a paranóia se mostram insuficientes para instilar novas paranóias. Segue notícia do UOL:

MPF quer tirar de circulação o dicionário Houaiss

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia (MG) para tirar de circulação o dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do mercado. Segundo o MPF, a publicação contém expressões “pejorativas e preconceituosas”, pratica racismo aos ciganos e não atendeu recomendações de alterar o texto, como fizeram outras duas editoras com seus dicionários.

O caso teve início em 2009, quando a Procuradoria da República recebeu representação de uma pessoa de origem cigana afirmando que havia preconceito por parte dos dicionários brasileiros em relação à etnia. No Brasil, há aproximadamente 600 mil ciganos. Desde então, segundo o MPF, foram enviados “diversos ofícios e recomendações” às editoras para que mudassem o verbete. As editoras Globo e Melhoramentos, de acordo com o órgão, atenderam às recomendações.

Isto é uma contradição recentemente apontada pelo Gravataí Merengue sobre a politização da educação. Ora, a grita que mobiliza inocentes alunos primeiranistas de Letras para se transmutar, de futuros educadores, em verdadeiros esbirros policiando comportamentos sociais, é a idéia de que a língua e, sobretudo, a fala, é “livre” e, afinal de contas, compreensível, mesmo quando não segue pari passu as regras de sintaxe, morfologia, fonologia e mesmo semântica das gramaticas normativas. Num arroubo marxista, metaforizam a gramática normativa como um Estado fascista, e passam a confiar na língua “do povo” como uma atitude tão libertadora quanto as forças russas derrubando o nazismo em 1945 e fincando a bandeira da União Soviética em Berlim. Nunca perceberam que há diferenças de obediência à gramática entre membros da mesma classe.

As contradições que daí decorrem por acarretamento já foram explicadas. É difícil acreditar que um povo é mais “livre” simplesmente por poder tirar boas notas sem estudar o que o professor pede, sendo que justamente essa atitude os torna menos livres para entender um caderno de Economia do jornal, um livro de política, um detalhado artigo da Constituição.

Mas eis que, quando essa “língua do povo”, que supostamente sofre de “preconceito” (embora o próprio Marcos Bagno, maior defensor desse conceito no Brasil, lembre-se que na verdade é apenas preconceito social), mostre que também é capaz de provocar preconceito (afinal, o próprio povo é eivado de inúmeros preconceitos contra os quais, muitas vezes, a elite minimamente esclarecida é vacinada), aí abandona-se completamente a teoria e seus pressupostos e passa-se a pregar o contrário.

Ora, tratar a gramática como instrumento de dominação elitista e obrigar todos os que trabalham com a língua a apenas registrar placidamente os usos da maioria foi exatamente o que o dicionário Houaiss fez. Ou os sinônimos pejorativos para a palavra cigano não são exatamente, como aponta o dicionário, “aquele que trapaceia, velhaco” etc? Não seria “fascismo” usar de “correção gramatical elitista” para “oprimir” quem fale algo ofensivo a ouvidos hipersensíveis, no fim das contas? Os próximos livros financiados em milhares de reais pelo MEC avisarão: “Então eu posso chamar um trapaceiro de cigano? Claro que pode! O problema é que com isso você pode ser alvo de preconceito lingüístico“?

Pelos deuses da linguagem, se é para policiar a língua, há exemplos que furam a fila dos ciganos na preferência de correção histórica. Onde estão rolando as marchas pela retratação em praça pública da Humanidade em relação ao preconceito histórico com canhotos, e a exigência para retirem de qualquer dicionário a palavra como sinônimo de inabilidoso? “Destreza” ser sinônimo de habilidade é no mínimo, piada com a cara dos canhotos. E imagine a tristeza de ser italiano e ser pechado, como uma estrela de Davi marcada a ferro na cara, como sinistro?!

Falando em estrela de Davi, Graciliano Ramos exprobou sua facúndia com expressões como “juros de judeu” em seus livros. E eles caem no Vestibular! E quanto anti-semitismo conseguimos encontrar em Dostoiévski, Shakespeare, T. S. Eliot e tantos outros? E o anti-semitismo do Novo Acordo Ortográfico, que nos obriga a escrever “antiSSemita” com SS? Se os sentidos pejorativos de “cigano” não podem ser compilados, por que palavras como denegrir ou judiação continuam impunes? Vão trocar pretoriano por afrodescendenteano? Como ficarão as sábias palavras de Moisés, conforme relatadas por Hermanoteu? E por que coitado ainda não foi proibida pra menores de 18 anos?

