Análise: o correto é Temer sair, mas seu substituto tende a ser pior para a Lava Jato

Falando apenas pela convicção moral, a renúncia de Michel Temer, o quanto antes, continua sendo o mais acertado. Porém, é preciso também trazer o cálculo político de uma eventual troca. E a conta não é exatamente positiva. Vamos lá.

Em primeiro lugar, o único cenário possível é de eleição indireta mediante renúncia. A esquerda defende “diretas já” por uma mistura de má-fé e burrice, cabendo ao leitor calcular as proporções de cada ingrediente. E impeachment não acontecerá porque não há votos bastantes e nem tempo hábil para isso.

Passado o óbvio, vem o cálculo: há três forças relevantes no Congresso. O antigo governismo, o novo governismo e os fisiológicos. Os parlamentares com alguma ideologia não formariam um time de futebol de salão – a menos que escolhessem o sistema goleiro-linha.

E o que as três forças relevantes têm em comum? A Lava Jato. Qual nome agregaria mais votos de todos os lados? Aquele que topasse melar.

A saída de Temer segue sendo a opção moralmente defensável, e insistiremos quanto a este caminho ser o correto, mas não dá para ser ingênuo a ponto de supor que este Congresso escolherá um nome melhor na defesa das apurações. Ou fica tudo igual ou – e é o provável – piora. Sim, Tiririca estava brincando quando inventou o slogan de sua campanha.

Por pior que seja a atuação do atual presidente quanto a isso, todas as tendências mais óbvias levam a crer que, em seu lugar, colocarão alguém com total comprometimento a respeito da missão central. Talvez tome alguma atitude populista (como a liberação do FGTS), certamente manterá as reformas, mas o foco tende a ser o comentado nesta análise.

Então, é isso. Não há final feliz. Formular teses como “passa o trator em tudo, depois joga sal por cima” é bom para desopilar o fígado, mas é algo inviável e evidentemente impossível. Considerando apenas o mundo real, esse é o quadro.

Estejamos preparados para o pior. E também para o pior ainda.

Em editorial duro, jornal O Globo defende a renúncia de Michel Temer

O editorial de hoje do jornal O Globo é realmente duro contra Michel Temer. Segundo a publicação, o melhor ao país seria sua renúncia, e sem sair do roteiro constitucional – ou seja, sem a invencionice das “diretas”, que não são previstas na Constituição para este tipo de hipótese.

Seguem trechos:

“Um presidente da República aceita receber a visita de um megaempresário alvo de cinco operações da Policia Federal que apuram o pagamento de milhões em propinas entregues a autoridades públicas, inclusive a aliados do próprio presidente. O encontro não é às claras, no Palácio do Planalto, com agenda pública. Ele se dá quase às onze horas da noite na residência do presidente, de forma clandestina. Ao sair, o empresário combina novos encontros do tipo, e se vangloria do esquema que deu certo: “Fui chegando, eles abriram. Nem perguntaram o meu nome”. A simples decisão de recebê-lo já guardaria boa dose de escândalo. Mas houve mais, muito mais (…)

Em menos de 40 minutos de conversa, o empresário ainda encontra tempo para se queixar de um ex-funcionário seu, atual ministro da Fazenda. Diz, com desfaçatez, que tem enfrentado resistência no ministro da Fazenda para conseguir a troca dos mais altos funcionários do governo na área econômica: o secretário da Receita Federal, a presidente do BNDES, o presidente do Cade e o presidente da CVM. Pede, então, que seja autorizado a usar o nome do presidente quando for novamente ao ministro da Fazenda com tais pleitos. O que faz o presidente? Manda-o embora, indignado? Não, de forma alguma. O presidente autoriza: ‘Pode fazer’ (…)

A renúncia é uma decisão unilateral do presidente. Se desejar, não o que é melhor para si, mas para o país, esta acabará sendo a decisão que Michel Temer tomará. É o que os cidadãos de bem esperam dele. Se não o fizer, arrastará o Brasil a uma crise política ainda mais profunda que, ninguém se engane, chegará, contudo, ao mesmo resultado, seja pelo impeachment, seja por denúncia acolhida pelo Supremo Tribunal Federal. O caminho pela frente não será fácil. Mas, se há um consolo, é que a Constituição cidadã de 1988 tem o roteiro para percorrê-lo. O Brasil deve se manter integralmente fiel a ela, sem inovações ou atalhos, e enfrentar a realidade sem ilusões vãs. E, passo a passo, chegar ao futuro de bem estar que toda a nação deseja”

