Entenda por que é uma imbecilidade “tirar sarro” da votação de Jair Bolsonaro na Câmara

Nesta semana, houve eleição para escolher os presidentes das duas casas do Congresso Nacional, com o governo de Michel Temer saindo vitorioso em ambas. Jair Bolsonaro foi candidato à Presidência da Câmara e obteve quatro votos. Muitos usaram o fato para tirar sarro do deputado.

Pois bem: isso é uma imbecilidade.

Goste-se ou não do parlamentar (a análise aqui é sobre comunicação), foi exatamente isso o planejado. Ele poderia muito bem não ter colocado a candidatura, mas se fizesse isso não teria como marcar posição nesse momento. Ele o fez, e obviamente sabendo que não chegaria a meia dúzia de votos.

Então, por que fez? Porque ele é o “outsider” e isso deriva FUNDAMENTALMENTE de posturas de DISSOCIAÇÃO da classe política. Quanto mais ficar evidente sua separação dos “políticos tradicionais”, melhor. A baixa votação, portanto, não é um dado ruim, mas sim positivíssimo nessa estratégia.

Convenhamos, não é preciso ser um gênio para sacar isso. Bastaria, aliás, ver o que houve nos EUA. Guardadas as gigantescas proporções, o que se viu foi algo muito parecido (e não só lá, vale dizer): pessoas saturadas da política tradicional escolhendo um nome de fora.

Quem “tira sarro” do resultado de Bolsonaro na eleição da Câmara pelo visto ainda não entendeu nada. Falamos sobre isso recentemente, aliás. Quem não se ajustar aos novos tempos vai acabar atropelado – e muito provavelmente tomará susto em 2018.

Golpe? Parlamentares petistas apoiam nomes de Michel Temer para chefiar Câmara e Senado

O inocente útil é figura clássica da estrutura de militância política. Trata-se daquela pessoa um tanto ingênua, de certa forma até mesmo idiota, que abraça líderes partidários, e mesmo legendas inteiras, defendendo-os de forma cega sem dar importância aos fatos concretos.

Assim foi e é com o “golpe”. A narrativa, já suficientemente ridicularizada no mundo real, ainda encontra eco entre militantes mais empedernidos. Mas eis que o próprio PT resolveu colocar o pragmatismo acima disso.

Como perdeu muitos cargos diante da saída de Dilma Rousseff e também com a derrota avassaladora nas eleições municipais, o partido não pode dar-se ao luxo de abrir mão também dos carguinhos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Desse modo, segundo é noticiado, os parlamentares petistas apoiarão os nomes chancelados por ninguém menos que Michel Temer para presidir as duas casas legislativas.

E a militância? Provavelmente continuará com a idiotice. Afinal, um idiota não é idiota por acaso.

Para o lugar de Cunha, o PT apoiará um candidato do “golpista” PMDB de Temer e… Cunha

Coitada da “narrativa”. Não se cansa de apanhar dia e noite desde que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República. Sem força para lançar uma candidatura própria à Presidência da Câmara, o que renderia uma vergonhosa derrota, o PT se degladiou internamente para decidir se apoiava Rodrigo Maia, do DEM, ou Marcelo de Castro, do “golpista” PMDB. Venceu o segundo caso, por ter sido um dos mais fieis ministros da petista, com direito a voto contra o processo de impeachment.

De quebra, o petismo deve conseguir para o peemedebista os votos das linhas auxiliares do partido (PCdoB e PDT). Não deve ser suficiente para vencer, mas ao menos causará algum constrangimento ao governo Temer, sem diálogo com o representante do próprio partido.

Na incapacidade de construir nada, sobra apenas ao PT força para bagunçar a gestão ainda interina. Algo que já fizeram com a economia do país. Para máxima desgraça da nação.

Waldir Maranhão ainda reside em imóvel que jurou à Justiça ter vendido para bancar campanha

Mesmo com apenas R$ 16,5 mil declarados, Waldir Maranhão doou do próprio bolso a quantia de R$ 557,6 mil para a campanha que o fez deputado federal em 2010. Como explicar o paradoxo? O hoje presidente da Câmara jurou à Justiça Eleitoral que vendeu uma casa no valor de R$ 550 mil. O problema é que O Globo visitou a residência no número 370 da Alameda Campinas, em Olho D’Água, Maranhão, e descobriu que o maranhense ainda residente no endereço mesmo seis anos depois.