Existe acaso algum sentido pejorativo que não mereça um olharzinho torto do Ministério Público? Imagine se um dicionário mostrar todos os sentidos pejorativos da palavra “baiano”? Isso porque não temos uma relação deslavada de racismo como o Brasil ou a Argentina, que usam “negro” como xingamento pra tudo (em inglês, curiosamente, o termo mais correto é black, e nigger é que é ofensivo). Aliás, já tentaram censurar edições de Hucleberry Finn, de Mark Twain, um dos maiores gênios da língua inglesa, por conterem a expressão nigger. Mas grupos ecológicos também já tentaram proibir Moby Dick pelo predatorismo contra uma baleia. Uma baleia de mentirinha.

Não basta o dicionário afirmar que o uso é pejorativo. Só faltou avisar aos leitores: “ATENÇÃO: CIGANOS SÃO BONZINHOS E NÃO DEVEM SER TRATADOS DESSA FORMA”. Que tal economizarmos árvores e, ao invés de pedir novas edições do Houaiss, apenas o verbete “cigano” conter as acepções normais, e depois: “3. pej. CENSURADO CENSURADO CENSURADO”? Talvez o verbete “dicionário” também deva mudar para “s. m. 1. livro que explica o significado das palavras como nós achamos que elas deveriam ser”.

Em 1997 a deputada petista D. Lúcia Carvalho, então na presidência da Câmara Legislativa do Distrito Federal, também exigiu que dicionários retirassem a explicação de que a expressão “mulher pública” é usada como sinônimo de prostituta, como engraçadíssimo artigo de Olavo de Carvalho denunciou à época (está em seu livro O Imbecil Coletivo II). A proibição da vox populi, vox Dei é substituída por uma lógica das mais chinfrins: se homem público é expressão dignificante, “mulher pública” deve significar algo ilustre como a própria Lúcia Carvalho. Assim, as próximas edições dos dicionários deveriam afirmar que Margareth Thatcher, Golda Meir e indira Gandhi foram “mulheres públicas”, como aliás sempre afirmaram seus detratores. Despiciendo lembrar as diferenças de significado entre homem dado e mulher dada. Entre vagabundo e vagabunda. Entre homem da vida e mulher da vida. Entre pistoleiro e pistoleira. Entre atirador e atiradora. Por sinal, entre puto e puta.

Ao invés de o dicionário demonstrar o que é falado pelo povo, em uma taxiografia que permite um código de sinais comumente entendido, o dicionário deve exigir um comportamento lingüístico específico. Assim, aquele óbvio lulante e ululante que foi preciso explicar em detalhes para a turma do “preconceito lingüístico” – a saber, que a norma gramatical, sendo posterior à própria língua, segue o uso, e não o contrário – se mostra aqui mais uma vez esquecido. É o único ponto no qual os dois atos confluem: na ignorância. Ambos ainda acreditam que a gramática normativa de uma língua foi criada por um bruxo malvado que inventou de estro próprio regras incompreensíveis para a patuléia ignara, podendo assim separar ricos de pobres – e agora, acreditando-se serem pobres que subiram ao poder derrubando tiranos, crêem que tomando o Ministério Público Federal e trocando uma acepção em um dicionário (todos os outros permanecem não muito diferentes), poderão evitar comportamentos preconceituosos – como se quem gosta de xingar judeus fossem todos correndo ao dicionário rever os significados de seus xingamentos a cada nova edição.

Ademais, é um tanto quanto estranho indiciar pessoas jurídicas por “racismo”, ainda mais quando afirmam que tomar um cigano por “velhaco” (e o preconceito contra velhos, também presente em Dostoiévski?!) é um uso pejorativo. É o mesmo que avisar sobre o uso da palavra “crioulo” ser ofensivo, e sofrer processo por… ter usado a palavra “crioulo” para conseguir afirmar isso. Confundir palavras pelos conceitos que elas representam é a maior das burrices da humanidade, que já custou muito mais do que parece. E quem não lembra de uma cena onde se proibir que se fale uma palavra transforma um apedrejamento em vários?

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=dpFcsbMS1pY[/youtube]

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Gostaria de explicar o verbete “corrupção” no dicionário como “dinheiro caindo do céu para a população” para ver se funcionaria alguma coisa. No Twitter, @flaviomorgen