Com Haddad, foram mais de 100 incêndios só em 2016, mas não viram “especulação imobiliária”

20.03.2013 - Fernando Haddad (PT-SP), prefeito de São Paulo, concedendo entrevista após reunião sobre pacto federativo com prefeitos e líderes estaduais e municipais em 20 de março de 2013. Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados.

Era ainda 27 de julho de 2016 quando São Paulo registrou o centésimo incêndio em favelas da cidade. O levantamento, na época, foi feito pelo próprio corpo de bombeiros. Mas, ainda na gestão Haddad, a esquerda em nenhum momento acusou a cidade de estar vivendo uma onda de incêndios criminosos visando a uma especulação imobiliária.

Agora em 2017, já sob so cuidados de Doria, bastaram dois incêndios em Paraisópolis para Guilherme Boulos, líder do MTST – aquela organização que adora fazer terrorismo queimando pneu nas ruas da cidade – trazer a teoria conspiratória da “especulação imobiliária” de volta.

A esquerda hoje vive de apostar na falta de memória do cidadão brasileiro. Mas esquece que o Brasil mudou bastante desde o tempo em que davam as cartas na política nacional.

A margem da oscilação: esquerda contra direita, ou ditadura

Que a política em uma sociedade traz em si a marca da cultura em geral naquele contexto, parece uma verdade segura, clara e até simples. Contudo, pouca atenção é dada às consequências lógicas desta importância fundamental da cultura para a política. Desde esta perspectiva, não existe objetivamente o que se nomeia democracia, estado de direito, constituição ou modelo de governo, em um povo que não compreende o significado e a função prática de conceitos tão básicos, cuja definição é ignorada pela maioria. Ao invés de categorias técnicas, o vocabulário dos debates públicos é convertido em slogans de propaganda, com a finalidade de influenciar a “opinião pública” e seduzir eleitores, mas jamais para descrever e avaliar realidades efetivas. No caso de palavras como esquerda e direita, ocorre a redefinição mais determinante para os rumos da política brasileira. Inicialmente, como produto imediato do trabalho de militância, promoveu-se uma idealização da esquerda e esta absolutamente identificada aos partidos de discurso marxista. Posteriormente, com a noção de esquerda desprestigiada para a população após os anos de governo do PT, e uma direita que surge como reação se auto-definindo pelo combate a tudo que se rotule como “esquerdismo”.

Há certo consenso quanto ao sentido ainda vigente da divisão entre esquerda e direita, de acordo com princípios gerais que guiam a defesa de mais ou de menos funções assumidas pelo estado em uma sociedade. Fatores tradicionais como o abuso que representam impostos pesados para a população já habituada à precariedade dos ineficientes serviços públicos, além dos frequentes escândalos de corrupção, levariam naturalmente a política brasileira a tender ao que se convenciona chamar direita. Porém, deu-se o contrário, graças a uma incansável militância que conseguiu obscurecer a simplicidade do problema, ao mistificar o discurso estatizante e monopolizar a luta que conduz a esta direção.

O êxito marxista foi tamanho que passou despercebido para a grande maioria de cidadãos conservadores que não havia um só partido que atuasse para representá-los. Não se tratava apenas de trapaça para facilitar disputas eleitorais, com o enfraquecimento e até eliminação de seus mais radicais antagonistas. A estratégia tem como ponto de partida a constatação de que ocorre necessariamente uma oscilação entre rumos opostos do estado em função da mudança de partidos que ocupam o governo a cada novo mandato, cada qual com seu viés doutrinário. Sendo assim, tal processo nunca conduz unilateralmente para o destino que um único grupo ideológico ambiciona, mas segue o caminho que resulta dialeticamente da polarização em torno do poder. Só nesse contexto, se compreende a conversão da “social-democracia” em direita, já que uma esquerda moderada está “à direita” dos extremistas revolucionários, ao menos segundo a perspectiva dos próprios marxistas. Nesta direção, os “progressistas” se viram livres para avançar a agenda do Foro de SP, sem qualquer margem para “retrocessos”.