Com permanência de Temer, “Brasil caminha para virar uma Venezuela”, diz economista

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, bateu forte em Michel Temer ao ser entrevistada pelo Estadão. Palavras de fato contundentes, por assim dizer. Segue trecho:

“O Temer deveria ter a hombridade de renunciar. Se ele quer se mostrar tão diferente da Dilma, se quer entrar para a história com alguma dignidade, ele tem que renunciar. Ele tem que fazer o que ela não fez. Não pode ficar nesse jogo de tentar acobertar, de dizer que é tudo mentira. Chega. Ninguém aguenta mais ouvir isso. Insistir é um erro. Precisamos purgar isso. Na perspectiva de corrosão institucional, se ficar como está, o Brasil caminha para virar uma Venezuela”

De fato, Temer prestaria um serviço ao país renunciando, independentemente da veracidade das acusações – das quais pode se defender até melhor fora do Planalto. A análise de Monica de Bolle soa pessimista, mas é infelizmente bem realista.

Análise: ao evitar renúncia, Michel Temer opta pelo pior ao país

Em seu aguardado pronunciamento de hoje, Michel Temer decidiu manter-se no poder, embora houvesse expectativa de renúncia. Uma pena. Tomou a pior decisão para o país, e isso será algo péssimo, especialmente considerando os avanços.

MESMO QUE NÃO TENHA CULPA, e não é hora de atestar qualquer decisão definitiva nesse sentido, claro que a governabilidade ficará frágil, talvez impossível. As reformas, já de difícil aprovação, certamente sofrerão. Ele resolveu “trucar”, como dizem, e quem pagará – independentemente de ter a carta – será o Brasil.

Temer deveria reconsiderar tal posição, mas depois de um pronunciamento assim, convenhamos, fica bem difícil especular sobre um recuo. Lamentável.

Agora, terá contra si manifestações de rua dos que já eram adversários, o abandono daqueles que então o apoiavam, a imprensa em peso e mesmo os veículos alternativos questionando cada medida. Somam-se a isso os pedidos de impeachment já apresentados, e as perspectivas são bem ruins.

Diferentemente de “certas pessoas”, a “presidenta” da Coreia do Sul disse que renunciará

O caso já foi abordado aqui no Implicante. A presidente da Coreia do Sul foi atingida em cheio numa crise política quando a opinião pública descobriu que a gestora respondia às vontades de Choi Soon-Sil, amiga, confidente e uma espécie de “guru espiritual” que usava a proximidade com Park Geun-hye para tráfico de influência e extorsão de grandes empresas.

A população tem ido constantemente às ruas em protestos gigantescos. De início, Geun-hye negou qualquer possibilidade de renúncia. Mas já promete renunciar assim que o Congresso definir o rito de passagem para o próximo gestor. Quer, com isso, evitar a vergonha de ser destituída num processo semelhante ao impeachment.

Porque lá na Coreia do Sul, diferentemente de no Brasil, ainda há um mínimo de reputação a zelar. Mesmo quando as decisões da Presidência da República respondem a interesses de gurus espirituais.

Cunha renunciou. E Dilma? Quando fará o mesmo favor ao Brasil?

Há muita coisa em jogo, especula-se até mesmo a possibilidade de um “acordão” que salvaria Eduardo Cunha de um processo de cassação durante os Jogos Olímpicos, quando as atenções estarão voltadas ao evento. Mas fato é que a renúncia de Cunha veio quando se comprovou o perigo de se manter Waldir Maranhão no cargo. Na véspera, a gestão do interino do executivo sofreu a primeira grande derrota na casa do interino do legislativo – o deputado federal carioca enumerou, dentre os motivos para a rendição, a bizarrice da situação.

E Dilma Rousseff? Quando assumirá que está atrapalhando um país inteiro? Consumindo recursos públicos, ocupando a residência oficial, atrasando a vida de pelo menos 21 senadores que poderiam estar usando o salário que recebem do contribuinte para pautas mais construtivas ao país? Quando a petista reconhecerá a derrota e liberará o governo Temer para ter a força política necessária para caminhar com o ajuste fiscal que ela foi incapaz de tocar dentro do próprio partido?

A resposta menos arriscada talvez seja: nunca. Porque o PT nunca se importou com o país, mas apenas com ele mesmo.

A renúncia de Cunha é péssima para Dilma e PT por dois motivos. Entenda.