Quem teria comprado o imóvel? João Martins Araújo Filho, um aliado que muito favor deve ao deputado federal.

Por se tratar de um fato ligado ao mandato anterior, o trabalho da Justiça para pegar Maranhão fica bem mais complicado. Mas o presidente da Câmara se tornou um problema para o governo Temer pela mera inaptidão para tocar as reformas necessárias. Não será estranho se mesmo denúncias tão frágeis conseguirem derrubar o pepista.

“Linha auxiliar do PT”, o PSOL já quer lançar candidato para a vaga de Eduardo Cunha

Foto: Antonio Cruz/Abr

O PSOL possui uma bancada nanica (5 deputados) que muito pouco pode fazer além de reverberar os interesses do PT em dissimulada oposição (que ganhou o apelido de “linha auxiliar do PT” em resposta de Aécio Neves na campanhas de 2014). Não à toa, vem cabendo ao partido as principais ações contra Cunha. Agora a sigla já pensa em lançar Chico Alencar para a presidência da Câmara no lugar que o peemedebista deixaria vago se assim render-se aos anseios da imprensa e seus opositores.

Daria em nada não fosse pelo contexto. Porque, em crises anteriores, nem sempre a casa abriu espaço para o mais poderoso dos candidatos, mas àquele que atrairia menos manchetes negativas para a Câmara. Como, recentemente, a própria imprensa elegeu Alencar o melhor deputado federal no prêmio Congresso em Foco, ao menos com o apoio dela o candidato contaria.

Parte da oposição defende que o impeachment vingaria mesmo sem a pessoa de Eduardo Cunha na presidência da Câmara. Mas o mais comum é a oposição perder espaço para o petismo mesmo. Ou, até mesmo, sua linha auxiliar.

Foto: Antonio Cruz/Abr
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Em resposta a Dilma, Cunha lamenta ser brasileiro o governo mais corrupto do mundo

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Em declarações recentes, Dilma, ao comentar as denúncias sobre contas na Suíça, disse lamentar o fato de Eduardo Cunha ser brasileiro. O presidente da Câmara já havia alertado via colunismo político que a presidente o deixara numa situação de obrigatório pronunciamento. E ele veio em forma de ironia: “Lamento que seja com um governo brasileiro o maior esquema de corrupção do mundo.” Essa resposta, claro, não vem tendo o mesmo destaque na imprensa, mais empenhada em derrubá-lo em nítida sintonia com os interesses do petismo. O peemedebista, por sua vez, segue negando: não renunciará.

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
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Até a presidência da Câmara, que já pertence ao PMDB, Dilma andou prometendo ao… PMDB!

Foto: PMDB Nacional

A arriscada estratégia da presidente tem sido a de fomentar a intriga interna no maior partido de sua base. Ao negociar com o baixo clero peemedebista, espera enfraquecer o, por assim dizer, alto clero. No caso, Eduardo Cunha e até mesmo Michel Temer, que andou demonstrando certo incômodo ao notar Dilma articulando diretamente com seus pupilos. De fato, há algum sentido no plano: promete-se à trupe de Leonardo Picciani algo que tão cedo conquistariam na condição de subordinado à velha guarda do PMDB. Resta saber se a molecada não tem um telhado de vidro ainda maior que o do atual presidente da Câmara. Denúncias contra o novo ministro da Saúde já começam a pipocar no noticiário. Quanto ao novo ministro da Ciência & Tecnologia, já foi eternizado pela Lava Jato como “pau-mandado de Eduardo Cunha”.

Foto: PMDB Nacional
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Governo presenteará aliados com cargos para amenizar vitória de Cunha na Câmara

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Segundo o Painel da Folha de São Paulo, a fim de amenizar o impacto da vitória de Eduardo Cunha na presidência da Câmara, o governo oferecerá cargos de 2º e 3º escalões para partidos aliados. O bloco liderado pelo PMDB vai ter que ser agraciado para não se voltar contra Dilma, como aconteceu em 2014. Além disso, o governo está convencido que terá que da mais espaço a Eduardo Cunha para tentar um acordo na pauta da Casa.