Devastados pela perturbadora estratégia descrita, a maioria dos brasileiros assume, sem qualquer crítica, o monopólio marxista do conceito de esquerda, passando à crença de que a defesa das ideias liberais e conservadoras seriam o antídoto para reverter uma formação cultural e política que nos conduziu a uma utopia socialista tão nociva e perigosa. Não se deram conta que o marxismo não representa um programa de governo alternativo, muito menos um modelo estatizante para administrar a sociedade e tentar oferecer soluções para seus problemas. Isto seria o caso de partidos de uma esquerda verdadeiramente democrática, cujas teses são legítimas num debate político, ainda quando julgadas deficientes e obsoletas, pois não são uma ameaça ao estado de direito.

Ora, se há partidos cuja meta é destruir as instituições do país, para substituí-las por um regime ditatorial, participar de discussões públicas e eleições para combatê-los não é propriamente um exercício democrático. Pelo contrário, consiste em legitimar com o status de adversários políticos àqueles que, sabida e declaradamente, atuam como inimigos da pátria.

Bruno Bertolossi de Carvalho, 34 anos, antropólogo pela Unicamp, atualmente fazendo mestrado em filosofia na Colômbia, Universidade Caldas, pesquisa em cultura política brasileira, influenciada pelas idéias de Antonio Gramsci, além de manter um blog com textos sobre o Brasil, Formação, Filosofia e Teologia. Escreveu para o Implicante na condição de autor convidado. Se você gostaria de publicar algum texto seu aqui nesta seção, clique aqui e siga as instruções.

Aborto, migrações… Por que a agenda esquerdista só está sendo noticiada após a votação?

Quando o STF mandou às favas qualquer resquício de reputação e deixou os brasileiros atônitos ao salvar a pele de Renan Calheiros, chegou a notícia: a Câmara Federal tinha acabado de aprovar a nova “Lei de Migração”. Como assim?! Estava em discussão uma Lei de Migração?!

Entidades esquerdistas, claro, comemoraram o resultado, pois estaria desburocratizando a entrada de estrangeiros no Brasil. Tudo isso numa época em que imigrantes no mundo todo são flagrados causando graves problemas e conflitos nos países que os recebem.

Por que a imprensa não tratou do tema com a sociedade enquanto ele estava em discussão? Normalmente, pautas do tipo são alavancadas com releases distribuídos aos principais jornais, com argumentos sendo expostos e rebatidos até que a opinião pública se posicione e balize a escolha de seus representantes. Este, contudo, só virou manchete depois de aprovado. E lembra bastante a votação recente do STF, quando perdoou uma clínica clandestina que praticava abortos até o terceiro mês. Quando o povo soube, já estava votado e aprovado.

Será que rola até mais essa agora? De a imprensa boicotar certos temas que serão devidamente emparedados e possivelmente recusados? Tudo em benefício de uma militância que, está mais do que evidente, pouco se importa com a realidade?

Se for, é muito, muito feio!

A decisão do STF sobre o aborto serviu apenas para provar que o STF precisa ser contido

O maior receio americano com a eleição de Donald Trump passa por um eventual desequilíbrio de sua Suprema Corte, responsável por apenas um punhado de decisões anuais, mas de questões mais amplas e relevantes. Lá, as cadeiras são bem dividias entre conservadores e progressistas. E o temor reside na possibilidade de o republicano indicar quatro conservadores, comprometendo por décadas o equilíbrio dos debates e decisões.

No Brasil, exceto talvez por Gilmar Mendes, só há progressistas em ação no STF. E eles não se furtam de levar adiante pautas esquerdistas independe de haver respaldo popular, ou seja, um projeto aprovado no legislativo. O caso envolvendo as cotas raciais talvez seja o mais emblemático, mas está longe de ser o único.

Como já desmentido aqui no Implicante, o STF NÃO “legalizou” o aborto até o 3º mês. Mas deu mais uns passos nessa direção. Desta forma, vai amaciando o tema, a discussão, sempre com o apoio de uma imprensa esquerdista e militante, para impor às leis brasileiras algo que vá totalmente de encontro à vontade da imensa maioria dos brasileiros.

É preciso reagir. Por mais que se queira técnico, o STF já se mostrou um tribunal político. E reage à opinião pública, desde que ela esteja atenta.

Mais do que nunca, é preciso discutir o aborto. E isso precisa ser feito sem as imposições esquerdistas, tão dispostas a escantear qualquer moralidade numa questão tão grave. São vidas em jogos. E dos seres humanos mais indefesos.