Eduardo Cunha - Dilma Rousseff - renuncia - impeachment - Foto Pedro Ladeira Folhapress

Eduardo Cunha (PMDB/RJ) acaba de renunciar à Presidência da Câmara dos Deputados, por meio de uma espécie de pronunciamento transmitido pelas emissoras de notícia. Continua como deputado, mas perderá várias regalias e muito poder. Muito, mesmo.

Desse modo, os petistas devem estar comemorando, certo? Não, não estão. Exceto um ou outro militante mais inocente (sim, os há), o resto está ressabiado, especialmente os líderes.

Isso porque a renúncia do inimigo é péssima para o partido. E por dois motivos.

Discurso e Simbolismo – o “Fora, Dilma!” sempre vinha acompanhado de um “Fora, Cunha!” de rebote, e isso mesmo na imprensa ou nas colunas. Sua permanência presidindo a Câmara era uma espécie de subterfúgio a quase justificar algumas defesas da presidente afastada (sim, é idiota, mas faziam isso). Muitas vezes – e esse é um caso assim – o algoz AJUDA a narrativa e, quando é finalmente abatido, com ele também cai boa parte da trama engendrada. Foi o que houve; acabou esse discurso. Aliás, ele já estava afastado, a renúncia foi quase uma chancela desse afastamento. E a mensagem simbólica do ato recairá sobre Dilma, que passa por situação relativamente similar.

Articulação – a Presidência da Câmara é um cargo de muita disputa (muita, mesmo), o que engajará diversos partidos e reformulará algumas das forças da casa. Há espaço para o novo governo rearranjar aliados e, com isso, os petistas tenderão a perder ainda mais sua influência (já bem escassa, vale lembrar). E é importante rememorar também que o conflito Cunha x PT surgiu numa eleição dessas, quando o partido resolveu atropelar o que seria um trato entre legendas aliadas e ganhou assim um inimigo de estimação poderoso.

Enfim, a notícia é arrasadora para os petistas. Perdem um de seus principais discursos, recebem sobre si o peso simbólico desse ato e ainda por cima diminuirão seu poder no Congresso.

Assim, vale apostar na boa, velha e infalível regra: se é ruim para o PT, de alguma forma será bom ao Brasil.

Aguardemos para saber como.

Que fase! Até petistas atacam proposta das “novas eleições” de Dilma

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Após os boatos de que Dilma estaria disposta a renunciar para tentar forçar o vice Michel Temer a fazer o mesmo, após enviar ao Congresso uma lei que convocasse novas eleições, a imprensa procurou ouvir políticos sobre o tema. Naturalmente, oposicionistas e aliados de Temer criticaram a ideia. Dilma está tão desmoralizada que até mesmo um petista, o deputado Vicente Cândido (SP), apareceu para lembrar a inconstitucionalidade da proposta, uma vez que o vice já afirmou não estar disposto a abrir mão de seu mandato.

A menos que o PT consiga convencer Temer a renunciar, ele assumirá a Presidência na semana que vem.

 

Marco Aurélio Mello esquece de “enxergar” a renúncia dos “5 ministros do Supremos”

Foto: José Cruz/ABr

Ao Painel da Folha, o ministro Marco Aurélio Mello disse que, mesmo sabendo se tratar de uma utopia, só enxerga uma saída “não traumática” para a crise brasileira: a “renúncia coletiva” da presidente Dilma Rousseff, do seu vice Michel Temer e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Se lidávamos com o tema utopicamente, fica a questão: por que o ministro do STF não vê necessidade na renúncia dos “5 ministros do Supremo” que Dilma teria oferecido a Eduardo Cunha como forma de se safar da canseira que Rodrigo Janot vem lhe proporcionando? Ou mesmo, quem sabe, de todo o tribunal, já que Gilmar Mendes mesmo disse haver muito empenho para prender ladrões de galinha, mas excesso de cuidado quando o envolvido é um peixe grande?

Foto: José Cruz/ABr
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Lula e reuniu-se com Nelson Jobim para avaliar cenários que incluíam até a renúncia de Dilma

O encontro ocorreu há algumas semanas. De acordo com os Antagonistas, a dupla estaria por trás da engenharia que findou fatiando a Lava Jato e enfraquecendo o trabalho de Sérgio Moro. Segundo Mônica Bergamo, avaliaram na reunião que a chance de cassação de Dilma é remota, e que ainda seria possível amarrar os 172 votos que evitariam o impeachment de Dilma. Quanto à renúncia? “Quase impossível, dado o perfil de Dilma.” O primeiro e o terceiro diagnósticos parecem certeiros. Quanto ao segundo, será necessário antes combinar com os russos – ou, vá lá, com os peemedebistas.

Lula e Nelson Jobim
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