Progressismo de toga: Luís Roberto Barroso e as voltas que o mundo dá

Assim que o calouro começa o curso de direito, a primeira discussão que acontece em sala de aula é: “o que é o direito?” Existem várias definições. A resposta se confunde com a história da evolução dos sistemas de organização da sociedade, um fenômeno político-cultural de várias faces. Antes que se possa aprofundar muito o debate, surge a outra questão primordial: “direito é ciência?” E antes que o calouro possa começar a refletir mais detidamente, as matérias propedêuticas acabaram – e foram substituídas por cadeiras “técnicas”, do dia-a-dia forense; o estudo sistemático de vários códigos e leis e dos grandes subsistemas do direito. Obras de grande importância são dedicadas a responder essa pergunta: “o que é direito?”; e ela é tão fundamental porque, junto com o surgimento do Estado moderno, o direito passou a ter um papel crescentemente influente na vida das pessoas – há pouco tempo, o STF discutia a constitucionalidade da vaquejada; o STJ, a legalidade do ingresso em cinemas de expectadores que não compraram lanches na bomboniére, mas fora do cinema. É claro que, para que se chegasse a temas de tão alta indagação, outros foram antes debatidos: regimes prisionais, progressão de pena, flagrante preparado, direitos da “concubina”, paternidade afetiva etc. Não é exagero dizer que todo e qualquer aspecto da vida cotidiana pode ser judicializado com sucesso.

A definição mais modesta do que seja o direito é próxima de “meio de resolução de conflitos”, definição que surgiu quando a autotutela (a popular “justiça com as próprias mãos”) passou a ser repelida e as sociedades se organizaram hieraquicamente, com a delegação de poderes e funções a um “príncipe” ou “soberano” que detinha a legitimidade de, primeiro, resolver conflitos e, depois, editar regras que vinculavam seus súditos. Os sistemas se aperfeiçoaram, os poderes foram divididos em um sistema tripartido de freios e contrapesos e fiscalização mútua foi instituído e, até hoje, vige entre nós como a “menos pior” das organizações de sociedade possíveis. Com o tempo, percebeu-se que grande parte dos “conflitos” que eram chamados a ser resolvidos pelo árbitro estatal aconteciam justamente entre cidadãos e o Estado; o papel do judiciário – e do próprio direito – passou a ser concebido como um limitador e disciplinador do exercício do poder estatal, já que, com exceções pontuais, apenas o Estado pode exercer a violência legítima e a coação que faz (ou deveria fazer) as regras de conduta e convívio serem respeitadas. Do telégrafo ao GPS evoluímos, e tais concepções evoluíram também. Se isso é necessariamente bom ou mau está aberto à discussão.

Uma transformação importante passou a se fazer sentir: de mediador passivo de conflitos que só poderia agir quando provocado, o judiciário passou a defender para si um papel de maior “protagonismo” – para usarmos um termo tão em voga em nosso tempo. A mera aplicação da lei é démodé; a onda agora é o ativismo judicial, o “positivismo de combate”, a transformação da sociedade por meio dos tribunais. “O que é o direito?” Seria essa a sua finalidade? O liquidômetro no painel de um carro é um indicador seguro de quanto combustível resta no reservatório – discorde dele e você ficará a pé. Hoje o maior indicador do progressismo judicial no Brasil talvez seja o ministro Luís Roberto Barroso. Ele não é o único, nem o primeiro, e nem será o último: mas, do alto do olimpo constitucional e pregado firmemente em uma cadeira do STF, talvez seja o mais influente.

Eis o Ministro Barroso em dois rápidos flashes: primeiro, em uma entrevista concedida em 2010, três anos antes de virar ministro do STF; depois, em uma conferência realizada na Universidade de Nova York, quando já integrava a corte constitucional brasileira. Na entrevista, ele relembra o encontro com o falecido justice Antonin Scalia, da suprema corte dos EUA, que reputa ser “um homem extremamente inteligente, mas também com uma visão extremamente conservadora do Direito”. E explica por que: “ele disse que considerava direito somente aquele criado pela Constituição ou pelo legislador”. E é esse realmente o pensamento de Scalia, para quem “juiz expressa a vontade de juiz, e não do povo. Decisões morais devem ser do povo e do Legislativo”. Fora dos EUA, Scalia é conhecido como um “textualista”, alguém que vê o papel do juiz como limitado pelo texto legal; em sua terra natal, Scalia é mais comumente referido como “originalista”, tendo a expressão o sentido de respeito às palavras “originais” da constituição americana. Barroso debateu com Scalia na UNB, em 2009, e desabafou: “Devo confessar que não concordo com quase nada”, acrescentando que “é uma ficção que se possa imaginar que um juiz seja só a boca da lei. Todo juiz faz juízo de valor”. O Ministro Barroso, depois de empossado, esclareceu essa posição: na conferência realizada na Universidade de Nova York, ele disse que o papel de uma corte constitucional se desdobra em três: contramajoritário, representativo e – atenção – de “vanguarda iluminista”. O papel “contramajoritário” é de relativamente fácil compreensão: pode acontecer de um congresso regularmente eleito aprovar, por maioria (obviamente), uma lei que seja inconstitucional. Cabe então ao STF decidir, pela via do controle de constitucionalidade, se a lei é compatível ou não com a Constituição – é o STF atuando como “legislador negativo”. Ate aí, tudo bem. Mais adiante, as coisas começam a ficar estranhas.

O papel “representativo” do STF, segundo o Ministro Barroso, é o seguinte: “atender demandas sociais que não foram satisfeitas a tempo e a hora pelo Poder Legislativo”. No debate que travou com Antonin Scalia, Barroso afirmou que todo juiz faz “juízo de valor”, e que isso “deve ser feito de forma transparente”. É fácil concordar com a “transparência”, mas será que isso inclui a permissão para o judiciário legislar quando determinadas “demandas sociais” não foram “satisfeitas a tempo e a hora pelo Poder Legislativo”? Parece que, aí, o judiciário começa a extrapolar sua função: é uma escolha ideológica clara usurpar a função de outro poder por causa de “demandas sociais”. Que “demandas” são essas? Quem escolhe as “demandas” mais importantes e, o que é ainda mais relevante, define como devem ser resolvidas? Quem conferiu ao Ministro Barroso o poder de se substituir ao parlamento quando ele não atenda a demandas sociais ”a tempo e hora”? O Ministro Barroso, porque foi escolhido por um presidente da república eleito regularmente, pode exercer funções que não são suas? Mistérios da meia noite…

O contraponto do ativismo judicial de Barroso com a visão de Antonin Scalia é bastante elucidativo. Quando foi nomeado por Ronald Reagan, Scalia se declarava favorável à exibição das sessões da Suprema Corte dos EUA na televisão. Anos depois, reviu sua posição e, corajosamente, disse que o fez porque “familiaridade cria desprezo” – isto é, se sessões da Suprema Corte passassem a ser televisionadas, um componente de exibicionismo poderia infectar as discussões, e as câmeras poderiam passar a acuar os juízes e torná-los reféns da opinião pública. Para Scalia, essa questão estava superada: a opinião pública e as “demandas sociais” estavam representadas pela lei, elaborada por representantes eleitos diretamente pelo povo. Exibir os julgamentos da suprema corte na televisão seria uma redundância desnecessária. Mas Barroso pensa diferente: na entrevista que concedeu antes de ser nomeado ele disse o seguinte: “eu gosto da deliberação pública e da transmissão pela televisão”, mesmo reconhecendo as limitações que daí decorriam. É claro que ele gosta das transmissões: em 2010 ele já se imaginava lá, deslumbrado consigo mesmo. Não deixa de ser curioso que, indagado na mesma entrevista, tenha dito que jamais fez campanha pra ser conduzido ao STF, mas, perguntado sobre quem indicaria, tenha apontado, entre três nomes, dois que acabaram também conduzidos ao tribunal: Luiz Fux e Luiz Edson Fachin.

Barroso é um pavão: se julga integrante de uma “vanguarda iluminista”, apto a “suprir lacunas” deixadas pelo legislador sempre que “demandas sociais” se fizerem presentes – o método de aferição de tais demandas, de sua relevância, de seu “lugar na fila” permanece, contudo, um mistério. É o tal “juízo de valor” que, segundo ele, “todo juiz faz”. A “transparência” da qual ele fala deve ser a impostação da sua voz nas sessões televisionadas do STF – pela linguagem corporal, ele talvez seja um dos mais conscientes de estar sendo transmitido para todo o país, ombreando com Fux e seus impecáveis colarinhos. De qualquer forma, já ficou claro que Barroso confunde a toga cerimonial com uma capa de super-herói bem intencionado, detentor de uma superioridade moral presumida que lhe confere poderes quase sobrenaturais – mas que nenhum dos destinatários de suas criações lhe conferiu.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

Opressores e oprimidos nos rolezinhos

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O assunto já miou, até as mais exaustivas análises foram feitas (exaustivas in stricto sensu: é de se duvidar que alguém tenha terminado de ler o artigo de Eliane Brum até além de 30%). Os rolezinhos assombraram São Paulo, aterrorizaram os “centros de consumo” e todos já emitiram um mol de opiniões a respeito.

A constante nas opiniões é a dicotomia entre quem busca alguma ordem de comportamentos esperada em um ambiente e quem enxerga desigualdade social e a eterna luta entre opressores e oprimidos.

Se a aleivosia marxista com seus cacoetes sobre “luta de classes” não cola mais, falar em “desigualdade social” e “opressores e oprimidos” está na última moda Primavera-Verão. Embora seja apenas um eufemismo daquela, tratam esses cacoetes lingüísticos como a fina flor da análise social contemporânea e atualizada.

Não existem “opressores e oprimidos” senão quando alguém usa de força ou coação para forçar outra pessoa a agir diferentemente do que voluntariamente agiria. A função de um governo é, justamente, evitar o sofrimento no convívio dos homens – sejam agressões, coações, trapaças, discriminações desnecessárias, assédios, ameaças, constrangimentos e afins. “Criar direitos” e outras invenções do gênero são apenas invenções de um movimento com origens em Rousseau, passando por Marx e que chega com histórico único até o progressismo.

A forma como os progressistas visualizam “opressores e oprimidos” não é apenas estanque, como é inata. Alguém “nasce” opressor tão somente por ter algo que o “oprimido” não tem – se pensam apenas em “igualdade”, toda traição a este projeto igualitário e coletivista de “igualdade” é uma traição a todas as pessoas, mesmo nunca tendo feito nada contra elas – ou mesmo as ajudando.

Uma pessoa bonita está naturalmente “oprimindo” uma pessoa feia, uma pessoa com sorte está “oprimindo” o azarado, o rico está “oprimindo” o pobre graças à ostentação, o forte está “oprimindo” o fraco – e tudo isso antes mesmo de um cruzar com o outro. É uma versão nova do pecado original. Se é culpado até prova em contrário – geralmente, passando-se a fazer parte da matilha.

Essa mentalidade doentia passa a ser aplicada a qualquer relação com possibilidade de conflito, mesmo que o conflito não exista. É como lidam com preconceitos: o branco está “oprimindo” o negro, o homem está “oprimindo” a mulher, o heterossexual está “oprimindo” o gay. Utilizando-se os conceitos do filosofeta de gabinete Michel Foucault, encontram a “sociedade disciplinar” em tudo: o professor “oprime” o aluno, o pai “oprime” os filhos.

Curiosamente, para sobrepujar a “sociedade disciplinar” e sua “microfísica do poder”, buscam uma sociedade igualitária, que, para igualar desiguais, precisa de uma força disciplinar do tamanho do Universo and beyond.

rolezinho polícia revista brancaPara a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT) – ministério criado ad hoc para o PT dizer que tem ministros negros – quem faz rolezinho no shopping não é discriminado por tumultuar um ambiente feito para a calma, por saquear lojas, por “zoar” um espaço em que se paga pela tranqüilidade e segurança. Para a ministra petista, “os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens”. Ou seja, o problema não são saques, tumultos, zoeiras, e sim quem não gosta disso – e é branco.

O branco está errado, mesmo não tendo feito absolutamente nada além de não ter gostado de ser tumultuado por quem, sim, fez alguma coisa.

Para o Brasil 247, o rolezinho “desmascara o racismo no Brasil”. Para o Jornal GGN, em post de Luís Nassif, proibir o rolezinho é “atitude racista” dos shoppings – mesmo quando as imagens mostram que a maior parte dos rolezeiros são brancos. Para o Diário do Centro do Mundo, reação a rolezinhos é “histeria racista” que quer “criminalizar” rolezinhos – mesmo ninguém tendo proposto proibir negros de entrarem em shopping, ou de jovens irem a shoppings em galera, ou dito que um ajuntamento de pessoas da periferia deve ser considerado “crime”, como as eternas criminalizações do sr. Leonardo Sakamoto. Para a revista Fórum, aconteceu um “apartheid à brasileira”. Faltou apenas uma comparação com Auschwitz. Quer dizer, faltou em blogs: no Twitter não faltou.

Para o Geledés Instituto da Mulher Negra, o rolezinho está entre (sic) “a elite sem vergonha e a vanguarda do racismo”, mesmo que os rolezinhos tenham sido organizados em lugares hiper elitistas como Itaquera e Campo Limpo. Para o Quadrado de Loucos, rolezinho é “ação afirmativa” (sic) contra racismo. Para o Centro de Mídia Independente, se não fosse o o racismo, não existiria rolezinho.

Para Eliane Brum, ex-Época e atual El País, “a lógica que criminalizou os rolezinhos é a mesma que levou a polícia a registrar a morte do adolescente Kaique Augusto Batista dos Santos como suicídio, antes de qualquer investigação”. Malgrado para Brum, a conclusão da polícia se deu graças a uma investigação, e a própria família da vítima confirmou tal suposição (depois de mais uma marcha contra “homofobia”), tendo encontrado um bilhete de despedida. Para Brum, realizou-se um apartheid no shopping. Para Brum, foi a “rebelião dos excluídos”.

Todas essas análises têm uma coisa em comum: primeiro garantem que há “oprimidos e opressores”, depois vão pensar em analisar os fatos. Não é preciso ter um esgar de dúvida: todas essas pessoas pensavam em “culpar o racismo” antes mesmo de se pesquisar por alguns minutos sobre o que são os rolezinhos e como se dão. A resposta já estava com eles antes dos fatos.

rolezinho apartheid racistaNão à toa, encontra-se “racismo” em rolezinhos cuja maioria dos frequentadores são brancos, encontra-se racismo em policias mantendo a ordem em shopping sem incomodar negros almoçando, encontra-se “exclusão” quando a maioria dos praticantes do rolezinho costuma ir para os mesmos shoppings (inclusive com os amigos) sem sofrerem exclusão nenhuma – por sinal, todos shoppings de periferia (e, claro, encontra-se “homofobia” e culpa da PM em um suicídio).

Mas estão lá, com suas opiniões prontas para tudo através de palavras de ordem em voga que podem ser sempre sacadas da cartola, como “racismo”, “desigualdade”, “exclusão” e a luta de classes forjada, traduzida hoje em “desigualdade social” e “opressores e oprimidos” – estes brancos e elitistas malvados de Itaquera que não querem que pobres freqüentem o mesmo shopping que eles, no fim da linha leste do metrô, do outro lado do Gambazão, o futuro estádio do Corinthians.

É um pensamento pronto que simplesmente não se encaixa na realidade. Opressores e oprimidos não são marcas de nascença – muito menos “comportamentos” que podem existir sem as pessoas fazerem nada. Um simples motoboy passa de opressor a oprimido e vice-versa umas 40 vezes em uma única avenida. Mas esta realidade é complexa demais para nossos formadores de opinião conseguirem colocar cérebro adentro.

A imaginação moral dos rolezinhos

Um dos conceitos mais importantes para se entender a realidade é a “imaginação moral”, um dos temas tratados pelos grandes críticos literários do último século, e firmemente estudado pelo maior dissecador da mentalidade esquerdista do planeta, o crítico literário Lionel Trilling, autor de The Liberal Imagination.

Desde a Idade Média (ou desde Platão) sabe-se que a forma de se encontrar o melhor substrato moral para se viver em um mundo conflituoso, difícil e que não se encaixa em conceitos fixos e estanques (como “conservadores” e “progressistas” fechados, nunca fazendo concessões, misturas, se contradizendo e afins) é recorrendo à literatura clássica e seus dissabores tão grandiosos que exigem soluções difíceis, conflitivas até dentro da própria cabeça, que não são encontradas em um simples manual de instruções para a vida – muito menos em cacoetes e automatismos lingüísticos usados para tudo.

Os termos conflitivos usados por Trilling, estudados pela grande gênia da literatura Gertrud Himmelfarb, são, nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, “os termos que traduzem a própria substância da vida moral, não como aparece no esquematismo abstrato dos códigos e regras, mas na realidade da existência concreta, que não é acessível à compreensão intelectual antes de ser elaborada em símbolos pela imaginação literária.” Isto quer dizer:

O progressismo, observava Trilling, era de fato a única tradição intelectual dos EUA. Entre o povo havia sentimentos conservadores, mas não, entre os intelectuais, uma história contínua de idéias conservadoras em debate. Daí a importância de examinar o fundo de símbolos e emoções por baixo das idéias esquerdistas em evidência. E a primeira coisa que o crítico aí notava era a rigidez esquemática das reações morais, a falta daquela abertura para a variedade e ambigüidade das situações humanas, que tão nitidamente transparecia entre os conservadores como Samuel Johnson, Edmund Burke, Samuel Taylor Coleridge, Mathew Arnold – ou, acrescento eu, Balzac, Dostoievski, Leonid Andreiev, Manzoni, Papini, Henry James, Conrad, Mauriac, Bernanos, Soljenítsin, V. S. Naipaul, Eugenio Corti.

Ou seja, o progressista, o esquerdista, o socialista, o social-democrata são fracos em conceitos para analisar o real. Basta ver como qualquer música de Chico Buarque tratando um personagem como um anjo sofredor e outro como o Cramunhão Tranca-Rua Ele Próprio é vista como “obra belíssima”.

Falta uma imaginação que entenda que é preciso se aferrar a uma moral rígida, mas que o tecido do real se deslinda de tantas formas que nunca será possível prever o que se faz em todas as situações. A cena inicial do filme Limite Vertical, em que uma família de alpinistas fica presa em uma montanha por apenas uma corda que não agüenta o peso de todos, e o pai, no fim da corda, pede para o filho cortá-la, deixa o filho em uma situação bastante conflitante entre o “Não matarás”, o “Honrar pai e mãe” e o princípio geral de que três mortes inevitáveis que aconteceriam “sozinhas” são piores do que apenas um parricídio cometido por ele próprio. É nessas horas que a imaginação moral, para a ficção e para a vida, impõe algo além de cacoetes de explicações fáceis da realidade (e totalmente erradas). Explica Olavo:

“Se o progressismo tem uma fraqueza desesperadora, é uma imaginação moral inadequada.” Inadequada porque simplista e irrealista. “O progressista pensa que o bom é bom e o mau é mau: ante a idéia de bom-e-mau, sua imaginação falha.”

A diferença aparece com ênfase máxima na maneira como os romancistas traçam os personagens de seus virtuais antagonistas políticos. Os romances escritos pelos conservadores pululam de revolucionários, comunistas, anarquistas, terroristas e assassinos políticos retratados com toda a complexidade moral da sua vida interior e das situações que atravessam. Nos romances “de esquerda”, o adversário político quase sempre aparece sob forma caricatural, desumanizada ou monstruosa, sem qualquer atenuante, sem qualquer ambigüidade, sem qualquer concessão relativista ou mera simpatia humana. Leiam Gorki, Barbusse, Brecht, Hemingway, John Steinbeck, Ilya Ehrenburg, Theodore Dreiser, Lillian Helman, Howard Fast, e entenderão do que estou falando.

Ora, rolezinhos são a nova onda de jovens de periferia que não têm referências culturais, todas assaltadas do país pelo progressismo que impera na educação e na cultura desde a agitação universitária na ditadura até a instalação progressiva do analfabetismo de Paulo Freire em todas as esferas da educação. Sem ídolos, literatura, música, arte e ficção de qualidade, restam-lhe os apelos dos funks de periferia, que basicamente reduzem o ser humano às suas funções mais primitivas: é um bicho que se alimenta, se reproduz e faz excreção (e não será surpresa se a próxima leva do funk passar a tratar essa última função como tema musical precípuo).

une chapa brancaTodavia, mesmo esses jovens, os “excluídos” de uma sociedade que não lhes feriu em nada, não caem na conversa mole de exclusão, desigualdade, oprimidos e o que mais tenha cativado algumas mentes riquinhas e empulhadas de Deleuze e coitadismo academicista nas últimas décadas. Pelo contrário, apenas querem consumir, ainda que pelos piores motivos, da pior forma, com péssima gramática e com trejeitos que apenas os estigmatizam.

São pessoas com grandes contradições dentro de si, que se conhecessem teorias sólidas sobre a realidade poderiam purificar seus comportamentos, pensamentos e desejos e se tornarem pessoas morais. Todavia, com a hegemonia de pensamento pronto que dominou o Brasil, só têm como referência o discurso malemolente da desigualdade e da exclusão – mas, mesmo com o orgulho de serem da periferia, ouvindo péssima música e fazendo arruaça que permite arrastões, não caem mais nessa esparrela.

O que sobra do discurso de “opressor e oprimido” são comentários de jornalistas e blogueiros que nunca usaram a linha leste do metrô, mas se sentem “defensores dos pobres” em bares caros com decoração rústica na Vila Madalena. Parece um papo de justiça, sobretudo aquela modalidade de injustiça chamada de “justiça social”, mas o perigo continua latente.

Se ser “opressor” é apenas ter algo que outra pessoa não tem (e, por esquemas simplistas de pensamento, se você inventa algo e passa a ter, todos os outros passam a ter direito a ter o que você tem), basta marcar alguém como “inimigo de toda a sociedade” e problema resolvido. Os maiores massacres da história mundial não foram perpetrados por opressores contra oprimidos, e sim por aqueles que martelaram propaganda por tempo o suficiente que eram “contra os opressores” e os reduziram a pilhas de cadáveres na vala comum.

Não à toa, os judeus (os “burgueses”, os “coxinhas”, os “elitistas”) foram a maior vítima do nazismo (aquela coisa com a qual a esquerda compara tudo o que não gosta). Pergunte as relações da esquerda vitimista com os judeus, com Israel ou com a tradição comercial judaica para perceber como se tornam imediatamente opressores. É o que acontece quando se cola bem a idéia de que um “opressor” é um opressor “inato”, sem retorno: qualquer agressão a um opressor está justificada. Qualquer agressão.

Como toda a tropa de choque de pensamento esquerdista se resume ao dinheirismo mais baixo, acreditando que seres humanos são apenas sua faixa salarial, fica-se com a economia de banheiro, jurando que shoppings na periferia são pátios de consumismo da elite. Não importam os fatos, e sim palavras de forte apelo emocional por si, como “elite”, “consumo”, “exclusão”.

yasmin_rolezinhoÉ por isso que Yasmin Oliveira, 15, freqüentadora de rolezinhos e flagrada em uma laje sem reboco com tênis de R$ 500, postou um vídeo explicando que cada um tem que cuidar da sua vida ao invés de cuidar das dos outros, que ela gasta com o que ela quiser sem ninguém encher o saco, que a mãe dela ganhou dinheiro com o esforço dela, e se antes pagava aluguel, hoje tem uma casa para arrendar, que quando quer roupa de marca faz seus bicos e compra, que na favela as pessoas querem consumir e trabalham pra isso.

A melhor defesa do capitalismo vista em anos – deu uma surra violenta em todos os sociólogos da “desigualdade” do Brasil JUNTOS (em que momento a moça disse que, já que é da favela, precisa de cota e “distribuição de renda” pra usar roupa de marca?). E a moça até mostra que trabalhar embeleza todo mundo.

Dêem uns 5 livros de Escola Austríaca pra essa menina e em breve teremos a primeira mulher a explicar as vantagens do capitalismo selvagem pra esse país que coloca “social” até em nome de bolacha. Ela, moradora da periferia, nunca vai aceitar o pobrismo de intelectual brasileiro, que acredita que defende pobre ao defender ladrão e assassino que tem os pobres como principais vítimas.

Não adianta perguntar para a Eliane Brum, para o Luís Nassif, para o Paulo Nogueira, para o P. C. Siqueira, para a ministra dos negros e para um escol de formadores de opinião com o mesmo arcabouço intelectual sempre igualitariamente do mesmo quilate: sobre tais grandes contribuições à cultura e civilização humanas, são hagiograficamente virgens.

Sem a própria imaginação moral, resta sempre crer fielmente segundo a cartilha do Pentateuco progressista: tudo o que é que crítica ao que se pensa é “interesse de classe”, e essa imaginação moral é só uma forma de esconder que o pobre é só um pobre, e nada mais do que um pobre – nunca um homem digno, corajoso, beberrão, bondoso, preguiçoso, estóico, religioso, agressivo, aproveitador, vaidoso, defensor dos fracos – possivelmente tudo isso junto, ao mesmo tempo.

O pobre é apenas um pobre – uma estatística, um número baseado em seu salário. Não por outro motivo que Mao Tsé-Tung quis abolir os nomes em sua China igualitária, deixando cada pessoa apenas com um número de referência.